Olha, outra
Olívia Santos, no noticiário das 7 da tarde de ontem na Antena 1, fez uma síntese da cerimónia de tomada de posse da nova presidente no Brasil, com excertos intercalados do discurso («Meus queridos brasileiros e brasileiras […]. A partir desse momento, sou a
presidenta de todos os Brasileiros». O
Jornal do Brasil transcreveu de forma infiel e normalizadora: «A partir
deste momento, sou a
presidente de todos os brasileiros»). E foi dizendo que a nova presidente «fez honras ao seu
antecessor», «reconheceu até onde Lula levou o Brasil», «arrancou para a apresentação de um verdadeiro programa de governo», «num tom sempre determinado», e por aí fora. E depois: «Já quase no final, a força
virou emoção, a voz embargou e Dilma chorou.» Salvo melhor opinião, o verbo
embargar, na acepção em que foi usado (tornar-se a voz pouco clara), é pronominal e não transitivo directo. Logo, deveria ter dito «a voz embargou-se-lhe». Também podemos, isso sim, embargar a voz (ou o pranto), isto é, reprimi-la, contê-la. Na obra de Herculano
Eurico, o Presbítero, lemos: «A ventura embargava-lhe a voz.» Neste exemplo, e noutros da mesma obra (a Lua embarga com o seu clarão pálido o cintilar das estrelas; o Agareno vê coriscar em alto o franquisque e logo o sente embargar-lhe o último grito na garganta; uma convulsão horrível de pavor embarga na garganta os sons articulados; alguém procura abrir os fortes cancelos que lhe embargam os passos, etc.), é transitivo directo.
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