«Tsunami/maremoto»

Falha do Marquês de Pombal

      É digno dos tempos que se vivem, com a tecnologia de que se dispõe: no sábado, estranhava aqui que os dicionários, com excepção do Houaiss, não registassem o substantivo «camuflado». Hoje, segunda-feira, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa passou a acolhê-lo. Como adjectivo: «Mil. Diz-se de ou fardamento que pode ser usado para camuflagem em operações militares.» Como substantivo: «Peça de vestuário, geralmente em tons de verde e castanho, semelhante a esse fardamento militar.»
      Bem, mas não vim aqui ufanar-me de nada. Queria apenas reflectir sobre a necessidade de se usar «tsunami» em vez de «maremoto». «A zona de maior risco sísmico para Portugal está localizada a sul de Sagres, na denominada Falha do Marquês de Pombal, justamente porque foi ali que ocorreu o sismo de 1755, seguido de um maremoto, que hoje todos designamos como tsunami» (Gualter Ribeiro, Portugal em Directo, 14.03.2011). Tanto quanto pude pesquisar, ora se afirma categoricamente que são conceitos diferentes, ora que são sinónimos. D’Silvas Filho, que sugeriu a forma «sunâmi» (!), ouviu certa vez um sismólogo explicar (só não revelou o nome) a diferença entre tsunami e maremoto.

 [Post 4562]


TCIC: Ticão

Superjuiz no Ticão

      «Direcção-Geral ainda não terá pago um complemento ao magistrado por acumular o ‘ticão’ [Tribunal Central de Instrução Criminal] com a jurisdição militar» («Juiz sem parte do ordenado», C. R. L., Diário de Notícias, 14.03.2011, p. 28).
      De uma tiçoada precisava o jornalista (e de duas o revisor): então só por ser grande, um aumentativo, deixa de ser nome próprio? Ticão escrevem, e escrevem bem, a revista Sábado e o i. Quando os meus olhos pousaram na palavra, pensei que tivesse caído a cedilha ao pedaço de lenha ou de carvão aceso ou meio queimado. Invulgar, aqui, é somente a adjunção do sufixo de sentido aumentativo a um acrónimo.


[Post 4561]

O brasileirismo «virar»

Era só o que faltava

      Já aqui tinha dado conta deste facto: alguns jornalistas portugueses já não passam sem esta acepção brasileira do verbo «virar»: «Danny, Derrick, Albert e Carlos. Estes quatro homens não têm casa, nem um computador portátil... mas têm um perfil na rede social Twitter. Estão habituados a ser ignorados nas ruas de Nova Iorque, onde vivem, mas agora viraram estrelas da Internet, com milhares de pessoas a seguirem os seus passos no Twitter» («Eles não têm casa... mas têm Twitter!», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 71).
      Hoje encontrei outro brasileirismo, novo para mim, num excelente romance (não posso revelar, está no prelo) português: particular, no sentido de conversa reservada. Um governante português (um «líder», para todos perceberem) visitou Moçambique e fez questão de ter um particular com certo indivíduo.


[Post 4560]

Género de «Alhambra», de novo

Ora ainda bem

      Pronto, fomos ouvidos: «Álvaro Siza Vieira e o arquitecto Juan Domingo Santos venceram o concurso de ideias para um novo acesso ao Monumento da Alhambra, em Granada, Espanha. A proposta da dupla luso-espanhola, intitulada “Porta Nova”, sobrepôs-se a mais 40, originária de dez países, com vista à reorganização das zonas de bilheteiras e das áreas de espera destinada aos visitantes. O jurí, do Patronato da Alhambra, destacou a “sua relação paisagística com o entorno imediato, assim como a sua adequação aos objectivos do Plano Director da Alhambra”, refere o El Pais» («O encantamento de Siza», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 67).
      (Sobre «entorno», ver aqui.)


