Linguagem

Contem-me coisas

      «A pobre andava tão atrasada de víveres que nem deu porque havia ali coisa no ar» (Nome de Guerra, Almada Negreiros. Lisboa: INCM, 1986, p. 49). «A pobre andava tão atrasada de víveres que nem deu por que havia ali coisa no ar» (Nome de Guerra, Almada Negreiros. Assírio & Alvim, p. 2001, p. 26). «Este burro de Gottenheld não deu por que havia mudança na vida, não soube ver que o seu caminho estava engolido pela água escura, e que o seu habitual itinerário não tinha agora sentido, nem ninguém o queria» (O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, Mário de Carvalho. Lisboa: Vega, 1982, p. 56).
      
[Post 4620]

Uso das aspas

Coma irreversível

      Vasco Pulido Valente será, como afirma Montexto, uma das penas mais bem aparadas do português moribundo de hoje, mas tem algumas manias difíceis de tolerar. Uma delas, e, a meu ver, a pior, é o uso inconsiderado de aspas. No fundo, é como se estivesse a dizer ao leitor que nenhuma daquelas são expressões que ele use. Muito estranho. Um exemplo da sua crónica de hoje, porém, vem demonstrar outro erro já aqui denunciado por mim em relação a outros autores: o uso de comas em sentidos secundários de certos vocábulos. Ei-lo: «O dinheiro não sobrava. Desde a escola que usei fatos virados do meu pai (que ficavam com as “casas”, cerzidas, do lado errado). Os sapatos só se mudavam depois de muitas meias solas. Como, antes do nylon, as camisas, depois de muitos colarinhos de substituição e de uma dezena de punhos novos» («Velhas contas», Vasco Pulido Valente, Público, 27.03.2011, p. 36).
      Para que são as aspas em «casas»? Imagino que, se tivesse usado o termo «botoeira», dispensaria as aspas... Ridículo. Que alguém lhe diga, por favor, conduzindo assim o homem à sua maior grandeza.

[Post 4619]

Tradução: «hey»

Heu!

      «‘Hey!’ said Jack, ‘why didn’t you speak English before? I’m English!» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 127). «— Eh! — exclamou. — Porque não falaste, [sic] inglês quando te encontrei? Eu sou inglês!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 120).
      Quantos tradutores portugueses saberão que «hei» é apenas forma verbal? Não muitos, a avaliar pela forma como vertem a interjeição inglesa hey. Não é improvável que o étimo de «hey» e de «eh» seja o mesmo, o latino eho. Se os tradutores se dessem ao trabalho de ler as obras revistas, por vezes aprendiam algo. Enfim, que se enxergassem. (A propósito, o verbete deste verbo precisa de uma profunda reformulação no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Não têm de quê.) Ainda na semana passada, li isto: «“Hey, Charlie,” Alex says, “this is my mom.”» Tradução? «— Hei, Charlie — diz o Alex —, esta é a minha mãe.»
[Post 4618]

«Formato/forma»

Agora é pior

      Tudo nos conduz à língua. À merenda, a minha filha perguntou-me por que motivo o pão, um cacete, tem a forma que apresenta. (Diariamente, sou atingido com larguíssimas dezenas de porquês.) Lembrei-me logo de Fr. Francisco de S. Luiz e do seu Glossario das Palavras e Frases da Lingua Franceza, que aqui citei ontem. A propósito de «formato», do francês format, vocábulo agora ainda mais na berra, escreveu: «Não sabemos a razão por que tão vulgarmente se tem adoptado este vocábulo para significar a forma ou a grandeza do papel em que está escrita ou impressa qualquer obra.» E concluía, naturalmente, que em português legítimo dizemos «forma».

[Post 4617]


«De maneira a que»?

Gálica e anti-sintáctica

      «— Vou pôr o alarme do meu despertador para as onze — anunciou Filipe a João, em voz baixa, para que Gustavo não ouvisse. — Ponho-o debaixo da minha almofada, de maneira a que só me acorde a mim. Ena! Estou cheio de sono!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 79).
      Praticamente nenhum estudioso da língua deixou de exprobrar a expressão. Um dos primeiros terá sido José Leite de Vasconcelos, que escreveu nas suas Lições de Filologia Portuguesa que era galicismo intolerável e que só um francês diria com propriedade «de manière à». «Alguns escritores modernos até somam as duas sintaxes uma com a outra, e dizem de maneira a que, não ficando pois nem português nem francês.» Vasco Botelho de Amaral, que disse que era expressão resultante do cruzamento da boa com a má construção. Mário Barreto afirmou que era locução gálica e anti-sintáctica. Nada de ilusões, contudo: actualmente, as gramáticas ignoram ou aceitam estas formas de dizer, e os professores de Português nunca ouviram falar de tal.

[Post 4616]

Tradução: «pocket money»

Dinheiro para despesas

      «— Disseram-me que deveria ter dinheiro para despesas — insistiu Gustavo. — O meu tio deu-mo. É meu» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 35). «‘They said I could have pocket money,’ said Gussy, obstinately. ‘My uncle gave it to me. It is mine’» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 32).
      Já aqui tínhamos visto como se deve traduzir as expressões pocket money e argent de poche. Por essa altura, tive de demonstrar a um editor que traduzir argent de poche por «dinheiro de bolso» era servilismo que se devia evitar. Valha a verdade que verter como aqui se fez não me parece muito claro.


[Post 4615]

«Oxalá que...»

Tira, tira

      «— Oxalá que não seja um trabalho que o ocupe durante todo o tempo em que estamos em casa a passar as férias da Páscoa — resmungou Maria da Luz. — Ele tem sempre uma missão secreta a cumprir quando menos convinha que a tivesse!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 8).
      Na locução adverbial «oxalá que», apesar de seleccionar uma oração completiva, pode omitir-se a conjunção, e, a meu ver, até se ganha em expressividade. Aliás, até se compreende mal que se use, neste caso, a conjunção.
      A propósito desta palavrinha, Fr. Francisco de S. Luiz, no seu Glossario das Palavras e Frases da Lingua Franceza, que por descuido, ignorancia, ou necessidade se tem introduzido na Locução Portugueza moderna; com o juizo critico das que são adoptáveis nella, afirma que no princípio das proposições optativas, imprecativas, etc., o que é construção francesa: «Que saiba todo o mundo os nossos amores! Que eu morra, se isto assim não é!»

[Post 4614]

Como se escreve nos jornais

Má escolha

      «As portas da sala de audiências fecharam-se aos mirones e à imprensa, uma vez que a juíza presidente, Flávia Macedo, considerou ser necessário proteger a identidade das 16 jovens que terão sido abusadas, sequestradas ou roubadas pelo suspeito. Das 16 vítimas, duas ainda são menores de idade» («“Violador de Telheiras” confessa crimes e diz-se arrependido», José Bento Amaro, Público, 25.03.2011, p. 16).
      Se consultarmos um dicionário, vemos que «mirone» tem como sinónimos «espectador» e «observador», «aquele que vê». Mas não é um qualquer espectador: é alguém que vê e, mais particularmente, alguém que olha demasiado ou com curiosidade. Tem sempre — e talvez nenhum dicionário transmita exactamente a ideia — um certo sentido depreciativo. Ora, o público que assiste às audiências dos tribunais (que são sempre públicas, salvo quando a lei ou o tribunal determinar que se façam sem publicidade), independentemente de quem se trate, estão, no fundo, a velar pela justiça e pela democracia, pelo que não me parece bem que se diga que são mirones.

[Post 4613]

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