«Responder» na voz passiva

Anómalo? Raro? Errado?

      Ribeiro e Castro, ex-eurodeputado, sobre a exclusão do português do sistema comum de registo de patentes: «[…] isso é um direito fundamental de cidadania, como nós sabemos, o direito de nos dirigirmos às instituições da União Europeia e aos seus organismos na nossa própria língua, em qualquer uma das línguas oficiais da União e de sermos respondidos pelos órgãos da administração europeia e pelas instituições europeias também na mesma língua. A nossa ou qualquer das línguas oficiais da União que nós tenhamos usado. Eu tenho o direito de me corresponder em português e ser respondido em português, mas se quiser corresponder-me em finlandês, escrevo em finlandês e sou respondido em finlandês» (Páginas de Português, emissão de ontem).
      O verbo responder admite a construção na voz passiva? Para mim, é novidade.

[Post 4536]

Topónimos aportuguesados

Sem receio

      O Diário de Notícias prossegue o seu bom princípio de aportuguesar os topónimos estrangeiros.
      «Fundador de um dos principais partidos do seu país, o Congresso do Nepal (CP), Krishna Prasad Bhattarai morreu sexta-feira aos 87 anos num hospital de Catmandu, vítima de infecções múltiplas» («O ‘Gandhi do Nepal’ que era um monárquico intransigente», A. C. M., Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 55).
      «Há cem anos, de regresso de uma visita à Irlanda, o rei Jorge V recordava a “recepção calorosa e entusiástica” que recebera no castelo de Dublim. E prometia regressar. Mas nunca o fez» («Isabel II visita Dublim em Maio para sarar feridas com a Irlanda», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      «Os vencedores vão agora a Dusseldórfia (Alemanha), no dia 14 de Maio. Para chegar ao apuramento do vencedor foi decidida uma forma de eleição através de um método conjunto em que 50% estavam consignados ao televoto e os outros 50% à escolha das 20 delegações distritais» («‘A luta é uma alegria’ ganha Festival da Canção», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 65).

[Post 4535]

«Posar/pousar»

Deixa-os pousar...

      «No centro histórico de Havana, velhas cubanas pousam para os turistas com os seus vestidos coloridos e um charuto junto à boca. Mas são poucas aquelas que os fumam verdadeiramente. E se o cenário é assim em Cuba, pior é no resto do mundo, onde a imagem de uma mulher a fumar charutos ainda é menos comum. Mas não por muito tempo, se os planos correrem bem à estatal Habanos S. A. que de olho no público feminino acaba de lançar os Julieta» («‘Julieta’, um charuto só para mulheres», Susana Salvador, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      Este é, para muitos, um caso menor, comezinho, desculpável, etc. Será, será. Contudo, se é assim tão insignificante, menos desculpa terão para tal deslize. Pousar, cara Susana Salvador, é diferente de posar. A não ser que objecte, à semelhança de certo professor universitário, que escreve assim para evitar o galicismo...

[Post 4534]

Pronúncia. Dissimilação

Afinal, é de mau gosto

      Comecemos por dizer, com Vasco Botelho de Amaral, que as disputas à volta da pronúncia são insensatas. E façamos como ele: falemos, mais uma vez, de pronúncia. No último Câmara Clara, com o tema «Gainsbourg e os outros franceses», uma das obras referidas foi Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro. Paula Moura Pinheiro, no que pode ter sido lapso, mas isso não interessa, pronunciou a palavra «príncipes» sem dissimilação. A pronúncia normal, como se sabe, é com dissimilação, tal como se faz com os vocábulos «vizinho», «ministro» e outros. Só refiro o caso porque ainda na semana que passou uma professora de Português me confessava que nunca tinha compreendido porque se havia de pronunciar dessa forma. Vou revelar-lhe um segredo, cara M.: não tem de pronunciar dessa forma. «Não quere isto dizer que os que pertençam a regiões, onde fique natural a manutenção dos ii, sejam obrigados à dissimilação. Apenas o que me parece especioso é, sob color de gôsto de sonoridade, cair-se no mau gôsto de ajanotar a fala quotidiana» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 266).

[Post 4533]

«Herculano», pronúncia

Repita lá

      No programa Páginas de Português desta semana, que acabei de ouvir, alguém (um actor, decerto) leu a carta premiada do mês, na rubrica «Uma Carta É Uma Alegria da Terra». O texto referia Alexandre Herculano. «Olha o Hérculano...», ouviu-se. Leiam e digam-lhe, por caridade.

[Post 4532]


Ortografia

Um pouco de severidade

      «O Parlamento açoriano, através do PS, rejeitou a proposta do CDS-PP que visava a criação de um pacote “atractivo” de viagens a São Jorge, destinado aos caçadores das outras ilhas do arquipélago e do Continente, para incentivar o abate do coelho bravo, que tem vindo a causar severos danos à agricultura local» («O coelho que aflige a ilha de São Jorge», Paulo Faustino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 44).
      Às vezes, também lhes chamam, neste mesmo jornal, coelhos-bravos: «Dissimulado entre a erva alta, bem camuflado na sua pelagem castanho-acinzentada, um coelho-bravo pasta calmamente, mas sempre atento aos predadores» («A fuga aos ziguezagues da extinção», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 60). Mas esquecem-se, coitados.
      E os «severos danos» são, logo seis linhas mais à frente, «sérios prejuízos».

[Post 4531]

«De forma a/por forma a»

Sendo assim

      «Por forma a» ou «de forma a»? Responde Sara Leite: «O problema — que não é um verdadeiro problema — está na escolha entre uma e outra, quando o objectivo é usar correctamente a nossa língua: é que a locução de forma a é desaconselhada pelos puristas, que a consideram um galicismo desnecessário (ver Ciberdúvidas) mas, por outro lado, a expressão por forma a ainda não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta, se quisermos ser completamente rigorosos.»
      Ai isso é assim? «Não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta»? Para sermos rigorosos, cara Sara Leite, há outras formas de dizer o mesmo.

[Post 4530]


Léxico: «recuperador»

Por um triz

      «Numa pequena sala da base aérea militar do Montijo, três homens vestem-se para entrarem em acção. Fatos de neoprene, capacetes, coletes de salvamento, faca na perna. Na manga salta à vista o emblema da Esquadra 751 com o respectivo lema: “Para que outros vivam”. São recuperadores da Força Aérea Portuguesa (FAP), pescadores de vidas em mares revoltos. Foi graças a estes homens, que trabalham pendurados por cabos presos a helicópteros, que 2520 vidas foram salvas pela Força Aérea Portuguesa ao longo dos últimos 33 anos» («Homens que salvam vidas pendurados em helicópteros», Luís Fontes, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 22).
      O príncipe William (ou direi melhor Guilherme, como se lê na Infopédia?) é co-piloto de um helicóptero de resgate. Os colegas serão recuperadores. A acepção ainda não chegou aos dicionários. Felizmente, ninguém se lembrou (e até eu devia estar caladinho, mas os meus leitores são sensatos) de dizer que são rescuers.
[Post 4529]

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