Léxico: «genrear»

É uma espécie de parasita

      «Horas depois, em Londres, Kate acompanhou o noivo e o futuro genro, o príncipe Harry, na visita à Embaixada da Nova Zelândia, onde assinaram o livro de condolências em memória das vítimas do terramoto que assolou aquele país» («Kate Middleton já é a nova princesa do povo», Raquel Costa, Diário de Notícias, 28.02.2011, p. 49).
      A realeza sempre teve relações estranhas, mas aqui é um manifesto exagero... Foi um lapso, é claro: no meio de tantos in-laws, a jornalista atrapalhou-se. Oportunidade para dar a conhecer um verbo que só os Brasileiros usam: genrear — ser financeiramente dependente do(s) sogro(s). Ao indivíduo nestas circunstâncias dá-se o nome de genreador.
[Post 4500]

Aposentado/reformado/jubilado

É uma alegria

      Em conversa ontem com um amigo, professor recém-aposentado, surgiu a questão da etimologia da palavra e, era inevitável, a destrinça entre reformado, aposentado e jubilado. Se reformado é o que voltou à primeira forma, ao primeiro estado, está aqui uma grande mentira, pois nunca se volta ao primitivo estado. Mas reformado também significa desfigurado, o que já se aproxima da verdade, sobretudo ao fim de 36 anos de trabalho. Quanto a jubilado, a injustiça é óbvia: só os professores universitários e os juízes se jubilam. Jubilar(-se) é encher-se de júbilo, de intensa alegria ou contentamento, e nem todos têm motivos para isso. (No Brasil, também os estudantes universitários são jubilados, mas não me parece que fiquem cheios de júbilo...)
[Post 4499]


Anglicismos

E cá?

      Na crónica de hoje de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias, ficámos a saber que os Franceses foram aconselhados a referir o iPad e aparelhos semelhantes como «ardoise». 
      «O londrino The Times fez ontem um artigo à volta de uma fotomontagem. Descrevo-a: numa sala de aula, garotos de há meio século mostram as suas ardósias (para os leitores mais novos: uma pedra preta onde se escrevia com giz — escrevia-se e apagava-se, hoje chamar-se-ia um objecto sustentável). Mas há uma menina que em vez da lousa segura algo parecido: um iPad. A fotomontagem ilustrava este assunto: a Comissão de Terminologia e Neologismos [Commission générale de terminologie et de néologie], polícia francesa da língua, proíbe que os dez milhões de funcionários franceses chamem “iPad” àquela magia plana e fina, um computador do tamanho de uma ardósia, que permite navegar na Internet, ler livros e jornais (esta semana, o DN aderiu a essa maravilha). E o que propõe a tal comissão como nome para combater o termo anglófono? “Ardoise”, ardósia. Não está mal lembrado. Primeiro, pela certeira evocação antiga. Segundo, porque sugere um sentimento de gratidão para com a Apple (“ardoise”, em francês, também quer dizer dívida). Terceiro, porque a Apple chegou a pensar chamar iSlate ao seu invento (“slate”, em inglês é ardósia). E, sobretudo, quarto, porque nenhuma língua deve deixar-se apagar. Para o que americanos chamam IT (Information Technology) os franceses inventaram a palavra “informatique” e conseguiram exportá-la: nós (e os americanos!) adoptámo-la. Às vezes, um pouco de teimosia vence batalhas dadas por perdidas» («O regresso da ardósia perdida», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.02.2011, p. 68).
      Cá ninguém quer saber: não temos nenhuma entidade encarregada de velar pela língua e a apregoada defesa da língua são só palavras.
      (Na semana passada, vi uma tradução do inglês em que se tinha usado o vocábulo «pedra» para traduzir «slate», e, de facto, pedra também é lousa escolar, ardósia, mas é ambíguo.)
[Post 4498]

«Reconstruir/reconstituir»

