Ortografia: «tibiotársico»

Ossos do ofício


      «As pedras, e um barrote de madeira que suportava, como viga, parte do telhado atingiram a jovem em cheio na perna esquerda, provocando-lhe uma fractura na tíbiotársica» («Rapariga ferida em queda de muro», Carlos Rui Abreu, Jornal de Notícias, 6.01.2011, p. 24).
      Ena, senhor jornalista, uma palavra com dois acentos agudos... É grave, muito grave. Já se vê que é tíbio na observância das regras ortográficas. Lá por o substantivo tíbia e o adjectivo társico terem acento agudo, não quer dizer que tibiotársico os mantenha, não é? Não induza os leitores em erro.

[Post 4283]

Como se escreve nos jornais

Por um triz


      «Familiares e amigos, contactados pelo JN, contaram que os trabalhadores tinham sido contratados pelo dono da quinta, circundada pelo muro extenso, onde ocorreu o acidente, para taparem, com betão, os espaços entre as pedras, vulgarmente designadas por juntas» («Muro aluiu e matou operário», José Vinha, Jornal de Notícias, 6.01.2011, p. 22).
      Caro José Vinha: ainda bem que não nos quis sobrecarregar com a designação técnica dos intervalos entre as peças de alvenaria. Ah, e outra coisa: não gaste tantas vírgulas, que ainda lhe podem vir a fazer falta. Quem guarda, etc. Escuso-me de acabar o adágio porque de todos é sabido.

[Post 4282]

Colchetes

Quem escreveu?


      «Antes dele, o snooker [bilhar] era um jogo sombrio, disputado debaixo de muito fumo e álcool, em clubes nocturnos de qualidade duvidosa» («O polémico ‘Furacão’ que se tornou estrela de ‘snooker’», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 26.07.2010, p. 41).
      Os colchetes são de Rui Marques Simões? Sim? Então foram indevidamente utilizados. E, por outro lado, a explicação não devia dizer que o snooker é uma variedade de bilhar? E o sinuca é uma variedade de snooker, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ou uma variedade de bilhar? Sinuca, como aportuguesamento de snooker, faz lembrar chulipa, aportuguesamento de sleeper, e chumeco, aportuguesamento de shoemaker.

[Post 4281]

«Rever em alta»

Economês


      «Ontem, pelas 13H47, na cidade ameaçando chuva, uma lisboeta de avental parou, preocupada com um casal de turistas. Este agitava um mapa e tinha estampado, nas faces de ambos, a dúvida de ir pela Rua da Ribeira Nova ou pela Rua do Arsenal. A lisboeta interrogou-os com um sorriso. […] Há pouco, o ministério da Economia alemão reviu em alta o crescimento do seu PIB, baseado “na sustentada procura externa de produtos e serviços germânicos”» («Estou preocupado com a Alemanha», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 56).
      Cada um fale por si, mas, quanto a mim, só usaria «rever em alta» se fizesse jornalismo económico. Também aqui o exame Vieira ter sido útil. (E sabiam que «economês» está registado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora? Prioridades...)

[Post 4280]

Tu e vós na Bíblia

Jb 10,18


      Num texto, citava-se o Salmo 8 da Bíblia, mas não correctamente: as formas de tratamento usadas por quem se dirige a Deus ora estavam conjugadas na 2.ª pessoa do plural, ora na 2.ª pessoa do singular. Não foi a primeira vez que vi o erro, mas desta vez servirá para reflectirmos. Exemplifiquemos com um versículo muito citado na versão da Vulgata: «Quare de vulva eduxisti me?» (Liber Iob 10,18) Na Bíblia dos Capuchinhos, é assim que aparece traduzido: «Porque me tiraste do ventre de minha mãe?» (Jb 10,18). Tu, Deus. Abundarão, estou certo, as versões em que a forma de tratamento é «vós», a 2.ª pessoa do plural, mas as mais recentes limitaram-se a repor o que o que foi opção das primeiras traduções. E o leitor, como se dirige a Deus?

[Post 4279]

Velas e watts

Alumiem-nos


      Diz aqui o poeta (não, não posso revelar o nome, só a grandeza. Que poeta!) que era madrugada e a luz que a cozinha tinha dava-a uma «lâmpada de quinze velas». Há quanto tempo não via a palavra ser usada nesta acepção! O Dicionário Houaiss regista que é «qualquer medida de luminosidade que fornece a potência de uma fonte de iluminação». Não é, contudo, uma forma de dizer popular, imprecisa, não científica, por watts? Não faz parte, tanto quanto sei, do Sistema Internacional de Unidades (SI). Esperemos que Fernando Ferreira nos possa esclarecer.

[Post 4278]

Topónimos

Aqui não


      Na boa senda, mas não neste caso: «A maior parte dos refugiados reinstalados em 2010 são mulheres sós ou acompanhadas de filhos menores e agregados familiares, alguns deles com necessidades médicas especiais. São pessoas que fugiram dos países de origem, por razões políticas ou devido a conflitos armados, para a Ucrânia, Síria, Líbia, Bielorússia e Moçambique. As autoridades destas nações não estavam em condições de garantir “aos refugiados uma protecção adequada e duradoura”, diz um comunicado do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)» («33 refugiados é recorde no programa de reinstalação», Céu Neves, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 16).
      A grafia correcta é Bielorrússia. Segue, pois claro, as regras comuns da ortografia portuguesa. É erro muito encontradiço, vá-se lá saber porquê.

[Post 4277]

Topónimos

Na boa senda

      É por onde segue o Diário de Notícias no que respeita a topónimos: «Tinham passado apenas cinco meses desde que chegara ao poder ao vencer umas eleições provocadas pela cassação do mandato de Gray Davis. Este democrata, que governava o estado da Califórnia desde Janeiro de 1999, foi alvo daquilo a que nos EUA se chama uma recall election — procedimento através do qual os eleitores chamam de volta para reavaliação um político que elegeram e podem removê-lo do poder pela via do voto directo. Isto depois de terem sido conseguidas as assinaturas suficientes para desencadear este processo. Davis foi o primeiro governador a ser alvo deste procedimento na Califórnia e o segundo na história dos EUA (o primeiro foi Lynn Frazier no estado do Dacota do Norte em 1921)» («À política ou ao cinema, Schwarzenegger voltará», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 25).

[Post 4276]

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