E cá?
Na crónica de hoje de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias, ficámos a saber que os Franceses foram aconselhados a referir o iPad e aparelhos semelhantes como «ardoise».
«O londrino The Times fez ontem um artigo à volta de uma fotomontagem. Descrevo-a: numa sala de aula, garotos de há meio século mostram as suas ardósias (para os leitores mais novos: uma pedra preta onde se escrevia com giz — escrevia-se e apagava-se, hoje chamar-se-ia um objecto sustentável). Mas há uma menina que em vez da lousa segura algo parecido: um iPad. A fotomontagem ilustrava este assunto: a Comissão de Terminologia e Neologismos [Commission générale de terminologie et de néologie], polícia francesa da língua, proíbe que os dez milhões de funcionários franceses chamem “iPad” àquela magia plana e fina, um computador do tamanho de uma ardósia, que permite navegar na Internet, ler livros e jornais (esta semana, o DN aderiu a essa maravilha). E o que propõe a tal comissão como nome para combater o termo anglófono? “Ardoise”, ardósia. Não está mal lembrado. Primeiro, pela certeira evocação antiga. Segundo, porque sugere um sentimento de gratidão para com a Apple (“ardoise”, em francês, também quer dizer dívida). Terceiro, porque a Apple chegou a pensar chamar iSlate ao seu invento (“slate”, em inglês é ardósia). E, sobretudo, quarto, porque nenhuma língua deve deixar-se apagar. Para o que americanos chamam IT (Information Technology) os franceses inventaram a palavra “informatique” e conseguiram exportá-la: nós (e os americanos!) adoptámo-la. Às vezes, um pouco de teimosia vence batalhas dadas por perdidas» («O regresso da ardósia perdida», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.02.2011, p. 68).
Cá ninguém quer saber: não temos nenhuma entidade encarregada de velar pela língua e a apregoada defesa da língua são só palavras.
(Na semana passada, vi uma tradução do inglês em que se tinha usado o vocábulo «pedra» para traduzir «slate», e, de facto, pedra também é lousa escolar, ardósia, mas é ambíguo.)
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