«Crer/querer»

Não quero crer

      No laboratório, de novo. «Os partidos com assento parlamentar criam queriam apresentar soluções pró-populares.» «Muitos alunos», defendeu a professora, «cometem este erro, talvez por serem palavras como que parónimas.» «Como que»? Então não há uma categoria específica em que encaixá-las? São muito mais, a avaliar pelo que vejo, os que consideram este mesmo par, crer/querer, como palavras parónimas do que aqueles que as dizem  homófonas. Eu aprendi que, se a pronúncia não for contrafeita, forçada, antinatural, são palavras homófonas. Não faltam, porém, manuais escolares, como este, que ensinam que são parónimas. Crer e querer têm grafia semelhante? Tem a palavra o leitor.

[Post 4546]


«Ave/pássaro»

Devia ser medonho, sim

       está a confusão entre pássaro e ave: «Reza a lenda que um dia surgiu nos céus de Aguiar da Beira um pássaro gigantesco parecido com uma cegonha mas infinitamente mais medonho. O povo ficou aterrorizado com tal criatura, e mais aterrorizado ficou quando o pássaro resolveu escolher a torre da igreja matriz para aí fazer o seu ninho. Conta-se que foi tal o susto, que até o pároco fugiu da igreja e se recusou a lá voltar. Os anos foram passando e a população continuava a viver com o credo na boca por causa do enorme pássaro a que deram o nome de cabicanca por causa da grande bica que tinha, ou seja, o grande bico» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 9.03.2011).
      Não é fácil imaginar um «pássaro» do tamanho de uma cegonha, a não ser por mutação genética...
      A lenda diz ainda que foi um almocreve, Martinho Afonso, o Escorropicha, que deu um tiro na cabicanca. Tiro com uma funda, talvez... municiado com copos de três. E a propósito de Escorropicha, lembrei-me disto.

[Post 4545]

Léxico: «farinar»

Para lembrar

      «Antes de descobrirem as técnicas de farinar, as pessoas comiam os cereais em grão.» Se não tivesse lido agora esta frase, permaneceria nos escaninhos da memória o verbo «farinar». Pode ser útil: «moer» e «triturar» talvez digam quase o mesmo, mas farinar é mais específico. Morais regista-o, assim como a maioria dos dicionários. E agora um excerto de um Boletim Geral do Ultramar, edições 339-342 (para emparelhar com a evocação de Salazar aqui feita hoje), em que o verbo foi empregado: «Uma grande parte das fábricas moageiras é constituída por pequenas unidades fabris que estão instaladas, em regra, nas diversas propriedades agrícolas e destinam-se a farinar os cereais necessários ao consumo do pessoal europeu e indígena empregado nessas propriedades.»

[Post 4544]

«Evocar/invocar», outra vez

Isto não acaba

      Carla Bernardino, do Diário de Notícias, entrevistou Jel, um dos Homens da Luta. «Há quem evoque, contra a vossa participação, razões de carácter político. O Festival da Eurovisão não permite a candidatura de temas desta natureza. Teme que isto possa acabar mal?»“Se não nos deixarem concorrer, apanhamos o avião e vamos”», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.03.2011, p. 56). Perguntou mal. É o confusionismo endémico. E, neste caso, não é falta de escolinha, como afirma Montexto, mas falta de uso do dicionário (ou, segundo outros, do cérebro).

[Post 4543]

«Curgete»/courgette»

Eh lá!

      «No Grande Dicionário (da) Língua Portuguesa da Porto Editora, a única autoridade em que se deve confiar, há duas palavras que não constam: courgette e abobrinha. […] Para que não se pense que a Porto Editora é antifrancesa, registe-se já que inclui e define coup de foudre e coup de théâtre. Courgette é que não — e com razão. […] Cabe-nos escolher o nome para esta planta comestível. A minha conclusão, depois de muito pensar, é que devemos seguir o exemplo francês e dizermos e escrevermos “curjetes”» («Queridas gorjetas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 8.03.2011, p. 39).
      Também eu, hoje de manhã, estive mais de uma hora a escrever um texto para o blogue, e no fim concluí que tinha enveredado por um caminho pouco promissor. Apaguei-o e só fiquei um pouco enxofrado até ao pequeno-almoço. Ah, mas estou a divagar... Caro Miguel, creio que todos os dicionários da língua portuguesa da Porto Editora («a única autoridade em que se deve confiar»?!) registam «curgete», pelo que podemos bem dispensar as courgettes.

[Post 4542]

Concordância verbal

Sujeito composto

      «Se algum dia forem apanhados em manobras golpistas, comecem e acabem por negar tudo, todos os factos, todas as evidências. Se tiverem sido sujeitos a escutas válidas, neguem. Se um ou outro transeunte desatarem a fazer perguntas incómodas, neguem. Se os factos forem demasiados e comprometedores, neguem» («Boys em apuros: guia prático», Pedro Lomba, Público, 8.03.2011, p. 40).
      Das «evidências» já estamos cansados, mas não é disso que quero falar. Reparem nesta frase: «Se um ou outro transeunte desatarem a fazer perguntas incómodas, neguem.» Estará correcta? Sim, está. Como também não estaria incorrecta com o verbo no singular, uma vez que a ideia expressa pelo predicado, como ensina E. Bechara, se refere a toda a série do sujeito composto: «Se um ou outro transeunte desatar a fazer perguntas incómodas, neguem.»

[Post 4541]

Linguagem

Não gostamos

      «Estudantes do 9.º e 6.º anos da Escola Selecta, em Lisboa, estão entre os melhores alunos e, quando não estão nas aulas, estão em casa a estudar. “Acho que aquela [Amy Chua] é muito regulosa. Eu também sou, mas ainda não cheguei ao nível dela. Ela é mais exigente”, observa Inga, a rir» («Mães tigre em Portugal», Catarina Pires, Notícias Magazine, 6.03.2011, p. 69).
      Que necessidade tem o leitor de saber que a entrevistada, Inga, uma chinesa que vive em Portugal, troca os rr pelos ll? Aliás, e não devia ser «rigolosa»? Não deviam ser os meios de comunicação social os primeiros a evitar tais estereótipos, que só servem para discriminar?

[Post 4540]

Léxico: «fojo»

Para os lobos

      «É o caso dos milenares fojos, estruturas de pedra destinadas a capturar lobos e que constituíram a primeira forma de defesa das populações, em que algumas chegavam a ter um quilómetro de extensão. Actualmente, em Portugal, estão identificadas cerca de 200 destas estruturas, a maioria datadas da época medieval, mas algumas já com mil anos de história. Em todo o mundo, apenas o Norte da Península Ibérica conserva este tipo de estruturas, mas em estado de abandono. […] “fojo de paredes convergentes” é o mais emblemático das várias e seculares armadilhas construídas pelo homem para defesa. Trata-se de estruturas de pedra, afastadas das populações, com duas longas paredes de dois metros de altura e um quilómetro de extensão, que convergem para um fosso. Destes há cerca de 50 estruturas a aguardar recuperação» («Antigas armadilhas para lobos passam a atracção turística», Paulo Julião, Diário de Notícias, 7.03.2011, p. 22).
      Para quem nunca viu um fojo, as simples definições dos dicionários deixam os falantes apenas entreadivinhar a realidade (com excepção do «venerando Morais», como escreveu aqui recentemente Montexto, com a unção própria de quem ama a língua). A etimologia de «fojo», que muitos asseveram encontrar-se no latim fovea,ae, é que me não convence inteiramente. Terá passado pelas grafias foio e foyo, antes de acabar em fojo.

[Post 4539]


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