Léxico: «farinar»

Para lembrar

      «Antes de descobrirem as técnicas de farinar, as pessoas comiam os cereais em grão.» Se não tivesse lido agora esta frase, permaneceria nos escaninhos da memória o verbo «farinar». Pode ser útil: «moer» e «triturar» talvez digam quase o mesmo, mas farinar é mais específico. Morais regista-o, assim como a maioria dos dicionários. E agora um excerto de um Boletim Geral do Ultramar, edições 339-342 (para emparelhar com a evocação de Salazar aqui feita hoje), em que o verbo foi empregado: «Uma grande parte das fábricas moageiras é constituída por pequenas unidades fabris que estão instaladas, em regra, nas diversas propriedades agrícolas e destinam-se a farinar os cereais necessários ao consumo do pessoal europeu e indígena empregado nessas propriedades.»

[Post 4544]

«Evocar/invocar», outra vez

Isto não acaba

      Carla Bernardino, do Diário de Notícias, entrevistou Jel, um dos Homens da Luta. «Há quem evoque, contra a vossa participação, razões de carácter político. O Festival da Eurovisão não permite a candidatura de temas desta natureza. Teme que isto possa acabar mal?»“Se não nos deixarem concorrer, apanhamos o avião e vamos”», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.03.2011, p. 56). Perguntou mal. É o confusionismo endémico. E, neste caso, não é falta de escolinha, como afirma Montexto, mas falta de uso do dicionário (ou, segundo outros, do cérebro).

[Post 4543]

«Curgete»/courgette»

Eh lá!

      «No Grande Dicionário (da) Língua Portuguesa da Porto Editora, a única autoridade em que se deve confiar, há duas palavras que não constam: courgette e abobrinha. […] Para que não se pense que a Porto Editora é antifrancesa, registe-se já que inclui e define coup de foudre e coup de théâtre. Courgette é que não — e com razão. […] Cabe-nos escolher o nome para esta planta comestível. A minha conclusão, depois de muito pensar, é que devemos seguir o exemplo francês e dizermos e escrevermos “curjetes”» («Queridas gorjetas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 8.03.2011, p. 39).
      Também eu, hoje de manhã, estive mais de uma hora a escrever um texto para o blogue, e no fim concluí que tinha enveredado por um caminho pouco promissor. Apaguei-o e só fiquei um pouco enxofrado até ao pequeno-almoço. Ah, mas estou a divagar... Caro Miguel, creio que todos os dicionários da língua portuguesa da Porto Editora («a única autoridade em que se deve confiar»?!) registam «curgete», pelo que podemos bem dispensar as courgettes.

[Post 4542]

Concordância verbal

Sujeito composto

      «Se algum dia forem apanhados em manobras golpistas, comecem e acabem por negar tudo, todos os factos, todas as evidências. Se tiverem sido sujeitos a escutas válidas, neguem. Se um ou outro transeunte desatarem a fazer perguntas incómodas, neguem. Se os factos forem demasiados e comprometedores, neguem» («Boys em apuros: guia prático», Pedro Lomba, Público, 8.03.2011, p. 40).
      Das «evidências» já estamos cansados, mas não é disso que quero falar. Reparem nesta frase: «Se um ou outro transeunte desatarem a fazer perguntas incómodas, neguem.» Estará correcta? Sim, está. Como também não estaria incorrecta com o verbo no singular, uma vez que a ideia expressa pelo predicado, como ensina E. Bechara, se refere a toda a série do sujeito composto: «Se um ou outro transeunte desatar a fazer perguntas incómodas, neguem.»

[Post 4541]

Linguagem

Não gostamos

      «Estudantes do 9.º e 6.º anos da Escola Selecta, em Lisboa, estão entre os melhores alunos e, quando não estão nas aulas, estão em casa a estudar. “Acho que aquela [Amy Chua] é muito regulosa. Eu também sou, mas ainda não cheguei ao nível dela. Ela é mais exigente”, observa Inga, a rir» («Mães tigre em Portugal», Catarina Pires, Notícias Magazine, 6.03.2011, p. 69).
      Que necessidade tem o leitor de saber que a entrevistada, Inga, uma chinesa que vive em Portugal, troca os rr pelos ll? Aliás, e não devia ser «rigolosa»? Não deviam ser os meios de comunicação social os primeiros a evitar tais estereótipos, que só servem para discriminar?

