Sobre «etapa»

No estaleiro


      «O Podre levantou-se do banco do jardim no momento em que a avó e a Sissi se aproximavam, seguidas pelo pai, a mãe, a Eva e o Luís. Tinham ido todos dar uma volta para se prepararem para a etapa seguinte da viagem» (A Caminho de Santiago, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2010, 2.ª ed., p. 28).
      Fala Agostinho de Campos: «Uma das palavras mencionadas na conferência radiofónica de há dias é o inutilíssimo galicismo étape. Este vocábulo aparece-nos por aí, umas vezes escrito ou pronunciado à francesa (étape), outras vezes já semiaportuguesado sob as formas étapa e itapa. Qualquer delas é um mostrengo que lembra fora de todo o propósito o nosso verbo tapar.
      Esse termo francês é de origem germânica. Vem da palavra stapel, que no holandês ou no baixo-alemão significava armazém ou depósito e ainda hoje subsiste no alemão corrente e literário com o sentido de estaleiro. Veja-se por isto a quantidade de caminhadas (eles diriam: de itapas) que a palavra andou para chegar à estação actual (isto é, segundo eles, à itapa actual)» («O nacionalismo ainda não nos chegou à Língua», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 55-56).

[Post 4392]

Siglas: «SMS»

Uma mensagem


      «Os primeiros confrontos começaram horas antes, pouco depois do meio-dia, quando centenas de apoiantes de Mubarak, mobilizados por sms, começaram a invadir as periferias da praça. Muitos empunhavam fotografias do Presidente, alguns agitavam a bandeira egípcia, mas todos tinham um só objectivo: tentar chegar à praça pelo acesso junto ao Museu Egípcio, onde o exército mantém vários tanques de guerra com uma guarnição mínima de militares» («Ódio entre rivais semeia o caos», Alfredo Leite, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 4).
      Os jornais estão a deixar de grafar as siglas em maiúsculas, como é de regra: SMS.
      É este um tempo de siglas, de acrónimos, de estrangeirismos — mas, pelo menos, que se escrevam correctamente. Lembremos o que escreveu Agostinho de Campos: «Anglo-saxões passam por muito práticos, Franceses por muito espertos; e certos portuguesinhos valentes têm um fraco fortíssimo por esta supergente diante dela e desatam a copiar com veneração e humildade quanto ela faz e diz, principalmente o que diz, que é o mais fácil de imitar, como bem se vê pela observação da fala de criancinhas e papagaios» («Doenças da língua: a simplificação complicada», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 293-94).

[Post 4391]

Tradução: «virtually»

Não há dúvida


      «Segundo o responsável pela gestão de catástrofes do estado, “as pessoas vão estar virtualmente isoladas durante algum tempo”. Ian Stewart disse que as equipas de emergência podem não ter hipótese de responder a chamadas durante o pico do ciclone» («Depois das cheias, ciclone atinge estado australiano de Queensland», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 26).
      Ian Stewart disse: «People are going to be virtually isolated for some time.» Mal traduzido, fica «virtualmente».

[Post 4390]

«Dispensa/despensa»

Tão simples


      «Recolhidas em suas casas com as janelas e portas entaipadas, sacos de areia à porta e as dispensas repletas de alimentos e água potável, as populações costeiras do Nordeste australiano enfrentaram ontem a chegada do ciclone Yasi» («Depois das cheias, ciclone atinge estado australiano de Queensland», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 26).
      Como é que uma jornalista não está atenta e deixa passar um parónimo? Repletas de alimentos e água potável, só as despensasdivisão da casa, armário ou construção separada em que ficam os mantimentos, as provisões alimentares de uso doméstico e objectos ligados à manutenção dos moradores da casa (como se lê no Dicionário Houaiss). Dispensa é a licença, permissão para não executar um dever, um trabalho.

[Post 4389]

Como se escreve nos jornais

Como as garagens


      «Durante a manhã, o jovem realiza vários testes do foro clínico, sendo normalmente o almoço servido pelas 11.45, seguindo-se um período de recolha obrigatório, altura em que regressa à sua cela individual» («Renato Seabra é vigiado 24 horas por dia no hospital», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 50).
      «Período de recolha obrigatório», julga o repórter, Ricardo Durães, que se diz. Mas não.

