Sobre «pontificar»

Ou seja?...

      «Dez milhões de euros é a quantia reclamada à sociedade de advogados PLMJ, onde, entre outros, pontifica José Miguel Júdice, que está a ser acusada de ter deixado prescrever o prazo de envio de um recurso e, com esse acto, ter gorado algumas expectativas de indemnização» («Sociedade de advogados na iminência de pagar indemnização de dez milhões de euros», José Bento Amaro, Público, 29.03.2011, p. 10).
      Se o leitor não sabe o que significa «pontificar», não é por qualquer dicionário que chega a compreender o que é. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, «pontificar» é «celebrar missa com capa e pontifical» e, em sentido figurado, «falar, escrever com entono ou ênfase». Aposto que José Miguel Júdice faz isto na PLMJ. O Dicionário Houaiss regula mais ou menos pelo mesmo. Dos que consultei, apenas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o sentido figurado (mas através de um sentido figurado!) que o verbo tem no excerto acima: «ditar leis».
      Já que a ocasião se nos enseja tão propícia, seja-nos permitido pontificar uma lição ao jornalista: quando usar estes termos um pouco fora de circulação, faça o exame Vieira.

[Post 4628]


Como se fala na rádio

Problema mal resolvido

      «A Covilhã, no distrito de Castelo Branco, situa-se na vertente oriental da serra da Estrela, bem no sopé desta cadeia montanhosa. Desde tempos imemoriais que a localização da Covilhã, na Cova da Beira, muito rica em pastos, fez desta terra um local prazenteiro para a criação de gado ovino e transformou-a em terra de muita lã. A Covilhã chegou mesmo a ser o maior pólo da indústria têxtil no País. E é precisamente ligado à lã que se diz ter nascido o nome “Covilhã” enquanto “covil da lã”. Mas na lenda da Covilhã a história que se conta é outra. Reza a tradição oral que o governador de Ceuta, Julião de seu nome, enfurecido pelo facto de a sua bela filha se ter apaixonado por um rei godo, e com ele ter fugido, querendo vingar-se dos Godos, ter-se-á aliado aos Mouros e permitido que estes passassem pela zona e por ali permanecessem. Conta-se ainda que, quando o rei godo morreu, numa batalha contra os ditos Mouros, a filha de Julião ter-se-á refugiado no local que ficou conhecido como a Cova de Juliana. Juliana por esta ser filha de Julião. E a Cova de Juliana deu mais tarde lugar à agregação “Covaliana” e de “Covaliana” nasceu “Covilhã”» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 25.03.2011).
      O que faz mais espécie é certamente «o nome “Covilhã” enquanto “covil da lã”». Mas há mais. E aquele «enfurecido pelo facto de»? É outra maldição dos tempos modernos. O mais censurável, contudo, é a «agregação». Então agora é este nome que se lhe dá?
[Post 4627]
Nota para os leitores adventícios: o título deste texto vem daqui.

Ortografia: «conselheiro-geral»

Analogia

      «O partido de extrema-direita de Le Pen ficou abaixo dos resultados da primeira volta (15 por cento), mas confirmou a tendência de crescimento e implantação nacional. Até agora não tinha qualquer eleito nos cantões, e agora terá conseguido eleger pelo menos dois conselheiros, dizia ontem à noite o Le Figaro (os cantões são a circunscrição eleitoral dos conselheiros gerais, que vão integrar o governo de cada um dos departamentos)» («PS vence eleições cantonais em França, FN ganha terreno», Clara Barata, Público, 28.03.2011, p. 13).
      Se se escreve «governador-geral», por exemplo, não sei porque se não há-de escrever «conselheiro-geral».

[Post 4626]

Particípios em «-e»

Said Ali

      E dizemos nós. «Assim observamos junto do particípio normal entregado o concorrente terrível entregue. Já o seu aspecto externo nos surpreende. Exceptuada a palavra livre — um adjetivo que também faz de particípio — não sabemos de outro exemplo de forma participial em –e em todo o português literário desde o seu comêço até o fim da era seiscentista, e ainda mais tarde» (Dificuldades da Língua Portuguêsa, M. Said Ali. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 6.ª ed.,1966, p. 128).