[Post 4540]

Léxico: «fojo»

Para os lobos

      «É o caso dos milenares fojos, estruturas de pedra destinadas a capturar lobos e que constituíram a primeira forma de defesa das populações, em que algumas chegavam a ter um quilómetro de extensão. Actualmente, em Portugal, estão identificadas cerca de 200 destas estruturas, a maioria datadas da época medieval, mas algumas já com mil anos de história. Em todo o mundo, apenas o Norte da Península Ibérica conserva este tipo de estruturas, mas em estado de abandono. […] “fojo de paredes convergentes” é o mais emblemático das várias e seculares armadilhas construídas pelo homem para defesa. Trata-se de estruturas de pedra, afastadas das populações, com duas longas paredes de dois metros de altura e um quilómetro de extensão, que convergem para um fosso. Destes há cerca de 50 estruturas a aguardar recuperação» («Antigas armadilhas para lobos passam a atracção turística», Paulo Julião, Diário de Notícias, 7.03.2011, p. 22).
      Para quem nunca viu um fojo, as simples definições dos dicionários deixam os falantes apenas entreadivinhar a realidade (com excepção do «venerando Morais», como escreveu aqui recentemente Montexto, com a unção própria de quem ama a língua). A etimologia de «fojo», que muitos asseveram encontrar-se no latim fovea,ae, é que me não convence inteiramente. Terá passado pelas grafias foio e foyo, antes de acabar em fojo.

[Post 4539]


Léxico: «rebuçadeiro»

Embuçados e rebuçados

      «A receita dos rebuçados da Régua é um segredo bem guardado pelas rebuçadeiras da Régua há mais de um século. Todos sabem que são feitos com limão, mel e manteiga, mas o ingrediente que os torna únicos ninguém revela» («Criar os filhos a vender rebuçados», José António Cardoso, Diário de Notícias, 8.03.2011, p. 22).
      Não vejo a palavra em nenhum dicionário — o que levaria certa colaboradora do Ciberdúvidas (que na última emissão do programa Páginas de Português estribilhou a sua resposta à pergunta sobre como se deve escrever o antropónimo Vinicius/Vinícius com vários, inestéticos e desnecessários «o que é que acontece?») a escrever que, se «ainda não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta, se quisermos ser completamente rigorosos». A propósito, já alguma vez reflectiram na etimologia do vocábulo «rebuçado»? O rebuçado é embrulhado, envolvido em plástico ou papel, ficando assim oculto, escondido, embuçado, rebuçado.

[Post 4538]

«Mandarim», de novo

Parçaria

      Andarim, beleguim, galopim, querubim, serafim... Lembram-se de aqui ter tratado da suposta origem portuguesa do vocábulo «mandarim»? Vejo agora que Agostinho de Campos também reflectiu sobre o assunto:

      «Mandarim foi considerado outrora, principalmente por estrangeiros, como derivado do nosso verbo mandar. Dalgado e Gonçalves Viana reduziram a pouco, mas talvez não ainda a nada, esta lenda etimológica. O segundo daqueles grandes filólogos, nas suas Apostilas (II, 104, ed. de 1906) diz que o vocábulo é Índico (em indostano mantri, “ministro”) e que a influência do português consistiu em mudar o final tri em dari, provàvelmente por influência do verbo mandar. A tese da derivação directa dêste nosso verbo parece-lhe insustentável, “porque não existe na nossa língua sufixo –im para derivar de infinitos de verbos substantivos de agente”. Esta razão não parece bastante, pois na língua podem surgir sufixos novos, ou ampliar-se o emprêgo dos antigos; e o –im existia para certos substantivos de agente, como querubim e serafim, derivados de plurais hebraicos, e beleguim, que Sousa deriva do arábico. Além dêstes lembra-nos andarim, que Morais tira do Suplemento de Bluteau, e dá como sinónimo de andarilho — “homem de pé que corre adiante dos coches por Estado” (por luxo ou representação, como hoje se diz). Êste vem indubitàvelmente do infinitivo andar. Averiguar-lhe a idade é caso para segundas leituras. Galopim, de galoper, ou galopar (conforme tenha vindo de França ou de Espanha) é, de-certo, muito moderno. Mas, directa ou indirectamente, mostra a formação, com –im, de substantivos de agente derivados do infinito.
      O sr. Pamplona filia mandarim no sânscrito mandalin, e o mesmo fazem vários Larousses que temos à mão. Dalgado, na sua Influência do vocabulário português nas línguas asiáticas, p. 102 (edição de 1913), cita como étimo o mesmo mantri e acrescenta: “A mudança de t em d e a dissolução da consoante composta tr podem ser devidas ou à influência de mandar, ou, antes, a alguma língua da Insulíndia.” E diz mais, em nota: “A nasalização do i final é regular, na transição das palavras orientais para o português. Cf. lascarim, mordexim, palanquim”. Acrescente-se Samorim, Cochim, chatim, etc., embora Barros e outros escrevessem o sufixo ij, em vez de im.
      De tudo isto se conclui que o patriotismo etimológico tem ainda margem para barafustar, alegando que, pelo menos, se formou uma parçaria do verbo português mandar com a palavra oriental, para, juntos, darem à luz o vocábulo mandarim» («Lusismos no francês», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 14—15).


[Post 4537]

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