[Post 4388]

O prefixo «re-» no AOLP90, de novo

Diz a Priberam

      Acabo de receber de Helena Figueira, do  Departamento de Linguística da Priberam, a segunte comunicação, relacionada com um texto que aqui publiquei.
     
      «No seu blogue, que a Priberam preza e acompanha com regularidade, numa publicação de 29-01-2011 com o título de “O prefixo «re-» no AOLP” [post 4372], afirma que o FLiP 7, da Priberam, “interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»).” Mais refere que “a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.»”.
      Relativamente a este assunto, a Priberam gostaria de manifestar respeito pela sua opinião e partilhar consigo os fundamentos das nossas opções sobre o assunto da sua publicação.
      Segundo o disposto na Base XVI, 1.º, alínea b) do Acordo Ortográfico de 1990, utiliza-se o hífen “nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento”. É esta regra que justifica, por exemplo, a nova grafia de sobre-endividamento, cujo prefixo surge no exemplário apresentado no ponto 1.º da referida base. O texto do Acordo Ortográfico é inequívoco relativamente ao uso de hífen com um prefixo que termina na mesma vogal com que se inicia o elemento seguinte, pelo que esta regra deveria ser também aplicada ao prefixo re-. Para este ponto, o texto legal estabelece uma única excepção, na nota à alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, referindo-se apenas ao prefixo co-, que deverá ser usado sempre sem hífen. Com o Acordo de 1990, as regras para o uso do hífen nos casos de prefixação passam a ser gerais e contextuais, ao contrário do Acordo de 1945, que aplicava regras específicas a um prefixo ou a um grupo fechado de prefixos.
      Foi este o entendimento inicial da Priberam, uma vez que outra interpretação contraria claramente a letra e o espírito do Acordo Ortográfico, estabelecendo uma excepção não prevista. A Priberam entendeu que seria ilógico tomar a excepção prevista para co- como modelo para re-, uma vez que as excepções devem estar explícitas no texto e não ser obtidas por dedução. Também a "Nota Explicativa" (ponto 6.3) reitera o que é referido na base XVI, 1.º, alínea b): "uniformiza-se o não emprego do hífen, do modo seguinte: (...) Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente daquela, as duas formas aglutinam-se, sem hífen". Como este não é o caso nas sequências re-e..., o hífen deveria ser usado neste contexto.
      Apesar disto, no Brasil, a Academia Brasileira de Letras (ABL), no seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (São Paulo: Global, 2009) [VOLP], entendeu que deveria instituir uma excepção para o prefixo re-. A única justificação apresentada pela Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL na "Nota explicativa" (pp. LI a LIII) do referido Vocabulário é que uma das medidas tomadas foi "incluir, por coerência e em atenção à tradição lexicográfica, os prefixos re-, pre- e pro- à excepcionalidade do prefixo co-". Se para os prefixos pre- e pro- parece haver uma justificação, não pela alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, mas pela alínea f), o mesmo não acontece com o prefixo re-. Por outro lado, é invocada a tradição lexicográfica quando se trata de um tópico sobre o qual o Acordo Ortográfico se pronuncia, alterando justamente a tradição lexicográfica e as indicações prescritas pelo Acordo Ortográfico anterior.
      Em Portugal, o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), cujo Vocabulário Ortográfico do Português (VOP) foi recentemente adoptado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, publicada em 25 de Janeiro de 2011 no Diário da República n.º 17, I Série, pág. 488, seguiu a mesma interpretação da ABL. A Priberam manteve a sua interpretação inicial de grafar re-e... até à data em que o VOP passou a ser indicado nesta resolução como uma obra lexicográfica de referência em Portugal, nomeadamente no ensino, a partir do ano lectivo de 2011/2012. Os recursos linguísticos da Priberam têm vindo a ser alterados desde 25 de Janeiro de 2011 para seguir a excepção instituída pelo VOLP da ABL e seguida pelo VOP do ILTEC.
      Sublinhe-se que esta é uma opção que decorre da publicação do VOLP e do VOP e não da aplicação da letra e do espírito do Acordo Ortográfico, cujo texto altera inúmeros outros casos de grafias tradicionalmente estáveis. Como exemplo de grafias em que o AO vai contra a tradição lexicográfica, pode referir-se novamente o prefixo sobre-, que já em obras do século XVIII (como o Vocabulario Portuguez & Latino, de Raphael Bluteau [1728] ou o Diccionario da lingua portugueza, de Antonio de Moraes Silva [1789]) ou do início do século XX (como o Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo [1913]) era sempre grafado sem hífen quando o elemento seguinte se iniciava com a letra e. Em determinados pontos em que o AO é omisso ou não explicita regras gerais (como, por exemplo, no caso de alforge/alforje ou de connosco/conosco), a tradição do registo lexicográfico de certas palavras poderá ser um argumento invocável, uma vez que não há outra maneira de se saber ou inferir qual a ortografia a adoptar. Se a tradição lexicográfica pudesse ser invocada constantemente como argumento para a manutenção de determinadas grafias, os acordos ortográficos deixariam de fazer sentido, uma vez que o objectivo destes é precisamente a alteração ou simplificação de determinadas grafias e regras ortográficas (por vezes divergentes), preconizadas durante décadas por obras lexicográficas.
      O texto do Acordo de 1990 não prevê soluções para muitos dos problemas que cria e é lacunar, ambíguo ou incoerente em alguns aspectos, pelo que foi necessário definir linhas gerais explícitas e fornecer ao utilizador a explicação de algumas opções tomadas pela Priberam, que estiveram sempre disponíveis ao público (cf. Critérios), desde o primeiro produto com opção de correcção e consulta segundo a nova grafia.
      A reflexão acima, ainda que longa, pretende apenas apresentar uma posição que entendemos defensável (não podendo ser qualificada de erro), pois as várias versões do FLiP que incluem a ortografia segundo o Acordo Ortográfico de 1990 foram desenvolvidas ao longo de vários anos, com um trabalho contínuo baseado no texto legal, dada a ausência de instrumentos lexicográficos reguladores autorizados, nomeadamente o "vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa", previsto no art.º 2.º do texto do Acordo, que permitam substituir as obras tidas como referência maior na lexicografia portuguesa, de que são exemplo o Tratado de Ortografia e o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves.»