[Post 4625]


Ortografia: «cantábile»

Língua operática¹

      Vasco Graça Moura e João Botelho estrearam na semana passada uma ópera, Banksters, no São Carlos. Os excertos da ópera surpreenderam-me. Ópera em português! Disse a determinada altura João Botelho no programa Câmara Clara: «A língua portuguesa é cantábile.» Cantábile ou cantante, ou seja, próprio para canto. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista somente o substantivo «cantabile», movimento não tão lento como o adágio. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora registe «cantabile» como adjectivo, é referente ao andamento menos lento que o adágio. Para os responsáveis destes dois dicionários: se registam «adágio» e não «adagio» para o trecho musical lento, porque não optam pelo aportuguesamento «cantábile»?

[Post 4624]



¹ Estive tentado a escrever «operística», mas temi que o revisor antibrasileiro me lesse. Lembram-se do «clubístico»?

Léxico: «neveiro»

Não só

      Quanto a dicionários, também podemos falar de novíssimos. Ora vejam: para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, «neveiro» é o «vendedor de sorvetes»! Mesmo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não andou bem, apesar de registar que é o «fabricante ou vendedor de gelo ou sorvetes; sorveteiro». E a neve? Consultem o Aulete.
      «Desconhecido para a maioria dos portugueses, aquele engenho teve construção iniciada em 1741, destinado a fornecer gelo a Lisboa, a comerciantes e hospitais, e à casa real, apreciadora de gelados e bebidas frias, hábitos que terão sido introduzidos na corte por Filipe II. O empreendimento é atribuído a Trófimo Paillete, João Rosa e Pedro Francaleza, e era operado por dezenas de neveiros de Pragança, a localidade que lhe fica mais próxima, no concelho do Cadaval, não distante do Tejo e a cerca de 50 quilómetros de Lisboa» («A história do gelo que arrefecia Lisboa está pronta a ser contada», Carlos Filipe, Público, 28.03.2011, p. 21).

[Post 4623]

Sobre o símbolo #

Magna questão

      Na sua crónica de hoje no Público, Miguel Esteves Cardoso fala do símbolo #, que já aqui nos ocupou.
      «No Spectator datado de anteontem, Rory Sutherland divertia-se com a universalidade de gin tonic, compreensível em todos os bares do mundo, com os caprichos do símbolo #, que tem nome diferente em todas as línguas. Se puder, leia a coluna inteira: http://bit.ly/fctR14
      Senão, fique sabendo que R.S. apurou que em português dizemos “terminal”, “cardinal” ou “jogo-da-velha” — coisa que, adianta ele, significa “noughts and crosses”, mais conhecido em Portugal como o “jogo do galo”.
      Embora nunca tenha ouvido dizer “marque o número seguido de jogo-da-velha”, tenho de tirar o chapéu a quem assim chamou ao cruzamento de duas linhas horizontais com outras duas verticais. Acho até que jogo do galo, tal como arroba para o @, é a definição perfeita da disposição gráfica do caracter que se pretende» («Almofadinha cardinal», Miguel Esteves Cardoso, Público, 28.03.2011, p. 31).
      (Só um reparo: porque é que Miguel Esteves Cardoso, à semelhança de muitos outros, não pôs ponto final depois do URL, se encerra frase? Mais outro: porque é que Miguel Esteves Cardoso escreve «jogo-da-velha» mas «jogo do galo»? O Sr. Hífen continua a fazer das suas.)

 [Post 4622]

Como se escreve nos jornais

Escreve-se mal

      «As eleições nos estados federados de Estugarda e Mainz são a terceira e quarta de um superano eleitoral na Alemanha, que começou com Hamburgo (e uma pesada derrota da CDU) e que terminará em Berlim (onde se prevê um duelo entre SPD e Verdes). Estas eleições são importantes» («A quarta eleição do superano eleitoral», Maria João Guimarães, Público, 27.03.2011, p. 16).
      Não é à primeira — nem talvez à quarta — que o leitor desprevenido consegue atingir o estratosférico pensamento da jornalista. Primeiro pensei que fosse uma tentativa (frustrada, a avaliar pela dificuldade em interpretar) de aportuguesar um vocábulo alemão. Ah!, é o prefixo super + o substantivo ano. Ah... Parece uma charada. Soberano? Soprano? Gostava de saber o que José Queirós, o provedor do leitor do Público, diz desta palhaçada.

[Post 4621]

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