[Post 4559]

«Grilo realista»

Imagem tirada daqui

Realmente

      «Para que pudesse render, efectivamente, os cinco centavos, o bicho tinha de apresentar dois rabos e uma lista dourada junto à cabeça, sendo estes os indicadores de que se tratava de um “realista”. Designação dada aos melhores cantores — os machos de grilo silvestre» («Já não se ouve o cantar dos grilos no campo», Roberto Dores, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 58).
      Claro que os dicionários mais modernos já não registam a acepção do vocábulo. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado regista-o: «Realista, adj. Prov. alent. Diz-se em Portel e noutros pontos do Alentejo do grilo muito cantador, a que também chamam cantarrista.» De qualquer maneira, não tarda nem os próprios grilos existirão. «Aliás, nos anos 40 e 50 do século 20, o grilo conquistou a simpatia entre os maiores centros urbanos portugueses, passando mesmo a ser moda colocar uma pequena gaiola com este insecto nas janelas do centro de Lisboa. Não faltavam clientes que corriam à Praça da Figueira ou à Rua do Arsenal para garantirem a compra de um insecto por cinco tostões, acabadinho de chegar dos campos do Alentejo, via autocarro da carreira. O serviço era gratuito, viajando os grilos no interior de canas, até às mãos dos vendedores, que os aguardavam na capital» (idem, ibidem). 
      Viajavam em canas ou em gaiolas feitas de cana (como a da imagem)? É que é diferente. (E repararam no «século 20»? Pensava que só se escrevia assim no Record e no Brasil.)

[Post 4558]

Topónimos

Do Japão

      «A explosão do edifício onde se encontra o reactor n.º 1 da central de Fucoxima-Daiichi veio adicionar o factor de um possível desastre nuclear de grandes proporções no Japão, 24 horas após o sismo de 8,9 de magnitude que atingiu sexta-feira a principal ilha do arquipélago, Honxu» («Japão vive pior acidente desde Chernobil», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 44).
      Podem ser questões menores, estas da ortografia, mas apenas se relativas a lapsos temporais longos. No Público, lê-se Fukushima e Honshu.  Mas também pergunto: porquê Fucoxima e não Fucuxima? Por outro lado, Diário de Notícias e Público grafaram Chernobil.

[Post 4557]

Tradução: «chiller»

Frio, frio

      «A trigeração é um processo em que se faz o aproveitamento total da energia produzida pelos motores. Como o nome indica, esta é usada em três vertentes: energia eléctrica, aquecimento e arrefecimento. “Os três motores a gás natural que vão ser instalados terão uma capacidade total de produção de energia de 7,3 megawatts, algo que dá para alimentar o equivalente a 15 mil habitações”, referiu João Oliveira. Parte desta energia será vendida à Rede Eléctrica Nacional e a outra parte será usada para aquecimento dos edifícios e de águas. Vão ser ainda instalados dois chillers de absorção, com uma potência total de 4,3 MW e um chiller eléctrico de 3 MW, para arrefecimento do edifício durante o tempo quente» («Nova central no Hospital de São João evita lançar 3700 toneladas de CO2 para a atmosfera», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 42).
      E não se podia — o que acha, caro Fernando Ferreira? — traduzir por «arrefecedor»? O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — oh vergonha — não regista «co-geração», quanto mais «trigeração». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, acolhe somente «cogeração», assim, sem hífen.

[Post 4556]

«Sumô/sumo»

相撲 

      Ainda Jacques Chirac: «É um bon vivant, que aprecia a boa comida, o desporto (é conhecida a sua paixão pela modalidade do sumô), foi um feroz consumidor de cigarros e não se amedronta em dizer em público frases pouco simpáticas para países ou líderes políticos, como sucedeu durante o período da segunda guerra do Golfo» («Um presidente francês sem vergonha nem glória», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 12.03.2011, p. 44).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «sumo», a grafia mais habitual. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa por esse nome só conhece o líquido orgânico extraído ou libertado de uma matéria vegetal ou animal ou o cume, o cimo. É grafia preferencialmente brasileira, como judô, metrô, puré, bebê, canapê, bidê... Está registado com esta grafia no Dicionário Houaiss.


[Post 4555]

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