«Gama social»?

Lapsos do fado

      No programa Vozes da Lusofonia, de Edgar Canelas, na Antena 1, Carlos do Carmo disse que uma banda tinha tocado num «pelourinho». Edgar Canelas não o corrigiu. Queria dizer, mas a palavra deve estar-lhe empoeirada num escaninho da memória e talvez longe da experiência, «coreto». Mais misterioso foi ter falado, a propósito da nova geração de fadistas, de «gama social». Já tenho ouvido, sim senhor, mas não me convence. O sentido figurado do vocábulo «gama» talvez não seja, afinal, tão elástico.

[Post 4432]

Gentílicos

Há lá camelos

      Espanha, de novo. A Fundéu veio relembrar, recentemente, que em espanhol o nome da capital dos Emirados Árabes Unidos se escreve Abu Dabi, sem h. E quanto ao gentílico? Abudabí (e, no plural, abudabíes). O gentílico dos EAU é emiratí (e, no plural, emiratíes). Entre nós, ninguém diz nem manda dizer nada. Agora, que o primeiro-ministro foi aos Emirados Árabes Unidos vender dívida pública, ainda interessam mais estas coisas. Talvez possamos dispensar o gentílico dos habitantes ou naturais da capital, mas quanto ao gentílico dos habitantes ou naturais dos EAU, não podemos deixar de usar afoitamente (que remédio, não vejo outro) emiradense.

[Post 4431]

Interjeições

Ih, ih, ih

      «Rui Pedro Soares, militante do PS, ex-administrador da PT e arguido (sob suspeita de corrupção passiva) no caso Taguspark/Figo, ilibou ontem José Sócrates das suspeitas de que saberia do negócio PT/TVI antes de ele ter sido tornado público, em 23 de Junho de 2009, numa notícia do jornal i» («Ontem ficou em silêncio», J. P. H., Diário de Notícias, 23.04.2010, p. 3).
      A notícia tem quase um ano, mas é irrelevante para o que pretendo dizer. Já repararam no facto de nunca (ou, vá lá, quase nunca) se fazer desacompanhar o nome «i» da palavra «jornal»? É uma coisinha tão minúscula, e para ali inclinada, e ainda por cima desprovida de semântica, que toda a gente acha que é inadequado escrever meramente «numa notícia do i».
      Eu próprio me sinto na obrigação de escrever mais qualquer coisa. Ah, já sei. A propósito da interjeição «ih», eis que me vem à memória outra (ou «uma outra», como debitariam penas mais redundantes) que encontrei n’As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain (tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 206). «— Não queria, nem o quero fazer, Huck; ¿mas que diriam os outros? Sim, ¿que diriam os outros? “Pfe, o bando do Tom Sawyer! É só gente de baixa categoria!” E quando dissessem isto, referiam-se a ti, Huck. Tu não havias de gostar, e eu também não.» Ora, eu nunca tinha visto esta interjeição escrita, e não a vejo nos dicionários. E com certeza que a profiro. E não julguem que é o mesmo que puf, pois esta é interjeição de enfado ou cansaço. Digam o que pensam, não se acanhem.

[Post 4430]

