Acordo Ortográfico

Cardíaca

      No laboratório, de novo. Trinta professores de Português. Um diz: «Saliento, pois, a maior aproximação agora vigente da escrita e da fonética, sobretudo na síncope das consoantes mudas.» Ora, eu pensava que tal fenómeno fonético é a supressão de um fonema ou sílaba, e as consoantes mudas ou não articuladas são meros grafemas. Outro, demonstrando saber manipular a sinonímia, já chama «duplicidade» à dupla grafia... Doblez ou mesmo, com um sabor mais arcaico, dobrez lhe chamaria Vasco Graça Moura. Agora sim, já estou mesmo convencido: vão-se cometer as maiores barbaridades na aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. E os algozes serão os professores.

[Post 4480]


Acordo Ortográfico

Enterro da língua

      Vasco Graça Moura continua a zurzir no Acordo Ortográfico de 1990. Transcrevo o mais relevante: «A maneira como essas entidades [parte da comunicação social] se prestaram a acatar uma ignomínia, aliás inaplicável, que dá pelo nome de Acordo Ortográfico é eloquente: para não falar já nas trapalhadas relativas ao emprego do hífen e ao uso de maiúsculas e minúsculas, acontece que ninguém é capaz de fazer funcionar correctamente as suas regras, por ser impossível determinar, no tocante às chamadas consoantes mudas, quando é que elas se mantêm, por serem pronunciadas num ou noutro dos lados do Atlântico, e quando é que elas se suprimem, por não o serem em nenhum deles.»
      Quanto ao hífen, concordo: as regras relativas a este sinal não vieram, como se impunha, simplificar o seu uso. Quanto às regras sobre o uso das maiúsculas e das minúsculas, é matéria menor.
      VGM continua: «Não fez impressão a essas luminárias que, para escrever “correctamente” a sua própria língua, um cidadão português tenha de saber como é que ela se pronuncia num país estrangeiro... E agora as coisas estão a ser levadas ao extremo do inconcebível: não se sabendo como aplicar o Acordo, vai-se mais longe do que o previsto no seu próprio texto e zás!, varre-se de uma penada consoantes que não são mudas e continuam a ser pronunciadas no Brasil! De maneira que se gera um novo fosso ortográfico da asneira, ainda mais absurdo do que o texto que é invocado.» 
      Posso estar enganado, mas para a aplicação das regras da Base IV do AO90 não se impõe o conhecimento de «como é que ela se pronuncia num país estrangeiro».
      Há-de referir-se ao Brasil, porque os restantes países de língua oficial portuguesa não parecem contar muito. VGM escreve ainda: «À sombra do Acordo estão a ser criminosamente fabricadas grafias anómalas que o Brasil não aceita nem pratica. E continua a não constar que países como Angola, Moçambique ou a Guiné, [sic] tenham ratificado a imbecilidade ortográfica que pretensamente as sustenta.» Sim, essas grafias anómalas já andam por aí. 
      E a estocada final: «É claro que não vale a pena falar do que está ou vai passar-se nas escolas do nosso país, nem se pode ainda medir até que ponto alguns oportunismos editoriais, para não perderem o negócio, vão contribuir para escorar as soluções mais aberrantes em matéria de livros e manuais escolares» («Um país invertebrado», Diário de Notícias, 23.02.2011, p. 54).

[Post 4479]

Sobre «soar»

Manet et manebit

      Relativo a máquina? Maquínico. Tornar caótico? Caotizar. Linguagem de filósofo, mas não é disto que quero falar. «Segundo o próprio pai, mais que combater, o prodígio com nome a soar a pintor francês esteve na retaguarda a preparar a estratégia militar e as negociações de paz que se seguiram» («Chama-se Manet e faz tudo para ter boa pinta», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 21.02.2011, p. 7).
      Soar é polissémico, sim, mas no caso não se trata da acepção «ter semelhança com; parecer-se»? (Acepção que nem todos os dicionários acolhem, decerto por distracção.) Então o nome de Hun Manet, filho do primeiro-ministro cambojano, não tem nome a soar a pintor francês — tem o mesmo nome. Se se chamasse Mainet, por exemplo, é que soaria a nome de pintor francês.

