«Armar-se em»

O falso adjectivo

      «É difícil ser-se positivo. Numa reportagem muito parva mas esclarecedora no New Yorker datado com o primeiro dia da Primavera (21.3.2011), Dana Goodyear conta a história de dois psicoterapeutas jungianos em Hollywood. Na primeira sessão, Barry Michels pede ao fiel cliente que feche os olhos e se concentre nas coisas que agradece. Se o doente nada disser, Michels, que cobra 360 dólares por sessão, sugere o cão do doente. Aí, o doente concorda que sim, que agradece o cão que tem. De seguida, se o cliente não quiser ir além do cão no rol das coisas pelas quais dá graças, Michels sugere o sol. Responde o relutante paciente (dois adjectivos armados em adjectivo e substantivo): “Sim, o sol, [...] agradeço o sol. Às vezes» («A metade invisível», Miguel Esteves Cardoso, Público, 16.03.2011, p. 39).
      Percebemos por que motivo Miguel Esteves Cardoso afirma que são dois adjectivos — mas temos de lembrar aos leitores que, no caso, «paciente» é substantivo. Por outro lado, e isto é o principal (que nem sempre vem em primeiro lugar), se um está armado em adjectivo, não está armado em nada, pois que armar-se em é expressão idiomática que significa dar-se ares de; fingir-se; mostrar-se diferente do que se é para causar uma impressão favorável. (Esta acepção também não está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, esse queijo suíço armado em dicionário.)

[Post 4572]

Tradução

Que descaramento

      «‘What a nerve Mr Eppy has!’ said Dinah» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 257). «— Mas que sensaboria para o Sr. Eppy! — disse Dina» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 224).
      Sensaboria já foi uma palavra muito usada, já. Na tradução acima, é claro (para mim, que li o texto todo) que não devia ter sido empregada. Embora isso não constitua objecção absoluta, a acepção em que foi usada é informal: circunstância ou incidente desagradável, que causa aborrecimentos; contratempo. E se o trecho se refere ao descaramento, ao atrevimento, à impudicícia do Sr. Eppy?
      Seja como for, algo se aproveita como lição: vejam como a tradutora não escreveu «Mr Eppy», como agora se vê, incompreensivelmente, em muitas traduções.

[Post 4571]


Léxico: «queijo cabreiro»

Regresso às raízes

      «‘Only because you’re so hungry,’ said Jack, giving Kiki some of his. ‘It’s goat-milk cheese, isn’t it, Bill? I say, look at Micky stuffing himself.’» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 227). «— Só porque estás com fome — comentou João, dando algum do seu à Didi. — É queijo cabreiro, não é, Jaime? Olhem para o Micky a devorá-lo» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 199).
      Em vez de queijo de cabra, queijo cabreiro — como ainda se diz e escreve, e bem, por aí.

[Post 4570]

Tradução

Eis a pista

      «João olhou subitamente para ela. Claro, Luzinha, um templo tinha de ter um sino. O templo pode ser um dos pontos-chave, um dos guias que conduzem ao tesouro» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 162).
      Ora cá está uma das embirrações do revisor antibrasileiro, e com quanta razão, desta vez. Não imaginem no original qualquer key point, isso seria nimiamente bélico. O que se lê é «one of the clues». Não é tema novo, aqui: estou farto dos não-sei-quê-chave. E, como se vê, já em 1969 alguns tradutores eram dados a estas imperícias.

[Post 4569]


Tradução: «white horses»

Estamos no mar

      «Andros pôs o motor em andamento. O gasolina dirigiu-se para fora do pequeno porto, deixando para trás o Estrela dos Mares, belo, mas silencioso. Em breve se encontraram no mar alto, avançando aos pulos sobre os carneirinhos brancos que se levantavam de vez em quando» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 139).
      No mar, sim, mas por cima: carneirinhos (que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ignora o que seja) são certo tipo de nuvens. Carneiro é cada uma das pequenas ondas de uma carneirada, que é um conjunto de pequenas ondas espumantes. E em inglês, sabem qual a palavra para «carneiros» naquela acepção? Talvez algum animal, também? Sim: white horses.

[Post 4568]


«Terremoto/terramoto»

Perdulária

      «No Financial Times de sábado, alguém comparava os terramotos no Japão com o de Lisboa, de 1755. A lição era que Lisboa sofreu e pagou muito mais, em pessoas e dinheiro» («As marés pretas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.03.2011, p. 31).
      O P. António Vieira, que Miguel Esteves Cardoso leu, empregou também terramoto. A 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL — oh vergonha! — esqueceu-se de registar esta variante. Vejam a riqueza da nossa língua: terremoto, terramoto, terromoto, sismo, abalo sísmico, tremor de terra... Sim, excessiva, bastava um. Curiosamente, talvez o último, «tremor de terra», seja tão pouco português como «sismo», pois vem do francês tremblement de terre. Na escrita não sei, mas na oralidade quase de certeza «terramoto» é o mais frequente.

[Post 4567]

«A braços com»

Digam-lhe

      «O quinto maior sismo de que há memória na Terra, com uma magnitude de 8,9 graus na escala de Richter, seguido de um tsunami devastador, na sexta-feira, deixou o Japão também a braço com uma crise nuclear, principalmente na central de Fukushima 1,250 quilómetros a norte de Tóquio» («Crise nuclear no Japão não deverá ser igual ao acidente de Tchernobil», Teresa Firmino, Público, 15.03.2011, p. 4).
      Pois é, mas a locução é a braços com, ou seja, em confronto com, envolvido com. De uma maneira geral, os jornalistas não prezam tanto a língua que se dêem ao trabalho de consultar dicionários.

[Post 4566]

Tradução: «exciting»

Heavens!

      «It all sounded very exciting. They went round the ship, thrilled with everything» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 16). «Tudo parecia emocionante. Andaram por todo o barco, encantados com tudo» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 20).
      Se fosse agora traduzido, era inescapável: «exciting» seria «excitante». Na televisão, em todos os canais infantis, ouço constantemente a interjeição «Céus!». E há anos que não se assente de outra forma que não dizendo «certo». Há quem ache tudo isto normal, sobretudo assistentes universitários.

[Post 4565]

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