[Post 4387]

Ortografia: «esfuziante»

Fuzilados


      Há erros que parecem resistir a tudo. Mas não: talvez só resistam a uma má revisão. Por exemplo, aquele A Caminho de Santiago, de Ana Saldanha. É a 2.ª edição, revista e alterada, e passou mesmo do Campo das Letras para a Editorial Caminho, mas os erros continuam. Vai um: «— Santiago, aqui vamos nós! — grita, esfusiante, e a mãe olha para ele de lado e pergunta» (p. 23). Afinal, não são só os «jovens» que escrevem com erros... Mnemónica: é com z porque vem de «fuzil».

[Post 4386]

Onomatopeias

Escutem


      Perguntaram-me, ontem, como se escreve a onomatopeia do som das ambulâncias e dos carros da polícia. Primeiro, deve dizer-se que as principais onomatopeias deviam estar registadas nos dicionários. Depois, bem, depois vê-se com duas grafias precisamente por não estar dicionarizada. No caderno de exercícios de um manual da Língua Portuguesa, Na Ponta da Língua, da Porto Editora, leio «tinóni», mas não vejo necessidade do acento agudo. «O Helder, que partilhava o quarto com o Luís, estava numa sala ao lado do átrio, a ver sites sobre a cidade e a região, e veio ter comigo quando ouviu os carros da polícia, que não paravam com o seu tinoni, tinoni, tinoni... Não era bem assim, mas estou a traduzir o som das ambulâncias galegas para português» (A Caminho de Santiago, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2010, 2.ª ed., pp. 71-72). Em espanhol, mas há-de ser apenas na meseta ibérica, diz-se nino-nino-nino. Talvez Fernando Venâncio saiba como dizem as criancinhas galegas.

[Post 4385]

Arquivo do blogue