«Holocausto», de novo

Ainda vai pegar

      Parece que passou a ser doutrina no Diário de Notícias: «Holocausto» é sempre com minúscula inicial: «Se se espera que o meu livro esclareça quais as origens e o processo do racismo; como se constroem os falsos protocolos ou o caso Dreyfus, então é revelador. Já agora conto que recentemente, em Jerusalém, um arquitecto que escapou ao holocausto veio dizer-me que só agora é que compreendeu como é que o anti-semitismo se formara. Eu construí uma personagem miserável, um mentiroso, que não tem nada a ver com o que penso» (resposta de Umberto Eco a uma pergunta de João Céu e Silva, em entrevista para o Diário de Notícias. «O terrorista intelectual», «DN Gente»/Diário de Notícias, 5.03.2001, p. 5).
      (O maior esforço do jornalista, que poucos, os ecomaníacos e os outros, lhe agradecerão, foi mostrar Eco como uma pessoa antipática e até um pouco tonta. É para rir — e lamentar.)

[Post 4524]

«Não é?»

Estribilho enfadonho

      Estão a ver aquele «não é?» de João Almeida, do Quinta Essência? Lembrou-me o comento de Montexto: «Ainda haverá quem se lembre de que “a partir de” é um galicismo? Acho que Camilo nunca o usou... No caso podia substituir-se por “desde aí, desde então”.» E não podia ver-se no estribilho «não é?», demasiado usado por alguns, influência do «n’est-ce pas?» francês? «Andam», escreveu Vasco Botelho de Amaral, «na verdade, bem esquecidas as naturalíssimas formas de preguntar — “não é verdade?”, “não lhe parece?”, não acha?”, “ora, não?”; então, não?”, pois não?”; ou simplesmente “não?”» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 217).

[Post 4523]

«Dição», de novo

Lisboa, MCMXLV

      Com ambas as mãos me benzo! Então não é que numa obra de Vasco Botelho de Amaral que tenho aqui à minha frente abundam as «dições»?! Temos aqui um problema, Fernando Venâncio. Só um exemplo: «Os Franceses, por exemplo, também dizem, em correspondente diçãoles diables se sont déchaînes. E à la diable lembre-se que quere dizer à doida, em desordem, à toa» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 129). Vá, mais um exemplo, não vão pensar que foi lapso: «O protótipo do esquecimento do significado religioso está, a meu ver, nesta dição portuguesíssima, em que se aplica à palavra Deus (aliás, já desvanecida na interjeição que a contém) o grau diminutivo: adeusinho!» (ibidem, idem, p. 133).

[Post 4522]

Artigo com topónimos

Das Donas

      João Almeida entrevistou hoje Marçal Grilo no programa Quinta Essência, na Antena 2. Marçal Grilo, licenciado em Engenharia Mecânica (ainda o curso era de seis anos e havia apenas cinco engenharias), diz «embraiage» e não «embraiagem». Talvez até escreva, quem sabe, embrayage. Ouvi falar de uma senhora idosa que diz «cláxon» e não «buzina», e talvez até escreva klaxon. João Almeida: «Ora então, mas, além disso, por exemplo, essa zona é também de António Guterres, é, salvo erro, de Donas, não é?» Marçal Grilo: «É das Donas, é.»

 [Post 4521]

«Vai de embute»

Novidade

      João Gobern, o Ubíquo, dizia hoje na sua crónica, «Com três letrinhas apenas», na Antena 1: «Com uns pozinhos de especulação à mistura, nem é difícil entender o que sucedeu: o amaneirado Galliano irritou-se e decidiu fazer às palavras aquilo que tantas vezes fez às suas criações estilísticas: carregou na cor, insuflou o corte, radicalizou no tecido, e vai de embute.»
      Nunca — e já sabem como sou atento — antes ouvira esta expressão. Etimologia? Origem? Que alguém nos ajude.

[Post 4520]

«Holocausto»

Horror

      «Que sucederia se a cena com Galliano se tivesse passado nos EUA e fosse parar ao Supremo? Parece claro que este só poderia considerar que o designer tem todo o direito, mais a mais estando com os copos, de dizer num restaurante que acha lindamente gasear judeus — naquilo que pode ser entendido como uma provocação irónica. Mas não é certo. Porque existe, no chamado mundo ocidental, uma zona de exclusão para o que possa ser considerado um ataque aos judeus ou menções não horrorizadas do holocausto, exclusão essa que contrasta aparatosamente com a licença para insultar e até ameaçar outros “grupos” ou indivíduos» («Deus e John Galliano», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 4.03.2011, p. 9).
      Lembram-se de um texto de opinião de Isabel do Carmo em que a palavra assinalada a vermelho também tinha sido grafada com minúscula inicial? Nessa altura, o Público decidiu incluir a seguinte da nota da redacção: «NR — O PÚBLICO não alterou a grafia deste texto, designadamente o facto de a autora escrever Holocausto com caixa baixa.»


[Post 4519]

«Tratar-se de», mais uma vez

Gente fina, gramática grossa

      Isabel Alçada, ministra da Educação, sobre o chumbo da reforma curricular: «Vamos analisar todas, todas as possibilidades que estiverem ao nosso alcance, nós iremos insistir e reafirmar que se tratam de medidas benéficas, vamos esclarecer as pessoas sobre estas medidas e tomar as decisões que forem necessárias para que no próximo ano o currículo seja um currículo ajustado.»
      Ana Luísa Geraldes, directora do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), sobre as duas demissões num mês: «Tratam-se de demissões completamente diferentes.»

[Post 4518]

«Intenção/intencionalidade»

Isso é muito científico

      Javier Bardem e Josh Brolin deram um beijo na boca durante a 83.ª cerimónia de entrega dos Óscares. A televisão ABC cortou a imagem. «Em declarações ao site AfterElton.com, um dos produtores responsáveis pela 83.ª gala dos Óscares, Bruce Cohen, afirmou não ter existido qualquer intencionalidade de censura durante a captação das imagens» («Beijo de Brolin e Bardem censurado», Irina Fernandes, Diário de Notícias, 4.03.2011, p. 57).
      Não podemos deixar a intencionalidade para os professores de Filosofia e para os juristas? Acho que sim.

[Post 4517]

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