Tradução: «accent»

Pronúncia peculiar

      «— Agradeço-lhe sinceramente, minha senhora — disse com um acento estrangeiro» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 19). «Passaram dois homens, que falavam com o peculiar sotaque dos naturais daquela região. Um deles era o que tinha informado Filipe acerca dos texugos. Cumprimentou-o, acenando com um braço» (idem, ibidem, p. 77). No primeiro caso, lemos no original «foreign accent»; no segundo, «broad accent of the countryside».
      Já tenho lido e ouvido a prevenção de que se não deve traduzir o inglês accent por «acento». Contudo, se é apenas para evitar que pareça má tradução, não é de seguir. Accent é «acento» e é «sotaque», e «acento» é «sotaque».

[Post 4588]


Como se escreve nos jornais

Ciudad cuna

      «Os primeiros disparos da maior intervenção internacional militar no mundo árabe desde a invasão do Iraque foram feitos por aviões franceses e destruíram tanques líbios na região de Bengasi, cidade-berço da rebelião contra o regime de Muammar Khadafi. Horas depois, navios e submarinos de guerra norte-americanos e britânicos disparavam 110 mísseis Tomahawk contra “20 alvos”, incluindo defesas aéreas e centros de comunicação, todos ao longo da costa» («Começou a Odisseia para derrotar Khadafi», Sofia Lorena, Público, 20.03.2011, p. 3).
      Decerto que haverá mais de uma opinião sobre o assunto, mas, para mim, aquela «cidade-berço» é algo completamente tolo e escusado.

[Post 4587]

«Se não/senão»

Os maiores e os menores

      Ora digam-me lá quem sabe escrever.
      «Quando o regimento mudou, e os deputados (da oposição, claro) adquiriram alguma iniciativa, Sócrates adoptou a regra de não responder às perguntas que não lhe convinham (dezenas, se não centenas delas). Quanto à populaça, como se sabe, nem se deu ao trabalho de revelar o estado do país, nem de explicar o que andava a fazer» («Agarrado ao poder?», Vasco Pulido Valente, Público, 19.03.2011, p. 48).
«Se a previsão não falhar, virão aí algumas dezenas, senão centenas de milhares de portugueses — os franceses de torna-viagem» (Os Apontamentos: Crónicas Políticas, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 24).
«Os totalmente convertidos que se baptizaram e fizeram cristãos, não só se contaram a milhares, senão a milhões» (Sermões, P. António Vieira. Lisboa: Lello & Irmão, 1959, p. 391).


[Post 4586]

Dize, faze, traze...

Então, gramatize-se!

      «— João! Vê se consegues arranjar carne — um bom pedaço dela — e traze-ma cá!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 188).
      «Se o uso natural insiste no diz, guardem os gramáticos o dize para a ênfase ou para o... artificialismo. Gramatize-se definitivamente o “diz lá isso”, e não se esqueçam os filólogos de que já no latim a forma dic era vivedoira ao par de dice. O precedente exemplo do latim mostra ser caturrice anacrónica o rigor de só admitir o janota do dize. E quanto ao faz, ao lado de faze, e traz, ao par de traze, requeiro a mesma hospitalidade. O latim também aqui nos ensina a ser razoáveis (fac, face, trac, trace)» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 366)


[Post 4585]

«À última (da) hora»

É partícula de realce

      A propósito das expressões à última hora e à própria hora, escreveu Vasco Botelho de Amaral no Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 236): «Não resta dúvida que estas formas (sem da) são mais correctas, porém menos correntes. Inclusivamente os que prezam a gramática deixam fugir a dição preposicionada.» Terminava, contudo, afirmando que «quanto à sua correcção ou incorrecção, não se aflijam os gramáticos, não se impacientem os curiosos, nem se precipitem os indisciplinados: — o uso é soberano senhor que vai fazendo e desfazendo leis».

[Post 4584]



Falsos plurais

Dá-me o meu binóculo

      «— E ali está o caminho por onde nós viemos... a estrada — disse João. — Onde está o meu binóculo? Dá-mo, Dina. Ena! Com ele avisto milhas e milhas. Vejo como a estrada corre e serpenteia... o trânsito que passa por ela... os automóveis parecem aqueles brinquedos que nós tivemos. Filipe, dá uma vista de olhos com o binóculo» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, pp. 59-60).
      Já aqui falámos de outros falsos plurais. Este é o mais comum. É raríssimo ler ou ouvir no singular.

[Post 4583]

Tradução

Em 1969

      «‘Yes,’ said Mrs Cunnigham. ‘I’m getting it ready in a minute or two. Go and join others in the garden. You can pick a few daffodils, if you like — we want some in the hall’» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 9). «— É — respondeu a Sr.ª Cunningham. — Vou prepará-lo dentro de momentos. Vai ter com os outros ao jardim. Se quiseres podes colher alguns narcisos... faz falta um ramo no vestíbulo» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 15).
      Há quarenta anos, os tradutores ainda sabiam que não precisavam do vocábulo «hall» para nada, nem da abreviatura «Mrs».

[Post 4582]

Interjeições

Uh, uf

      «— Bom, pelo menos andarás distraído — comentou Dina. — Suponho que o significado disso consiste em que, quando menos esperarmos, tu terás metido em casa um casal de texugos como mascote. Uf!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 9).
      Bem... As interjeições constituem a classe gramatical mais descurada, desprezada mesmo pelos dicionários. Talvez nenhum dicionário divirja: a interjeição uf (que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista...) é de alívio ou de cansaço. No original, a interjeição é ugh, que exprime aversão, repulsa, nojo. Para exprimir estas emoções, temos em português a interjeição uh. (A despropósito, quem é este Vítor Alves?)

[Post 4581]


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