Crime

      «O Ministério Público (MP) dá por encerrado o inquérito ao desaparecimento do menor no despacho de 11 de Fevereiro. O advogado da família de Rui Pedro, Ricardo Sá Fernandes, disse ontem que para esta acusação contribuiu o trabalho de uma nova equipa da Polícia Judiciária (PJ) do Porto que “conseguiu reconstruir o que se passou nas 24 horas consequentes ao desaparecimento de Rui Pedro”» («Amigo acusado de rapto de Rui Pedro 13 anos depois», Carlos Rodrigues Lima e Rute Coelho, Diário de Notícias, 27.02.2011, p. 2).
      Uma das acepções de reconstruir é «reconstituir», mas o certo é que habitualmente se diz «reconstituir um crime», «reconstituição de crime». E a falta de propriedade com que o adjectivo «consequente» foi usado é evidente. Tanto quanto vejo, consequente apenas significa que se deduz, que segue naturalmente, que vem por consequência (omito as restantes acepções, de nenhum interesse para o caso em apreço). Tire lá o com (con-, aqui): sequente, que (se) segue, que vem ou acontece logo depois; seguinte.
[Post 4497]

«Confucianismo/confucionismo»

Quase não há escolha

      «O confucianismo não é tanto uma religião no sentido ocidental da palavra como sobretudo uma moral, baseada no equilíbrio cósmico e procurando a integração social» («As religiões místicas», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 70).
      Talvez não haja dicionário que não registe as duas variantes: confucianismo e confucionismo (não confundir com confusionismo, mal endémico diagnosticado por mim e por Montexto), e ambas são usadas, talvez com a mesma frequência. No verbete desta última, o Dicionário Houaiss regista que é forma não preferível da primeira.

[Post 4496]

E/mas

Conjunções infelizes

      «Kilbourne, nascido a 10 de Julho de 1920 nos EUA, reformou-se com 80 anos, mas dedicou grande parte da vida profissional a estudar as doenças infecciosas» («Uma vida a desenvolver novas vacinas contra a gripe», H. R., Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 57).
      O e pode ter valor adversativo; o mas nunca indica conexão ou adição.

[Post 4495]

Linguagem

Contra-ataque

      Ontem decidi perder tempo a ver a primeira emissão do novo programa de Nicolau Breyner, Nico à Noite. Parecia uma imitação bera do pior Herman José. A displicência e a galhofa com que entrevistou Eurico Cebolo, um ex-professor de Música, chegou a indignar-me. Bem, mas não sou crítico de televisão. 
      O sidekick do programa também não surpreendeu: não deu uma para a caixa. Em Julho volto a ver televisão.
      No Contra-Análise, na RTPN, a propósito de escutas ilegais, disse Correia de Campos: «Tal como é lamentável [sic] as transcrições por escrito de telegramas que são feitas no Wikileaks.» Haverá transcrições orais?
[Post 4494]

Ortografia: «braço-direito»

Taras

      «E o que levou a tanta revolta? O Governo acabava de anunciar que daqui a dias a velocidade máxima nas auto-estradas espanholas passará de 120 km/h para 110. Julgando que só o dinheiro motivaria os cidadãos, o ministro Pérez Rubalcaba (o braço direito de Zapatero) adiantou a poupança a que levaria a diminuição da velocidade: menos 18 milhões de barris de petróleo importados por ano» («“Não mexam nos meus pedais!”», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 72).
      Há quem dê nome a partes do corpo (normalmente os homens em relação ao seu membro viril). Neste caso, é Zapatero que ao seu braço direito chama ministro Pérez Rubalcaba. Taras... Já vimos esta questão mais de uma vez: aqui, aqui e aqui.
      Também tenho dúvidas sobre a localização de um gerúndio na crónica de Ferreira Fernandes: «Mas isso sendo despesas públicas, e pouco interessando, logo ele passou para as vantagens pessoais de cada condutor: poupança de 11% no consumo de gasóleo e de 15% de gasolina (parece que a máxima eficiência energética dos automóveis é à volta dos 90 km/h, a partir daí havendo cada vez maior desperdício)» (Idem, ibidem). Não seria melhor escrever «havendo a partir daí cada vez maior desperdício»?

[Post 4493]

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