«Dição», de novo

Lisboa, MCMXLV

      Com ambas as mãos me benzo! Então não é que numa obra de Vasco Botelho de Amaral que tenho aqui à minha frente abundam as «dições»?! Temos aqui um problema, Fernando Venâncio. Só um exemplo: «Os Franceses, por exemplo, também dizem, em correspondente diçãoles diables se sont déchaînes. E à la diable lembre-se que quere dizer à doida, em desordem, à toa» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 129). Vá, mais um exemplo, não vão pensar que foi lapso: «O protótipo do esquecimento do significado religioso está, a meu ver, nesta dição portuguesíssima, em que se aplica à palavra Deus (aliás, já desvanecida na interjeição que a contém) o grau diminutivo: adeusinho!» (ibidem, idem, p. 133).

[Post 4522]

Artigo com topónimos

Das Donas

      João Almeida entrevistou hoje Marçal Grilo no programa Quinta Essência, na Antena 2. Marçal Grilo, licenciado em Engenharia Mecânica (ainda o curso era de seis anos e havia apenas cinco engenharias), diz «embraiage» e não «embraiagem». Talvez até escreva, quem sabe, embrayage. Ouvi falar de uma senhora idosa que diz «cláxon» e não «buzina», e talvez até escreva klaxon. João Almeida: «Ora então, mas, além disso, por exemplo, essa zona é também de António Guterres, é, salvo erro, de Donas, não é?» Marçal Grilo: «É das Donas, é.»

 [Post 4521]

«Vai de embute»

Novidade

      João Gobern, o Ubíquo, dizia hoje na sua crónica, «Com três letrinhas apenas», na Antena 1: «Com uns pozinhos de especulação à mistura, nem é difícil entender o que sucedeu: o amaneirado Galliano irritou-se e decidiu fazer às palavras aquilo que tantas vezes fez às suas criações estilísticas: carregou na cor, insuflou o corte, radicalizou no tecido, e vai de embute.»
      Nunca — e já sabem como sou atento — antes ouvira esta expressão. Etimologia? Origem? Que alguém nos ajude.

[Post 4520]

«Holocausto»

Horror

      «Que sucederia se a cena com Galliano se tivesse passado nos EUA e fosse parar ao Supremo? Parece claro que este só poderia considerar que o designer tem todo o direito, mais a mais estando com os copos, de dizer num restaurante que acha lindamente gasear judeus — naquilo que pode ser entendido como uma provocação irónica. Mas não é certo. Porque existe, no chamado mundo ocidental, uma zona de exclusão para o que possa ser considerado um ataque aos judeus ou menções não horrorizadas do holocausto, exclusão essa que contrasta aparatosamente com a licença para insultar e até ameaçar outros “grupos” ou indivíduos» («Deus e John Galliano», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 4.03.2011, p. 9).
      Lembram-se de um texto de opinião de Isabel do Carmo em que a palavra assinalada a vermelho também tinha sido grafada com minúscula inicial? Nessa altura, o Público decidiu incluir a seguinte da nota da redacção: «NR — O PÚBLICO não alterou a grafia deste texto, designadamente o facto de a autora escrever Holocausto com caixa baixa.»


[Post 4519]

«Tratar-se de», mais uma vez

Gente fina, gramática grossa

      Isabel Alçada, ministra da Educação, sobre o chumbo da reforma curricular: «Vamos analisar todas, todas as possibilidades que estiverem ao nosso alcance, nós iremos insistir e reafirmar que se tratam de medidas benéficas, vamos esclarecer as pessoas sobre estas medidas e tomar as decisões que forem necessárias para que no próximo ano o currículo seja um currículo ajustado.»
      Ana Luísa Geraldes, directora do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), sobre as duas demissões num mês: «Tratam-se de demissões completamente diferentes.»

[Post 4518]

«Intenção/intencionalidade»

Isso é muito científico

      Javier Bardem e Josh Brolin deram um beijo na boca durante a 83.ª cerimónia de entrega dos Óscares. A televisão ABC cortou a imagem. «Em declarações ao site AfterElton.com, um dos produtores responsáveis pela 83.ª gala dos Óscares, Bruce Cohen, afirmou não ter existido qualquer intencionalidade de censura durante a captação das imagens» («Beijo de Brolin e Bardem censurado», Irina Fernandes, Diário de Notícias, 4.03.2011, p. 57).
      Não podemos deixar a intencionalidade para os professores de Filosofia e para os juristas? Acho que sim.

[Post 4517]

«Banco dos réus»?

Não é imutável

      «O ex-criador da Casa Dior vai sentar-se no banco dos réus, ainda antes do Verão, onde terá de responder pelo crime de injúrias raciais ao casal judeu que se encontrava na esplanada do café La Perle, no bairro Le Marais, em Paris, no dia 23 de Fevereiro. John Galliano arrisca-se a uma pena de prisão que pode ir até aos seis meses e ao pagamento de uma multa cujo valor máximo é de 25 mil euros» («John Galliano será julgado por “injúrias raciais”», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 4.03.2011, p. 59).
      Algo mudou: a jornalista já situou o incidente noutro espaço, uma esplanada, e o bairro parisiense já é Le Marais. E já há jornais, incluindo, noutros artigos, o Diário de Notícias, a sentar esta gentinha no banco dos arguidos. Os dicionários ainda ignoram a locução, mas lá chegaremos. (As aspas nas «injúrias raciais» são escusadas.)


[Post 4516]

Como se fala na rádio

Ser uma messalina

      «De uma mulher devassa, promíscua, de má índole e intriguista diz-se que é uma messalina. A expressão deriva de uma figura histórica, a imperatriz romana Valéria Messalina Augusta, mulher do imperador Cláudio e mãe de Britanicus. […] E foi precisamente por conspiração e adultério que Messalina acabou por ser ela própria condenada à morte e executada após ter sido descoberto que tencionava matar o marido e colocar o amante no lugar do imperador» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 4.03.2011).
      Há aqui pábulo para muito mais, mas só dois reparos. Primeiro: se disse Britanicus em vez de Britânico, também deveria ter dito Claudius, Suetonius e Tacitus. Segundo: não deveria ter bem assente, antes de ler, qual a pronúncia de «Messalina»? É que, se ouvi bem (ouçam aqui), pronunciou-o de três formas diferentes.

[Post 4515]

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