[Post 4478]

«Ser um moço de corda»

Antes surdo

      «Aos moços de fretes também se chamava moço de esquina ou ainda moço de corda, aludindo com isso que estaria ligado por uma corda, qual títere fantoche, ao patrão. E é precisamente desta última asserção, enquanto alguém ligado por uma corda invisível ao patrão, que a expressão “ser um moço de corda” tira o seu actual significado de pau-mandado» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 21.02.2011).
      O que fica transcrito é sensivelmente metade da crónica — e não é preciso ler duas vezes para perceber que podia estar quase tudo assinalado a vermelho. Desconcordâncias, má redacção, repetições, erro crassíssimo («asserção»!)... E também me sobra a suspeita de que a explicação para a expressão não é a referida. Não se deverá antes ao facto de antigamente os galegos estarem aí pelas esquinas da cidade com cordas ao ombro à espera de alguém os contratar para qualquer trabalho que requeresse força bruta?

[Post 4477]


Dicção/dição

E agora?

      Um pequeno mistério: porque incluíram os redactores do Acordo Ortográfico de 1990 o par dicção/dição entre os vocábulos em que se conservam ou se eliminam facultativamente o c, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento? Dição é uma variante lexical de dicção. Talvez até tenha entrado na língua antes desta. Terá vindo, não através do genitivo, mas do nominativo do étimo latino. Distracção? O que acha, Fernando Venâncio?

[Post 4476]


Selecção vocabular

Catarros estremenhos

      «Florinda Chico deu entrada na Clínica Virgen del Mar, em Madrid, na sexta-feira queixando-se de um catarro persistente. Tão forte que a actriz espanhola não resistiu» («Secundária como actriz, protagonista para o público», Diário de Notícias, 21.02.2011, p. 47).
      Também temos o vocábulo «catarro», e ambos significam o mesmo — muco proveniente da inflamação das mucosas; defluxo ou constipação acompanhada de tosse e expectoração. (Para não ir mais longe, eu próprio estou encatarrado há semanas.) Contudo, não escolheria, para traduzir, o termo «catarro», mas sim «constipação».
      «Nascida na localidade extremenha», lê-se no obituário, «de Don Benito, perto de Badajoz, a 24 de Abril de 1926, Florinda Chico estudou canto durante a juventude e era considerada uma das mais emblemáticas actrizes secundárias do cinema e da televisão, reconhecida pelo seu físico corpulento e ar desenrascado (e por causa do qual fez tantas vezes de criada).» O mesmíssimo Diário de Notícias, de vez em quando, grafa, e bem, Estremadura e estremenho, como já aqui vimos.

[Post 4475]

Uso da maiúscula

Historietas

      «O Convento das Clarissas de Évora, da ordem franciscana, foi fundado pelo bispo D. Vasco Perdigão em 1492 e na sua clausura esteve recolhida a princesa D. Joana, a Excelente Senhora, malograda noiva de D. Afonso V. Para a história ficou um rico património artístico, monumental e gastronómico, este último compilado num receituário conventual que as freiras conservaram durante séculos para seu uso privado» («Évora recupera receita de pastéis conventuais “perdida” há 100 anos», Luís Maneta, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 26).
      Agora é assim, a História é uma coisa menor. A pequena história. Esta gente nem precisa de novo acordo ortográfico.

[Post 4474]


Léxico: «púrria»

No Mississípi e aqui

      «Estava livre de ser apanhado e castigado, e então dirigiu-se à praça da vila onde duas púrrias se iam encontrar, para se bater, como tinham combinado» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 33).
      Quem é que, hoje em dia, conhece o termo «púrria»? Ninguém. É, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, um bando de garotos. O Dicionário Houaiss, porém, não se fica por aí: de rapazes mal-educados. Gente como Huckleberry Finn, imagino.

[Post 4473]

Arquivo do blogue