Sob/sobre

Eloquente

      Na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, J.-M. Nobre-Correia começa por afirmar que a presença da Igreja Católica deixou «marcas duráveis no analfabetismo dos indivíduos, primeiro, e no seu iletrismo, em seguida». Exemplos? Ah, isso agora... Mas continua: «Se há país onde o ascendente do clero sobre a sociedade é evidente é a Itália. E como se isso não bastasse, já lá vão trinta anos que a Itália vive sobre a alçada de uma televisão berlusconiana que foi adquirindo um estatuto hegemónico no plano sociocultural» («Esta trágica paixão criminal», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 67).
      Caro J.-M. Nobre-Correia, não se diz, neste contexto, «sobre a alçada», mas sob, debaixo da alçada. E «alçada» aqui vale por esfera de acção.

[Post 4458]


Estrangeirismos

Caladinho

      Natália Carvalho, da Antena 1, foi ouvir o eurodeputado Paulo Rangel, esse grande orador: «Ainda em Dezembro ouvimos falar de 40 ou 50 medidas para o crescimento, e a verdade é que ninguém tem o seguimento, o follow-up do que aconteceu.»
      Isto não é incomum (mas é extraordinário): o falante usa uma palavra portuguesa, mas logo de seguida recorre a um anglicismo (os galicismos são coisa do passado) para dizer o mesmo. Salvo melhor opinião, isto é completamente tonto. Se fosse ao contrário, ainda se entendia. O melhor (ou o pior, de outra perspectiva) foi que o eurodeputado pronunciou malissimamente a palavra inglesa. Não saiu, como devia, \ˈfä-lō-ˌəp\, mas com o u a soar ó. Horror! Poderão objectar-me: foi um lapso. Poderá ter sido, mas isso só prova que não deveria falar numa língua que não domina. Oiça.

[Post 4457]

Como se escreve nos jornais

Giro policialesco

      «Na sequência da intervenção policial, a maioria dos provocadores debandou e a PSP acabou por fazer apenas um detido. Trata-se de um jovem de 22 anos que foi detido por agressão e injúrias a agente da autoridade» («Corpo de Intervenção teve de acudir a rixa à porta da Gossip», Rute Coelho, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 20).
      Já tinha lido e ouvido por aí, sim senhor, mas não chego a tudo. Cara Rute Coelho, deixe os polícias falarem assim. Como jornalista, não pode fazer o mesmo. «Fazer uma detenção» está bem, não um detido.

[Post 4456]

«De debaixo», de novo

E disparou

      Cá está: «… So Earl pulled his sawed-off shotgun out from under the bed.» Para o tradutor, que não sei ainda quem é, Earl tirou a caçadeira de canos serrados de debaixo da cama. Este tradutor não é preguiçoso, não fez a haplologia sintáctica.

[Post 4455]

«Embalsamento/embalsamamento»

E gatos mortos

      Por falar de coma: alguém escreveu (bons dias, F.) que Anúbis era o deus do embalsamento e protector dos mortos entre os Egípcios (já tem um cliente à sua espera em Charm el-Cheikh...). Ainda me lembro de o meu avô materno usar a palavra. Não, não era egípcio — fazia vinho. Embalsamamento é o acto ou efeito de embalsamar, ao passo que embalsamento é o acto ou efeito de embalsar, isto é, meter o vinho ou o mosto em balsas ou dornas. Já quando o vinho estava naquelas talhas enormes, algumas com séculos, juntavam-se-lhe maçãs descascadas e partidas em quartos e outros frutos. (Constava que havia quem também lançasse para lá gatos mortos... não existia ainda a ASAE.) Embalsamamento e embalsamento: houve especialização de sentidos, como tantas vezes sucede, sem embargo de alguns dicionários os dizerem sinónimos. Parece que se deu ali haplologia, mas no cerne da primeira está o vocábulo «bálsamo» e no da segunda, «balsa».

[Post 4454]

Ortografia: «mão de ferro»

Em coma

      «Zine el-Abidine Ben Ali, o homem que governou a Tunísia com mão-de-ferro durante 23 anos, está em estado de coma há “dois dias”. Uma fonte próxima da família do ex-presidente revelou que este se encontra internado num hospital da cidade portuária de Jeddah, na Arábia Saudita» («Ditadores derrubados estão em coma», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 18.02.2011, p. 30).
      A fonte próxima da família é que terá informado que Ben Ali está em coma há dois dias. Muito bem, mas para quê as aspas nesse ínfimo segmento de informação? Se fosse uma frase completa, então sim, justificavam-se. E, cara Lumena Raposo, não se escreve «mão-de-ferro», mas mão de ferro, é uma locução.

[Post 4453]

«Flash-mob», de novo

Obrigadinho

      Hoje, Luís Naves já explica o anglicismo flash-mob: «As manifestações usaram a ironia, incluíram flash-mob (mobilizações instantâneas através de telemóvel) e, em Gent, até uma acção de nudez colectiva, apesar do frio intenso» («Batatas fritas pela unidade belga», Luís Naves, Diário de Notícias, 18.02.2011, p. 27). Muito bem, já que não quer abrir mão do anglicismo. Possível tradução: olhe, essa: mobilização instantânea.

[Post 4452]

Acordo Ortográfico

Debaixo do fígado

      Ora vejam: segundo a Base XVI, n.º 1, a), do AO90, o hífen usar-se-á nas formações em que o segundo elemento começa por h. Dois exemplos: anti-higiénico e sub-hepático. Muito bem... A quem devemos agradecer? Mostraram-me um daqueles esquemas bem-intencionados como era/como fica. A propósito dos prefixos terminados em b, lê-se: subepático (como era) e sub-hepático (como fica). Para mim, era certo e além de toda a dúvida que se escreve «sub-hepático». Consulto o Dicionário Houaiss: «subepático»! Aqui sim, ronda o fantasma do retorno da grafia sobre a fonia. Volto três vezes (como o mostrengo que está no fim do mar) ao dicionário: os meus olhos vão da página 3396 para a página 3397. Na primeira está «subepático», na segunda, nada: entre «subgrupo» e «sub-humanidade», o vazio interlinear. Quem praticou esta aleivosia? Consulto, desesperado, a versão electrónica daquele dicionário, que regista «sub-hepático» e, como variante, «subepático». Ah, bem.

[Post 4451]


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