Plural dos apelidos

A propósito de grotesco

      «Pelo menos é esta a opinião da jornalista, escritora e especialista em assuntos ligados à família real, Pilar Eyre, que no livro Segredos e Mentiras da Família Real Espanhola, editado agora em Portugal pela Esfera dos Livros, desvenda e analisa o percurso dos Borbón ao longo de três gerações, desde D. Alfonso XIII até D. Felipe e sua polémica mulher Letizia» (“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Hã? «Dos Borbón»? Mas isso nem é espanhol, língua em que se pluraliza Borbones, nem português, em que se pluraliza de desvairadas maneiras, mas Borbons não estará mal. E aqueles dons não são devidos.

[Post 4460]


Estrangeirismos

Com humanismo

      Jorge Fiel entrevistou o director-geral da Servilusa (abrenúncio!), António Balha e Melo. Ora vejam o atendimento: «Após a recepção da chamada no call center, é mobilizado um dos 36 técnicos comerciais, que fardado de fato cinzento, pin da Servilusa na lapela, camisa branca, gravata verde-alface, se desloca ao local do óbito num Ford Focus castanho. Mostra à família o catálogo que leva no portátil e aconselha nas opções. Assinado o contrato, é logo digitalizado e enviado por e-mail para o coordenador do serviço, que destaca uma assistente com formação em Humanísticas para tomar conta da operação até ao fim» («“Ninguém morre duas vezes”», Jorge Fiel, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 104).
      Aquilo da assistente com formação em Humanísticas é que me deixou, já não digo de pé atrás, porque nestes casos vão os dois ao mesmo tempo, mas intrigado. Como a seguir se lê que «dignidade, respeito e humanismo são o mantra do director-geral da Servilusa», temo que haja aqui confusão. Quanto a Jorge Fiel, que começou por ser revisor no Jornal de Notícias, não teve artes de evitar os estrangeirismos call center, pin e e-mail. No perfil que traçou de António Balha e Melo, porém, teve o bom senso de escrever que o entrevistado, «aos 49 anos, aceitou o desafio de um caçador de cabeças (Rafael Mora) para tentar salvar da morte a Servilusa». Vá lá, evitou o barbarismo headhunter.

[Post 4459]

Sob/sobre

Eloquente

      Na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, J.-M. Nobre-Correia começa por afirmar que a presença da Igreja Católica deixou «marcas duráveis no analfabetismo dos indivíduos, primeiro, e no seu iletrismo, em seguida». Exemplos? Ah, isso agora... Mas continua: «Se há país onde o ascendente do clero sobre a sociedade é evidente é a Itália. E como se isso não bastasse, já lá vão trinta anos que a Itália vive sobre a alçada de uma televisão berlusconiana que foi adquirindo um estatuto hegemónico no plano sociocultural» («Esta trágica paixão criminal», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 67).
      Caro J.-M. Nobre-Correia, não se diz, neste contexto, «sobre a alçada», mas sob, debaixo da alçada. E «alçada» aqui vale por esfera de acção.

[Post 4458]


Estrangeirismos

Caladinho

      Natália Carvalho, da Antena 1, foi ouvir o eurodeputado Paulo Rangel, esse grande orador: «Ainda em Dezembro ouvimos falar de 40 ou 50 medidas para o crescimento, e a verdade é que ninguém tem o seguimento, o follow-up do que aconteceu.»
      Isto não é incomum (mas é extraordinário): o falante usa uma palavra portuguesa, mas logo de seguida recorre a um anglicismo (os galicismos são coisa do passado) para dizer o mesmo. Salvo melhor opinião, isto é completamente tonto. Se fosse ao contrário, ainda se entendia. O melhor (ou o pior, de outra perspectiva) foi que o eurodeputado pronunciou malissimamente a palavra inglesa. Não saiu, como devia, \ˈfä-lō-ˌəp\, mas com o u a soar ó. Horror! Poderão objectar-me: foi um lapso. Poderá ter sido, mas isso só prova que não deveria falar numa língua que não domina. Oiça.

[Post 4457]

Como se escreve nos jornais

Giro policialesco

      «Na sequência da intervenção policial, a maioria dos provocadores debandou e a PSP acabou por fazer apenas um detido. Trata-se de um jovem de 22 anos que foi detido por agressão e injúrias a agente da autoridade» («Corpo de Intervenção teve de acudir a rixa à porta da Gossip», Rute Coelho, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 20).
      Já tinha lido e ouvido por aí, sim senhor, mas não chego a tudo. Cara Rute Coelho, deixe os polícias falarem assim. Como jornalista, não pode fazer o mesmo. «Fazer uma detenção» está bem, não um detido.

[Post 4456]

«De debaixo», de novo

E disparou

      Cá está: «… So Earl pulled his sawed-off shotgun out from under the bed.» Para o tradutor, que não sei ainda quem é, Earl tirou a caçadeira de canos serrados de debaixo da cama. Este tradutor não é preguiçoso, não fez a haplologia sintáctica.

[Post 4455]

«Embalsamento/embalsamamento»

E gatos mortos

      Por falar de coma: alguém escreveu (bons dias, F.) que Anúbis era o deus do embalsamento e protector dos mortos entre os Egípcios (já tem um cliente à sua espera em Charm el-Cheikh...). Ainda me lembro de o meu avô materno usar a palavra. Não, não era egípcio — fazia vinho. Embalsamamento é o acto ou efeito de embalsamar, ao passo que embalsamento é o acto ou efeito de embalsar, isto é, meter o vinho ou o mosto em balsas ou dornas. Já quando o vinho estava naquelas talhas enormes, algumas com séculos, juntavam-se-lhe maçãs descascadas e partidas em quartos e outros frutos. (Constava que havia quem também lançasse para lá gatos mortos... não existia ainda a ASAE.) Embalsamamento e embalsamento: houve especialização de sentidos, como tantas vezes sucede, sem embargo de alguns dicionários os dizerem sinónimos. Parece que se deu ali haplologia, mas no cerne da primeira está o vocábulo «bálsamo» e no da segunda, «balsa».

[Post 4454]

Ortografia: «mão de ferro»

Em coma

      «Zine el-Abidine Ben Ali, o homem que governou a Tunísia com mão-de-ferro durante 23 anos, está em estado de coma há “dois dias”. Uma fonte próxima da família do ex-presidente revelou que este se encontra internado num hospital da cidade portuária de Jeddah, na Arábia Saudita» («Ditadores derrubados estão em coma», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 18.02.2011, p. 30).
      A fonte próxima da família é que terá informado que Ben Ali está em coma há dois dias. Muito bem, mas para quê as aspas nesse ínfimo segmento de informação? Se fosse uma frase completa, então sim, justificavam-se. E, cara Lumena Raposo, não se escreve «mão-de-ferro», mas mão de ferro, é uma locução.

[Post 4453]

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