Anglicismo

A língua também foi vítima


      Um dos Capitães de Abril, Vítor Alves, morreu hoje †. Demos a palavra a Jorge Correia, da Antena 1: «Vítor Alves foi um dos coordenadores dos textos políticos escritos antes do 25 de Abril e que deram suporte à Revolução de 1974.»

[Post 4299]

Aonde/onde/donde

Por onde vais?


      A distinção onde/aonde/donde (deixo adonde de fora) pertence apenas à norma culta da língua e tem poucos anos. E, com tantos amadores, nem todos os revisores, como já aqui vimos mais de uma vez, a fazem respeitar, como seria aconselhável. Aonde quase desapareceu. Quanto a donde, os ignorantes, julgando-o incorrecto, desfazem-lhe sempre a contracção e ficam a preposição e o advérbio em evidência (no Brasil, porém, prefere-se a locução). Até tenho dúvidas de que os professores de Português usem e ensinem afoitamente as três formas do advérbio. Nos clássicos, também não se observava a referida distinção, donde a língua evoluiu. D. Francisco Manuel de Melo, na Carta de Guia de Casados: «Não se vê o bom alfaiate donde há muito pano, nem o bom cocheiro nas ruas largas.» Nesta obra, por exemplo, há 39 ocorrências de «donde», 4 de «onde» e nenhuma de «aonde».

[Post 4298]

Como se escreve nos jornais

Graves deficiências


      «O presidente da República Cavaco Silva vetou, ontem, o diploma que desjudicializa a mudança de sexo e do nome próprio no Registo Civil, alegando “graves insuficiências de natureza técnico-jurídica” naquele texto, aprovado na Assembleia da República com os votos favoráveis da Esquerda e de 12 deputados do PSD» («Cavaco veta mudança de sexo e de nome no Registo», Nuno Miguel Ropio, Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 10).
      Talvez nenhum dicionário registe o neologismo desjudicializar. Os mais comuns, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o mais próximo que registam é desjuizar ⇒ desajuizar, tirar o juízo a; endoidar; entontecer. É o que aquela forma de escrever faz aos leitores, tira-lhes o juízo, endoida-os, entontece-os. Talvez o sentido geral não lhes escape, mas os pormenores perdem-se pelos interstícios da gramática rarefeita e do léxico contrafeito.

[Post 4297]

«Estudante/aluno»

Agora sim


      Todos temos mais ou menos a noção de que os vocábulos «aluno» e «estudante» não são intermutáveis em todas as circunstâncias. No entanto, ultimamente tenho visto grandes confusões. Exemplifiquemos com uma frase. Digam-me qual dos vocábulos usariam na seguinte frase: «Segundo o seu único ___________ sobrevivente, Luís Seixas, o Professor Brotas era um leitor compulsivo de obras sobre música.»
      Um pouco a propósito: parece que no Brasil se ensina em algumas escolas que «aluno» provém do latim a + lun, este adulteração de lumen,inis, «luz». Ou seja, «sem luz». Que disparate vergonhoso! Alumnis, em latim, significa criança de peito, e ter-se-á formado a partir do verbo alere, «alimentar». Mais tarde, sem surpresa nenhuma, passou a significar, em sentido figurado, pupilo.

[Post 4296]

Léxico: «legiferante»

«Eles», os legíferos


      A propósito de «material circulante». Lia-se na edição de ontem do Jornal de Notícias: «Só há três maneiras de resolver o problema dos cortes salariais: ou na rua, com a revolução, ou nos tribunais, ou nos órgãos de soberania legiferantes» («Salários e juízes», Nuno Rogeiro, Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 11).
      Não queria que os meus leitores perdessem esta oportunidade. Habitualmente, é a locução «órgãos legislativos» que se usa. Está, contudo, certíssimo (mas nem todos os dicionários o acolhem). Legiferante, legiferação, legiferar...

[Post 4295]

«Interruptor homem-morto»

Imagem tirada daqui

Ora aí está


      Caro M. R., o sistema a que se refere chama-se interruptor homem-morto (dead-man’s switch, em inglês). Não interessa se em documentos da REFER se lê «sistema “Homem — Morto”». Afinal, quando há alguma avaria na linha ou no «material circulante», não me chamam a mim. Porque teríamos de contar com aquela empresa para nos dizer como se escreve? Cada macaco no seu galho.

[Post 4294]

Edição

E mais


      «Há uns anos, em Nova Iorque, pedindo informações num departamento de História sobre os primeiros negros da cidade (foram onze e angolanos, em 1626), eu disse a palavra “slave” (escravo). Ralharam-me: que eu dissesse “enslaved people” (pessoas escravizadas) pois a outra palavra pressupunha que era uma condição aceite pelas vítimas... Não insisti sobre a falta de lógica da explicação, há muito que não invisto contra as pancadas dos politicamente correctos. Agora, leio que Mark Twain vai ser censurado: as 219 vezes que escreve a palavra “nigger” (preto) nas Aventuras de Huckleberry Finn (primeira edição, 1884) vão ser expurgadas» («Pedaços de asno voltam a atacar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.01.2011, p. 64).
      Ferreira Fernandes não ia deixar passar a oportunidade de escrever sobre esta estupidez (mas anda a abusar do gerúndio).

[Post 4293]

Edição

São doidos


      «A reedição dos clássicos As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain (1835-1910), está a gerar polémica nos Estados Unidos. Isto porque a editora norte-americana NewSouth decidiu substituir a palavra “nigger” (preto) por “slave” (escravo) e ‘injun’ (forma coloquial utilizada no Missouri da primeira metade do século XIX para índio, altura em que se passam as duas histórias) por ‘indian’ nas edições que vai lançar no próximo mês» («‘As aventuras’ de Mark Twain reeditadas sem a palavra ‘preto’», Marina Marques, Diário de Notícias, 7.01.2011, p. 53).
      «Re-editadas», ler-se-á no Jornal de Letras... Ainda segundo o Diário de Notícias, «a forte carga negativa dos dois epítetos raciais é a justificação apresentada por Alan Gribben, especialista da obra de Mark Twain e editor destas novas versões, para a alteração apresentada». Isto é sequer admissível?

[Post 4292]

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