Léxico: «banzeiro»

Ainda na Madeira

      «“Entrar neste mar é um suicídio. É traiçoeiro. Não há qualquer hipótese de encontrar com vida as duas raparigas que foram arrastadas na segunda-feira, este é um mar ‘banzeiro’, parece que ao longe está calmo mas, de repente, rebentam as ondas enormes junto à costa”, diz ao DN, [sic] Paulo Fernando, que viu o desastre dos socorristas e ajudou a trazer para terra o que acabou por falecer» («Morre no mesmo mar onde procurava jovens», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 15).
      Cara Lília Bernardes, qual a utilidade das aspas em «banzeiro»? Banzeiro, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «(mar) pouco agitado». Para o Dicionário Houaiss, «forte, agitado vagarosamente (diz-se de mar), com tempo bom e ondas que não encapelam».

[Post 4440]

Acordo Ortográfico

Magna questão

      No laboratório. Apareceram umas almas aflitas, porque não sabem se Timor-Leste continuará, no âmbito das novas regras ortográficas, a escrever-se com hífen. A regra manda hifenizar os topónimos compostos iniciados pelos adjectivos «grã», «grão» ou por forma verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo. Exemplos: Grã-Bretanha, Grão-Pará; Abre-Campo; Passa-Quatro, Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros, Trinca-Fortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos, Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes. Os outros topónimos compostos, lê-se numa observação, escrevem-se com os elementos separados, sem hífen. «O topónimo/topônimo Guiné-Bissau é, contudo, uma exceção consagrada pelo uso», acrescenta-se. Foi a isto que as sobreditas almas aflitas se agarraram.
      Ora bem, tanto quanto me lembro, a única referência a Timor-Leste, em relação a esta matéria, encontra-se no Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (e na própria resolução que o aprovou), e a grafia do topónimo surge com hífen. Contudo, isso é manifestamente insuficiente para tirarmos uma conclusão cabal, como seria fácil de demonstrar. Decisivo, a meu ver, é estar no Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), não como entrada lexical mas fazendo parte da definição de «timorense». Não precisamos de mais. Ou não precisa de mais quem é professor, porque este VOP foi adoptado para o sistema de ensino pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011.
      Voltando à observação do n.º 2 da Base XV: com a redacção que tem, não me parece que exclua outras excepções (que as há).

[Post 4439]

Como se fala na rádio

Com olhos de ver

      aqui tínhamos visto que devemos usar a locução à vista desarmada em vez de a olho nu. Agora, temos algo de novo.
      Naufrágio de uma embarcação do Sanas — Associação Madeirense de Socorro no Mar. Um morto e um ferido. A repórter da Antena 1 Helma Vieira explicou tudo: «O segundo, felizmente, e pelo que foi visto, não posso confirmar a gravidade dos ferimentos, mas mexia, o corpo não apresentava grandes mazelas, pelo menos a olho visto, e neste momento encontra-se hospitalizado.» A repórter fez confusão com outra locução semelhante: a olhos vistos, isto é, de forma clara, evidente, manifesta. No contexto, talvez devesse ter dito «à primeira vista».

[Post 4438]

Como se escreve nos jornais

Imagem tirada daqui
Não têm pena

      Patrícia Viegas, do Diário de Notícias, entrevistou Paola D’Agostino, tradutora, escritora e professora de Italiano que vive em Portugal desde o ano 2000, isto porque a «escritora integrou a manif anti-Berlusconi». A determinada pergunta, Paola respondeu: «Falo das raparigas envolvidas nos escândalos e a quem são feitas por vezes promessas que ninguém chega a cumprir. Elas oferecem o seu corpo e algumas são ministras e deputadas no Parlamento. Mara Carfagna, que também já foi velina, é agora ministra da Igualdade de Oportunidades — que é um ministério que merecia mais dignidade» («“Italianos perceberam que havia um proxenetismo de Estado”», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 56).
      Cara Patrícia Viegas, por acaso não se esqueceu de perguntar o que significa «velina»? Assim, sem qualquer explicação (e olhando para a fotografia da senhora ministra), começamos a formar no espírito uma certa ideia. Contudo, no Il Sabatini Coletti, lemos que «velina» é a «valletta di trasmissione televisiva che parodia i telegiornali». As vallettas italianas não são, como as nossas, coisas sujas, antes raparigas atraentes que servem de ajudantes do apresentador de um programa televisivo. (Quanto a «bunga-bunga», dispensamos esclarecimentos. É o nosso, não dicionarizado, «truca-truca».)
      Temi o pior, até porque já tinha ficado espantado com um cartaz na tal manif em que se podia ler «Berluscona». É que os manifestantes, todos com cara de italianos, já passaram por um processo de aculturação...

