Léxico: «mupicar»

Castiço, ou quase

      E se a língua portuguesa tivesse o frequentativo do verbo remar, algo como *remicar, não dava jeito? Temos outro, para dizer o mesmo: mupicar: remar com desembaraço, em remadas miúdas. Mas venho aqui para falar do discurso de Jerónimo de Sousa, o nosso Lula da Silva. Sobre as eleições legislativas que se vislumbram para breve, afirmou: «[…] e, nesse sentido, pronto, enfim, vamos dizer ao povo português, alertá-los para que não queira sair da frigideira para cair ao lume.»


[Post 4604]

Léxico: «nhoque»

Falemos de massa

      Posso ter-me esquecido entretanto, mas creio que hoje foi a primeira vez que li num livro — não num dicionário — o vocábulo «nhoque». Estranho, eu sei. A começar por a nossa língua ter escassas dezenas de vocábulos começados por nh, nenhum de uso corrente. O mais usado (?) será, em Portugal, «nhanha», e nem todos os dicionários o registam.
      Mais uma vez, foi numa tradução que o vi. Num restaurante italiano, uma personagem come «a plate of gnocchi» (não havia entrecôte, aposto). Gnocchi, já sabem, a massa feita à base de batata e farinha de trigo, típica da cozinha italiana, dividida em pequenas porções arredondadas. No singular é gnocco, «tocchetto di pasta fatta con farina e patate, a forma di globo ovoidale e incavato, che si lessa e si condisce con burro o con sugo».
[Post 4603]

Regência verbal

Por exemplo

      «I like and admire my brother, but...», lia-se no original. O tradutor verteu assim: «Gosto e admiro o meu irmão, mas...» Mas está errado. Os dois verbos não têm a mesma regência, e só está bem um complemento comum quando a tenham. A frase compõe-se assim: «Gosto do meu irmão e admiro-o, mas...» Falhas destas até em grandes escritores se encontram. Mas, lá está, são falhas, não são de imitar.
[Post 4602]

Tradução: «mudroom»

Levantados da lama

      «Átrio e vestíbulo são nobilíssimos termos de arquitectura romana, mas deixaram de servir casas ricas. Estas agora não se contentam com menos do que ter um hall — que é a mesma coisa que átrio, e até pode ser menos, porque a expressão francesa les halles vem de idêntica origem e significa pouco mais ou menos o mesmo que a nossa Praça da Figueira. No entanto, o dono da casa que tem hall mostra-nos o hall com tanto orgulho, e aspira com tanta fôrça o h do hall, que até faz vento e a gente espirra e se constipa» («Esquisitices da nossa fala», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, p. 214).
      Mais uma vez aqui foco esta questão, pois há sempre novos tradutores a chegar. Serve ainda de pretexto para referir que ontem vi a palavra «mudroom» traduzida por «vestíbulo». Grande coisa, dizem? É que já a vira traduzida, num livro brasileiro, por «sala de lama»...
[Post 4601]

Tradução: «prime rib»

Entrecôte e purée?

      Sempre me fez espécie que, numa tradução para português, se usasse um termo ou uma expressão de uma terceira língua. Tenho aqui um exemplo à minha frente. Numa festa, o jantar foi, diz o original inglês, «prime rib and mashed potatoes». Tradução: «jantar de entrecôte e puré de batata». Ficamos com o puré (o purée nacionalizado, bem sei). Mas entrecôte... Então não existe na língua portuguesa um termo ou expressão equivalente? Aqui vejo que «bife alto» traduz bem a locução; ali, para Brasileiros, assegura-se que é «capa de filé». A minha pergunta é: a palavra «entrecosto» não traduz bem o conceito anglo-saxónico? Ou «costeleta»?
[Post 4600]

Tradução: «topiary»

Só falta «tópia»

