Linguagem

Não gostamos

      «Estudantes do 9.º e 6.º anos da Escola Selecta, em Lisboa, estão entre os melhores alunos e, quando não estão nas aulas, estão em casa a estudar. “Acho que aquela [Amy Chua] é muito regulosa. Eu também sou, mas ainda não cheguei ao nível dela. Ela é mais exigente”, observa Inga, a rir» («Mães tigre em Portugal», Catarina Pires, Notícias Magazine, 6.03.2011, p. 69).
      Que necessidade tem o leitor de saber que a entrevistada, Inga, uma chinesa que vive em Portugal, troca os rr pelos ll? Aliás, e não devia ser «rigolosa»? Não deviam ser os meios de comunicação social os primeiros a evitar tais estereótipos, que só servem para discriminar?

[Post 4540]

Léxico: «fojo»

Para os lobos

      «É o caso dos milenares fojos, estruturas de pedra destinadas a capturar lobos e que constituíram a primeira forma de defesa das populações, em que algumas chegavam a ter um quilómetro de extensão. Actualmente, em Portugal, estão identificadas cerca de 200 destas estruturas, a maioria datadas da época medieval, mas algumas já com mil anos de história. Em todo o mundo, apenas o Norte da Península Ibérica conserva este tipo de estruturas, mas em estado de abandono. […] “fojo de paredes convergentes” é o mais emblemático das várias e seculares armadilhas construídas pelo homem para defesa. Trata-se de estruturas de pedra, afastadas das populações, com duas longas paredes de dois metros de altura e um quilómetro de extensão, que convergem para um fosso. Destes há cerca de 50 estruturas a aguardar recuperação» («Antigas armadilhas para lobos passam a atracção turística», Paulo Julião, Diário de Notícias, 7.03.2011, p. 22).
      Para quem nunca viu um fojo, as simples definições dos dicionários deixam os falantes apenas entreadivinhar a realidade (com excepção do «venerando Morais», como escreveu aqui recentemente Montexto, com a unção própria de quem ama a língua). A etimologia de «fojo», que muitos asseveram encontrar-se no latim fovea,ae, é que me não convence inteiramente. Terá passado pelas grafias foio e foyo, antes de acabar em fojo.

[Post 4539]


Léxico: «rebuçadeiro»

Embuçados e rebuçados

      «A receita dos rebuçados da Régua é um segredo bem guardado pelas rebuçadeiras da Régua há mais de um século. Todos sabem que são feitos com limão, mel e manteiga, mas o ingrediente que os torna únicos ninguém revela» («Criar os filhos a vender rebuçados», José António Cardoso, Diário de Notícias, 8.03.2011, p. 22).
      Não vejo a palavra em nenhum dicionário — o que levaria certa colaboradora do Ciberdúvidas (que na última emissão do programa Páginas de Português estribilhou a sua resposta à pergunta sobre como se deve escrever o antropónimo Vinicius/Vinícius com vários, inestéticos e desnecessários «o que é que acontece?») a escrever que, se «ainda não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta, se quisermos ser completamente rigorosos». A propósito, já alguma vez reflectiram na etimologia do vocábulo «rebuçado»? O rebuçado é embrulhado, envolvido em plástico ou papel, ficando assim oculto, escondido, embuçado, rebuçado.

[Post 4538]

«Mandarim», de novo

Parçaria

      Andarim, beleguim, galopim, querubim, serafim... Lembram-se de aqui ter tratado da suposta origem portuguesa do vocábulo «mandarim»? Vejo agora que Agostinho de Campos também reflectiu sobre o assunto:

      «Mandarim foi considerado outrora, principalmente por estrangeiros, como derivado do nosso verbo mandar. Dalgado e Gonçalves Viana reduziram a pouco, mas talvez não ainda a nada, esta lenda etimológica. O segundo daqueles grandes filólogos, nas suas Apostilas (II, 104, ed. de 1906) diz que o vocábulo é Índico (em indostano mantri, “ministro”) e que a influência do português consistiu em mudar o final tri em dari, provàvelmente por influência do verbo mandar. A tese da derivação directa dêste nosso verbo parece-lhe insustentável, “porque não existe na nossa língua sufixo –im para derivar de infinitos de verbos substantivos de agente”. Esta razão não parece bastante, pois na língua podem surgir sufixos novos, ou ampliar-se o emprêgo dos antigos; e o –im existia para certos substantivos de agente, como querubim e serafim, derivados de plurais hebraicos, e beleguim, que Sousa deriva do arábico. Além dêstes lembra-nos andarim, que Morais tira do Suplemento de Bluteau, e dá como sinónimo de andarilho — “homem de pé que corre adiante dos coches por Estado” (por luxo ou representação, como hoje se diz). Êste vem indubitàvelmente do infinitivo andar. Averiguar-lhe a idade é caso para segundas leituras. Galopim, de galoper, ou galopar (conforme tenha vindo de França ou de Espanha) é, de-certo, muito moderno. Mas, directa ou indirectamente, mostra a formação, com –im, de substantivos de agente derivados do infinito.
      O sr. Pamplona filia mandarim no sânscrito mandalin, e o mesmo fazem vários Larousses que temos à mão. Dalgado, na sua Influência do vocabulário português nas línguas asiáticas, p. 102 (edição de 1913), cita como étimo o mesmo mantri e acrescenta: “A mudança de t em d e a dissolução da consoante composta tr podem ser devidas ou à influência de mandar, ou, antes, a alguma língua da Insulíndia.” E diz mais, em nota: “A nasalização do i final é regular, na transição das palavras orientais para o português. Cf. lascarim, mordexim, palanquim”. Acrescente-se Samorim, Cochim, chatim, etc., embora Barros e outros escrevessem o sufixo ij, em vez de im.
      De tudo isto se conclui que o patriotismo etimológico tem ainda margem para barafustar, alegando que, pelo menos, se formou uma parçaria do verbo português mandar com a palavra oriental, para, juntos, darem à luz o vocábulo mandarim» («Lusismos no francês», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 14—15).