Ortografias

Não se pode escolher

       «No fim do segundo dia, todos falaram no depoïmento do índio Joe; era evidente e claro, e não havia a menor dúvida àcêrca do que seria a decisão do júri» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain (tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 206). Ainda no dia 8 foquei aqui esta questão da grafia antiga da locução prepositiva «acerca de». Esta tradução foi publicada nas vésperas da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945, ainda na vigência da ortografia saída dos trabalhos de Gonçalves Viana, e considerada a mais coerente e profunda reforma ortográfica, aproximando a ortografia daquela que temos hoje, e que representou, pelo menos em parte, um regresso à ortografia fonética da Idade Média. De fora ficou o Brasil, entrincheirado na vetusta ortografia pseudo-etimológica que alguns em Portugal ainda hoje queriam.
       Mais alguns excertos da mesma obra, em que abundam os acentos diferenciais: «— Tomás Sawyer, ¿onde estava no dia 7 de Junho, cêrca da meia-noite?» (idem, ibidem, p. 209). E eis os pontos de interrogação invertidos, de que já aqui falei: «— ¿Então porque não dás? ¿Porque dizes que dás e não dás? Tens mêdo!» (idem, ibidem, p. 20). O emprego da forma verbal «quere» (que só com o Acordo Ortográfico de 1945 acabou, pois este veio estatuir: «Emprego exclusivo das formas quer e requer na escrita corrente, em vez das formas quere e requere, que, entretanto, serão legítimas, quando se ligarem ao pronome complemento o ou a qualquer das suas flexões: quere-o, quere-a, requere-os, requere-as.») «— Esse é o nome de quando eles me batem; mas, quando me porto bem, sou Tom. Chame-me Tom, quere?» (idem, ibidem, p. 73). E a supressão do h de «húmido» e termos da mesma família: «— Fomos à bomba e molhámos a cabeça. Vê? A minha ainda está úmida» (idem, ibidem, p. 16). «Os olhos umedeceram-se um pouco, pôs as mãos na cabeça de Tom e disse-lhe com simpatia» (idem, ibidem, p. 119).

[Post 4429]

Regência verbal: «apelar»

Mas muito comum

      Luís Soares, no noticiário das 6 da tarde na Antena 1: «Há instantes, chegou-nos também a reacção do chefe da Liga Árabe, que apela a um consenso nacional.» 
      A regência do verbo apelar é feita com duas preposições, e nenhuma delas a: apelar de e apelar para. No Dicionário de Verbos e Regimes de Francisco Fernandes, lê-se esta nota ao verbo «apelar»: «Apelar a alguém ou a alguma coisa é regência condenada pelos mestres» (p. 83). As abonações com frases de Camões, Vieira, Herculano, Camilo, entre outros, são claras.
      Pensava que a Liga Árabe tinha um secretário-geral (o egípcio Amr Moussa) e não um chefe. (Bem, é verdade que o jornalista resistiu e não usou o vocábulo «líder».)

[Post 4428]

«Tirar debaixo»?

Pergunto

      «O rapaz tirou o pé debaixo do lençol e examinou os dedos. Mas não conhecia os sintomas necessários para se justificar» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 62).
      «Tirou o pé debaixo do lençol» ou «de debaixo»? João Ferreira de Almeida, o tradutor da Bíblia: «Todavia os Edomitas se revoltaram de debaixo do mando de Judá, até o dia de hoje; então no mesmo tempo Libna se revoltou de debaixo de seu mando: porque deixara a Jeová, Deus de seus pais» (2 Cr 21,10). Usamos, para expressar esta ideia, a preposição, repetindo-a (de+baixo)?

[Post 4427]

Como se escreve nos jornais

E a cabeça?

      «“Os assaltantes foram interrompidos pelos membros do público e fugiram da área sem levar nada. Um deles foi detido pelos transeuntes. Outros três foram detidos pela polícia pouco depois”, explicou o porta-voz da polícia de Northamptonshire» («Idosa que travou assalto recusa papel de heroína», Susana Salvador, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 24).
      «Membros do público»! Francamente. Era melhor nem ter traduzido: «A spokesman for Northampton Police said: 'The offenders were disturbed by members of the public and fled the area without taking anything.'»

[Post 4426]



Fato branco da PJ

Também pode ser

      «Com forte sotaque russo, vestida com um fato branco usado pela PJ em cenários de crime, a mulher que ficou sem roupa e sem documentos no incêndio dá uma passa no cigarro e continua a explicação» («“Estava meio a dormir a ver um filme e a vela deve ter caído”», Luís Fontes, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 20).
      Já aqui vimos: são os fatos de tyvek ou fatos de protecção descartáveis.

[Post 4425]

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