Linguagem

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      Reparem: «Elton John e o marido foram pais de um rapaz». Eu queria dizer qualquer coisa inteligente, mas só me acodem à mente vernaculidades aliviadoras. Não, atenção, contra Elton John e David Furnish. Que sejam muito felizes. Que dizer, porém, dos jornalistas, assim a cavalgarem a onda? Não brinquem.

[Post 4267]

Tradução: «shock cocoon»

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      Rastenburgo, 20 de Julho de 1944. Hitler está com o seu estado-maior no Wolffsschanze, o Covil do Lobo. Também lá está o coronel Claus von Stauffenberg, que entrou com uma bomba numa pasta, que conseguiu pôr a meio metro de Hitler. A bomba detonou, todo o mobiliário ficou destruído, os aros das portas, até mesmo o tecto, tudo foi pelos ares. Das vinte e quatro pessoas que se encontravam na sala, metade sofreram danos permanentes quase fatais ou morreram (como sucedeu a quatro generais e ao contra-almirante Karl-Jesco von Puttkamer). Ninguém sofreu menos ferimentos do que Hitler, que escapou com uns arranhões. Entre Hitler e a bomba estava algo que lhe salvou a vida: a pesada perna de uma mesa, «created the shock cocoon». A pergunta é: como dizemos isto em português? «Casulo de choque»?

[Post 4266]

Verbos

Olha, outra


      Olívia Santos, no noticiário das 7 da tarde de ontem na Antena 1, fez uma síntese da cerimónia de tomada de posse da nova presidente no Brasil, com excertos intercalados do discurso («Meus queridos brasileiros e brasileiras […]. A partir desse momento, sou a presidenta de todos os Brasileiros». O Jornal do Brasil transcreveu de forma infiel e normalizadora: «A partir deste momento, sou a presidente de todos os brasileiros»). E foi dizendo que a nova presidente «fez honras ao seu antecessor», «reconheceu até onde Lula levou o Brasil», «arrancou para a apresentação de um verdadeiro programa de governo», «num tom sempre determinado», e por aí fora. E depois: «Já quase no final, a força virou emoção, a voz embargou e Dilma chorou.» Salvo melhor opinião, o verbo embargar, na acepção em que foi usado (tornar-se a voz pouco clara), é pronominal e não transitivo directo. Logo, deveria ter dito «a voz embargou-se-lhe». Também podemos, isso sim, embargar a voz (ou o pranto), isto é, reprimi-la, contê-la. Na obra de Herculano Eurico, o Presbítero, lemos: «A ventura embargava-lhe a voz.» Neste exemplo, e noutros da mesma obra (a Lua embarga com o seu clarão pálido o cintilar das estrelas; o Agareno vê coriscar em alto o franquisque e logo o sente embargar-lhe o último grito na garganta; uma convulsão horrível de pavor embarga na garganta os sons articulados; alguém procura abrir os fortes cancelos que lhe embargam os passos, etc.), é transitivo directo.

[Post 4265]

Tradução: «staff»

Nem pensar


      «All members of the Emperor’s staff were marked for summary execution.» Como diria esta frase em português Camilo Castelo Branco? De certeza que não «todos os membros do staff do imperador», etc. Nem tão-pouco usaria o aportuguesamento «estafe». «Séquito»? «Pessoal»? «Servidores»?

[Post 4264]

Sobre «miso»

Lembrei-me agora


      みそ, estão a ver?, não consta (transliterado, sim) dos dicionários da língua portuguesa. Oh, que pena... Ia jurar que... Miso, a sopa tradicional japonesa. Com os dicionários a abrirem os braços a sushi (e porque não está já aportuguesado em «suxi», por exemplo? Deve ser por causa dos turistas...), não me parecia mal que estivesse já nos nossos dicionários. Até porque é mais semelhante ao português. Os Espanhóis têm o vocábulo «miso», mas é uma interjeição usada para chamar os bichanos. E nós, como os chamamos? E como mandamos parar um cavalo? Uô? (Se o cavalo for inglês, é melhor dizer-se whoa.)

[Post 4263]

Tradução

Imagem tirada daqui

Honestamente


      Os maiores obstáculos acabaram por ser os «trolley wires and their supporting cables» — «os fios dos eléctricos e os seus cabos de suporte», verteu o tradutor. Pergunto: os trolley wires não serão os tróleis, isto é, os dispositivos pelos quais veículos movidos a electricidade estabelecem a ligação do motor ao cabo condutor de uma corrente eléctrica (trole, para os Brasileiros) e os supporting cables não serão as catenárias? Quanto ao nome do veículo: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a forma reduzida «trólei», «troleicarro» e «troleibus». Já o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista apenas «troleibus» e «troleicarro», pois para este dicionário um «trólei» não passa de um «carrinho que roda ao longo de um cabo». Quanto a catenária: para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «cabo metálico condutor de electricidade suspenso nas vias-férreas electrificadas»; para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é algo que só interessa aos matemáticos: «Curva formada pelo próprio peso de um fio flexível suspenso pelas suas extremidades.» Misteriosamente, faz anteceder a definição pela abreviatura «Mecân.». Em suma, caros senhores, redijam novas definições. É o meu melhor desejo para este novo ano.

[Post 4262]

Léxico: «estereotáxico»

Nunca explicam

      «É afixado o quadro estereotáxico na cabeça que permite localizar com extrema precisão a área a tratar» («Carreira vence tumor e é campeão», Cipriano Lucas, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 44).
      Não são todos os dicionários que registam o adjectivo «estereotáxico». Ao fundo da página, o Diário de Notícias mostra, com imagens, as fases da cirurgia, mas nunca o leitor fica a saber o que é um quadro estereotáxico. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa esclarece que é o que se faz graças à estereotaxia, e desta regista que é o «método de localização de uma estrutura nervosa cerebral a partir de lesões ósseas do crânio». O The Free Dictionary dá uma definição mais esclarecedora: «A method in neurosurgery and neurological research for locating points within the brain using an external, three-dimensional frame of reference usually based on the Cartesian coordinate system.»
[Post 4261]

«Pôr em dúvida»

A olhos vistos

      «A reavaliação do caso poderá trazer de novo para a ribalta um dos aspectos menos claros dos anos de poder do ex-chefe do governo Tony Blair, acusado por Kelly de ter inventado provas para justificar a invasão do Iraque. O cientista, recorde-se, foi a fonte de um jornalista da BBC, que colocou em dúvida os argumentos de Blair para justificar a guerra no Iraque. Dois dias depois, Kelly apareceu morto e o jornalista foi despedido» («Tony Blair sob suspeita», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 30.12.2010, p. 32).
      «Colocou em dúvida»! E os revisores deixam que estas barbaridades cheguem aos leitores, que pagam e só reclamam por insignificâncias.
[Post 4260]

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