[Post 4537]

«Responder» na voz passiva

Anómalo? Raro? Errado?

      Ribeiro e Castro, ex-eurodeputado, sobre a exclusão do português do sistema comum de registo de patentes: «[…] isso é um direito fundamental de cidadania, como nós sabemos, o direito de nos dirigirmos às instituições da União Europeia e aos seus organismos na nossa própria língua, em qualquer uma das línguas oficiais da União e de sermos respondidos pelos órgãos da administração europeia e pelas instituições europeias também na mesma língua. A nossa ou qualquer das línguas oficiais da União que nós tenhamos usado. Eu tenho o direito de me corresponder em português e ser respondido em português, mas se quiser corresponder-me em finlandês, escrevo em finlandês e sou respondido em finlandês» (Páginas de Português, emissão de ontem).
      O verbo responder admite a construção na voz passiva? Para mim, é novidade.

[Post 4536]

Topónimos aportuguesados

Sem receio

      O Diário de Notícias prossegue o seu bom princípio de aportuguesar os topónimos estrangeiros.
      «Fundador de um dos principais partidos do seu país, o Congresso do Nepal (CP), Krishna Prasad Bhattarai morreu sexta-feira aos 87 anos num hospital de Catmandu, vítima de infecções múltiplas» («O ‘Gandhi do Nepal’ que era um monárquico intransigente», A. C. M., Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 55).
      «Há cem anos, de regresso de uma visita à Irlanda, o rei Jorge V recordava a “recepção calorosa e entusiástica” que recebera no castelo de Dublim. E prometia regressar. Mas nunca o fez» («Isabel II visita Dublim em Maio para sarar feridas com a Irlanda», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      «Os vencedores vão agora a Dusseldórfia (Alemanha), no dia 14 de Maio. Para chegar ao apuramento do vencedor foi decidida uma forma de eleição através de um método conjunto em que 50% estavam consignados ao televoto e os outros 50% à escolha das 20 delegações distritais» («‘A luta é uma alegria’ ganha Festival da Canção», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 65).

[Post 4535]

«Posar/pousar»

Deixa-os pousar...

      «No centro histórico de Havana, velhas cubanas pousam para os turistas com os seus vestidos coloridos e um charuto junto à boca. Mas são poucas aquelas que os fumam verdadeiramente. E se o cenário é assim em Cuba, pior é no resto do mundo, onde a imagem de uma mulher a fumar charutos ainda é menos comum. Mas não por muito tempo, se os planos correrem bem à estatal Habanos S. A. que de olho no público feminino acaba de lançar os Julieta» («‘Julieta’, um charuto só para mulheres», Susana Salvador, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      Este é, para muitos, um caso menor, comezinho, desculpável, etc. Será, será. Contudo, se é assim tão insignificante, menos desculpa terão para tal deslize. Pousar, cara Susana Salvador, é diferente de posar. A não ser que objecte, à semelhança de certo professor universitário, que escreve assim para evitar o galicismo...

[Post 4534]

Pronúncia. Dissimilação

Afinal, é de mau gosto

      Comecemos por dizer, com Vasco Botelho de Amaral, que as disputas à volta da pronúncia são insensatas. E façamos como ele: falemos, mais uma vez, de pronúncia. No último Câmara Clara, com o tema «Gainsbourg e os outros franceses», uma das obras referidas foi Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro. Paula Moura Pinheiro, no que pode ter sido lapso, mas isso não interessa, pronunciou a palavra «príncipes» sem dissimilação. A pronúncia normal, como se sabe, é com dissimilação, tal como se faz com os vocábulos «vizinho», «ministro» e outros. Só refiro o caso porque ainda na semana que passou uma professora de Português me confessava que nunca tinha compreendido porque se havia de pronunciar dessa forma. Vou revelar-lhe um segredo, cara M.: não tem de pronunciar dessa forma. «Não quere isto dizer que os que pertençam a regiões, onde fique natural a manutenção dos ii, sejam obrigados à dissimilação. Apenas o que me parece especioso é, sob color de gôsto de sonoridade, cair-se no mau gôsto de ajanotar a fala quotidiana» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 266).

[Post 4533]

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