[Post 4437]

Acordo Ortográfico

Tempos negros

      Do fundo da redacção, um editor-chefe perguntou se, com o novo acordo ortográfico, se passava a escrever «connosco» só com um n. Esta gente nunca irá ler o texto. Lembrei-me deste episódio agora quando vi que alguém pesquisou «conosco ou connosco português correcto 2011» e veio ter a este blogue. O texto do Acordo Ortográfico de 1990 nem sequer fala especificamente de pronomes pessoais. Em Portugal, escreve-se e continuará a escrever-se «connosco», com dois nn. No Brasil, escrevia-se e continua a escrever-se «conosco» com um n.
      Lembram-se do meu «laboratório»? Pois agora uma professora, e uma das mais espevitadas, afirma (e não só falou, senão que escreveu, o que é pior) que terá de aceitar as grafias dos alunos que estejam em consonância com a norma, e exemplifica: «fenômeno, fato». Ah, se isto fosse só um filme e pudesse mudar-se de canal...


[Post 4436]

«Palavra de ordem»

Podem ser murmuradas

      Maria de São José, num dos noticiários da Antena 1 esta tarde, falou em «gritos de ordem», disparate que ando a ouvir há muito. Lá por serem gritadas não deixam de ser palavras de ordem, ou seja, palavras, locuções ou pequenas frases, não raro rimadas, para serem repetidas, gritadas, cantadas ou reproduzidas por escrito, e que expressam uma reivindicação, um incitamento à luta, um apelo à mobilização, etc. (conforme definição do Dicionário Houaiss).

[Post 4435]

Regência de «procurar»

Procure-se

      «A arqueóloga marinha Kelly Gleason liderou a expedição que durante dois anos procurou por vestígios de baleeiros numa zona marítima protegida» («Descoberto baleeiro do capitão de ‘Moby Dick’», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 14.02.2011, p. 32).
      No Ciberdúvidas, Edite Prada escreve a propósito do verbo procurar assim preposicionado: «O verbo procurar é um verbo transitivo, construindo-se predominantemente sem qualquer preposição. Pode, no entanto, ocorrer com a preposição por, quando o obje(c)to procurado, muitas vezes uma pessoa, tem um valor afe(c)tivo para o sujeito: “Procurei por ti o dia inteiro”; “Procurou por ela o dia inteiro”.» Não é só isto. Francisco Fernandes explica-o melhor: «Procurar por — perguntar por, pedir notícias de, indagar do estado de saúde de: “Não se particularize por nenhuma: fale, e procure por todas.” (F. M. de Melo, C. de guia, 139). “Procurei por ele.” (Constâncio)» (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36.ª ed., 1989, p. 478).
      Em suma: a jornalista errou e a consultora quase acertou.

[Post 4434]

Sobre «telespectador»

Agora é tarde

      Excelente, o documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo, que ontem passou na RTP2 (e que podem ver aqui). A certo momento, vê-se o geógrafo a ser entrevistado para a RTP a propósito da erupção do vulcão dos Capelinhos, em 1957. «Infelizmente não é possível oferecer — como é que se chamam as pessoas que escutam isto?... os telespectadores, são os telespectadores — os ruídos do vulcão, de modo que para os substituir, muito tristemente, aliás, vamos dizer alguma coisa sobre a erupção.» O repórter informou-o de que as pessoas que escutavam (e viam) aquilo se chamavam «telespectadores». Orlando Ribeiro profere duas vezes a palavra, como que a saboreá-la, a experimentá-la, articulou o c. Era então palavra nova — e desnecessária, como por essa altura Vasco Botelho de Amaral demonstrou.

[Post 4433]

Arquivo do blogue