«Esplanada/terraço»

Era assim

      «John Galliano foi detido pelas autoridades francesas na sequência de um incidente ocorrido no bairro judaico de Marais, situado em Paris. Várias testemunhas presenciaram o momento em que o famoso criador da Casa Dior se dirigiu a um casal, que se encontrava no terraço de um café parisiense, com expressões racistas e anti-semitas» («Dior suspende Galliano por comentários racistas», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 69).
      Não sei quando se passou a designar por «esplanada» o que a jornalista chama «terraço», mas nas primeiras décadas do século XX era esta última a única que se usava. Seja como for, vêm ambas, directa ou indirectamente, do francês, mas «esplanada» não traz nenhuma ambiguidade. A jornalista usou o vocábulo pela mais óbvia das razões: a imprensa de língua inglesa que refere o incidente usou a palavra «terrace». Um mero exemplo, no Guardian: «The flamboyant designer, who is head of the French couture house Dior, was arrested in the Marais district after allegedly verbally accosting a couple sitting on a cafe terrace.» Já temos sorte que não tenha escrito «estilista flamboiã»…

[Post 4492]


Como se fala na rádio

Leva um R.

      José Guerreiro, no noticiário das 7 da tarde na Antena 1: «António Mouzinho, o presidente... ahn... o líder da ANTRAM entrevistado pelo jornalista Miguel Videira.» Como é que se pode «corrigir» de «presidente» para «líder»? Já aqui vimos este modismo idiota.

[Post 4491]

Como se escreve nos jornais

Atirou mal

      Estão a ver ali o «prime-time» hifenizado no texto de Fernanda Câncio? Muito bem. Agora vejam este excerto de outro artigo: «O presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia foi, de resto, o primeiro dos três convidados a entrar em estúdio. “Já era justo que o Nico tivesse um talk show em prime time na televisão portuguesa”, disse o autarca» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9). E agora leiam o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Prime time noun, primetime adjective.» Vai sendo mais necessário saber inglês do que português... Neste último artigo, temos prime time, talk show, stand up comedy, sketches e esta aberração: «Também Nuno Eiró está de regresso, após ano e meio afastado do pequeno ecrã. “Sou o sidekick do programa. Estou no exterior, tenho intervenções em estúdio... É um regresso com muito prazer porque é com o Nico”, atirou» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 58).
[Post 4490]

Como se escreve nos jornais

Mettre en poche

      «Não é à China, nem à Rússia, nem à Venezuela, nem ao Brasil; nem tanto, sequer, aos países da zona. É aos que historicamente culpam por todos os seus males e que forjaram cumplicidades com todos os ditadores em causa — mesmo os que, como Kadhafi, mandaram abater aviões civis europeus — em troca de petróleo, contenção da imigração e investimentos bilaterais, os que empocham sorridentes o dinheiro das oligarquias e fecham os olhos a todas as violações de direitos humanos que não apareçam em prime-time (só agora é que a Suíça percebeu que Mubarak e Kadhafi são facínoras, para decidir congelar-lhes as continhas?) que os líbios e os bahreinianos pedem apoio: a velha Europa e a velha América» («24.02.2011», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9).
      No Diário de Notícias, não há jornalista tão propenso ao barbarismo. Experimente, Fernanda Câncio, perguntar aí aos seus colegas se sabem o que significa «empochar». Não sei se há algum dicionário da língua portuguesa que acolha o verbo, tirante José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa: Amigos do Livro Editores, 1981, p. 375), que condena o seu uso: «Empochar, v. tr. Galicismo de uso condenável, pois só há vantagem em o substituir por embolsar.» «O empochar, por embolsar, já se vai vulgarizando, e não tardará que digamos poche em vez de bôlsa» (Paladinos da Linguagem, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1922, p. 237). «Empochar. É galicismo inaceitável por embolsar» (Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Editora Educação Nacional, p. 178).
      Para juntar o pior de outros e deste tempo, a jornalista também achou imprescindível o anglicismo prime-time. Tem receio de, se não escrever desta forma, não ser entendida...

[Post 4489]

Acordo Ortográfico

Ensandeceram

      Relativo a matéria? Matérico. Inopcidade (?). Linguagem de filósofo, mas não é disto que quero falar. No laboratório, vejo que alguns escrevem (e não são professores de Física disléxicos) «fição», outros escrevem (e não são cegos) «diotrias». É o novo acordo ortográfico e são professores que assim escrevem. Pês e cês é tudo para deitar abaixo a esmo e a eito. Vamos a ver se o que sobra é legível.

[Post 4488]

«Medicamento órfão»

Próximo!

      Paula Brito e Costa, da associação Raríssimas, no noticiário das 9 da manhã da Antena 1: «E depois não vão querer que a Paula Costa diga que os doentes estão a morrer. Estão a morrer! E, neste momento, dois doentes do São João estão muito prestes a morrer porque não têm acesso ao medicamento órfão.»
      Os jornalistas, tanto quanto ouvi, não explicaram o conceito, novo para mim, de «medicamento órfão». (Não são apenas alguns gestores hospitalares, como disse António Arnaut, que deveriam estar em fábricas de sabonetes...) Cheirou-me logo a bifecamone, como diria Montexto, mascarado de português. E é: vem de orphan drugs. São produtos médicos destinados à prevenção, diagnóstico ou tratamento de doenças raras muito graves ou que constituem um risco para a vida.

[Post 4487]

«Guichet/guichê/guiché»

Senha 27

      «Seriam umas dez horas quando estranhei a ausência de acção. “Mas este processo não é aqui!”, respondeu-me a menina do guichet, abanando a cabeça enquanto me apontava no papel: era na 2.ª Secção do 3.º Juízo e não a [sic] 3.ª Secção do 2.º Juízo» («A cafrealização de Vara e outras histórias», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 7).
      Eu pensava que no Diário de Notícias se escrevia «guiché» (ou, cá está a dupla grafia, «guichê»). Isto para quem não quer usar um vocábulo bem português, como postigo ou portinhola. (Para certos falantes — no Alentejo? —, «portinhola» é sobretudo a braguilha.) No século XIX, abundavam na literatura as portinholas — das carruagens.

[Post 4486]


«Prof/profe», de novo

Não custa nada

      «Os dez passos dos profs para o bloqueio» (Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 2).
      Cá está: se se grafar profe no singular, o que é mais conforme à língua portuguesa, teremos um plural regular: profes. Tentem.
                                                          
[Post 4485]

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