      De quatro em quatro anos, encontro a palavra: «There were topiary yews around the foundation; I hacked them down within three days of taking title.» «Em redor das fundações encontravam-se teixos topiários; cortei-os três dias depois de termos assinado a escritura.» Eh, mas esperem lá... os nossos dicionários não registam o adjectivo «topiário». Topiário só como substantivo, o jardineiro que pratica a topiaria. (E o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista «tópia» — nem o Dicionário Houaiss. Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Vamos atrás do inglês, ou encontramos outro caminho?
[Post 4599]

Linguagem

Falecido mas não morto

      Humberto Werneck finge falar da prima Solange, mas é de si próprio que fala na crónica do Estadão do dia 6: «A prima — não é impossível que você se lembre dessa ave rara cujos cabelos não se tornam quebradiços, e sim “bifurcam nas extremidades” — frequenta o léxico como você e eu vamos a um brechó, no caso um brechó verbal. Nada a faz mais feliz do que topar no dicionário com alguma esquisitice que imediatamente possa recolher, livrar do pó e botar em uso, de preferência um hápax — palavra ou expressão que tenha aparecido apenas uma vez nos registros da língua. Exemplo de hápax? Vou perguntar à Solange, depois lhe digo. Talvez amaxofobia, que vem a ser, diz o Houaiss, o “medo mórbido de se encontrar ou viajar em qualquer veículo”. Ou alpondra — “cada uma das pedras que formam, de uma margem à outra de um rio, um caminho que pode ser percorrido a pé”. Literalmente, o caminho das pedras. Adivinha quem me ensinou tudo isso?» («Solange e seu brechó verbal», C10).
      Hápax, aqui em Portugal, só se for «brechó». O vocábulo parece provir de Belchior (estas derivações fonéticas do bom povo enternecem) nome do comerciante que abriu no Rio de Janeiro a primeira casa de compra e venda de roupas e objectos usados. Por derivação imprópria, passou depois a designar o negociante de roupas e objectos usados, mas também o proprietário de sebo (mais um brasileirismo para designar a livraria onde se compram e vendem livros usados). Por metonímia, é o próprio estabelecimento. Werneck continua dizendo que a prima Solange, ou seja, ele, «do alto de sua torrinha de marfim linguística, dispara sobre os predadores do idioma alguma pérola do professor Napoleão Mendes de Almeida, xiita-mor do vernáculo. Como seu mestre, “falecido, mas não morto”, a prima acredita que “a língua portuguesa no Brasil vem, desde o passamento de Ruy Barbosa, sendo tratada com incúria cada vez maior”». Faz lembrar o dito de Raquel de Queiroz, a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras: «Somos imortais, mas não somos imorríveis».

[Post 4598]

«De debaixo», de novo

Para ficar bem assente

      Já aqui vimos esta questão. A repetição serve somente para mostrar que, sempre que é usado um verbo de movimento, pelo menos a dúvida não deixa de aflorar a mente de quem escreve: «“Tirar de baixo” ou “tirar de debaixo”?» E nada disto é novo.
      «Pegou nela e pôs-se a embalá-la, cantarolando na sua linguagem. A Didi retirou a cabeça de debaixo da asa e olhou para o macaco. Quando o viu a embalar a garrafa, ficou cheia de ciúmes e zangada» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 67-68). «— Onde está o barco? — disse João, olhando em volta. Não o viram. Só quando retiraram o Micky de debaixo da cama e que encontraram o barco. Ele não o tinha estragado. Apanhou três valentes acoites e a Didi três palmadas no bico» (idem, ibidem, p. 68). «Um ruído suspendeu-lhe de repente os pensamentos. Pousou o cachimbo e levantou-se, uma figura silenciosa, mesmo junto da coluna quebrada. Escutou. O ruído vinha de debaixo do chão, tinha a certeza» (idem, ibidem, pp. 201-2). «À noite, o Estrela dos Mares voltou a partir. Nem Jaime nem qualquer dos pequenos ouviu as máquinas começarem a trabalhar. A Didi acordou, retirou a cabeça de debaixo da asa e voltou a encolher-se» (idem, ibidem, p. 226).
[Post 4597]

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