Atol de Bikini

E porque não?


      «O atol de Bikini, nas ilhas Marshal, e Papahânaumokuâkea, um conjunto de pequenas ilhas e atóis do Havai passaram a integrar a lista como património natural. Por último, o Planalto Central do Sri Lanka foi classificado como património misto» («Palestina, Jordânia e Israel unem-se por Jerusalém», Marina Marques, Diário de Notícias, 2.08.2010, p. 41).
      É raríssimo ver-se aportuguesado para atol de Biquíni, mas no Diário de Notícias não seria inesperado.

[Post 4233]

«Giga», redução

Aos tropeções, mas avança


      «O autor [António Barreira] guarda a sua história premiada “numa pen de quatro gigas”, e o perfume que usou para a escrever, o Cool Water, de Davidoff, na prateleira. Irrecuperáveis são os chinelos — diz ter um par por cada novela que escreve: “Eram de Verão e usava-os quando escrevia em casa, depois de horário de trabalho. Foram muitos meses...”» («‘Meu Amor’ custou perto de cinco milhões de euros», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 25.11.2010, p. 55).
      Quer queiramos quer não, a língua avança. Se para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora giga é apenas uma cesta larga ou um cesto de vime, sem asas, para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já é também a redução de «gigabyte». É que não são já apenas os informáticos que falam assim, mas toda a gente.

[Post 4232]

Sobre «conduta»

Muito mais simples


      A ideia que tenho é que o galicismo conduta (conduite) cedeu algum campo, nos últimos anos, aos vernáculos procedimento e comportamento. Por vezes, contudo, trata-se de uma falsa questão, pois não se tem de utilizar nenhum dos três vocábulos. Veja-se esta frase: «O homem [ex-militar] com quem me encontrei seguia um código de conduta cujo imperativo era servir os outros.» Nesta expressão em concreto, a locução é, julgam muitos, inescapável. Ora, da leitura do original conclui-se que não era necessário usar nem o galicismo, nem nenhum dos possíveis termos vernáculos correspondentes, nem sequer a expressão. Leiam: «The man I met at that time was living by a code of service to others.»

[Post 4231]

Como se escreve nos jornais

Caturrice, dizem?


      «Subitamente, os militares [da GNR] aperceberam-se de um Ford Fiesta a efectuar uma violenta travagem, ligaram os rotativos da viatura e um dos militares saiu, dando ordem de paragem ao condutor do veículo» («Fugiu e quis atropelar a patrulha», Reis Pinto, Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 17).
      Se se tivessem dado conta ainda teria sido melhor, mas adiante. Eu pensava, e decerto a maioria dos falantes, que «rotativo» era somente adjectivo. Neologismo, então. E aquele «dando» não é o que Vasco Botelho de Amaral chamou gerúndio copulativo — espúrio na língua portuguesa? E, no entanto, bem arreigado já.

[Post 4230]

«Face a»

Perante isto...


      Quatro homens armados, vestidos com fatos-de-macaco pretos e com máscaras carnavalescas, assaltaram há dias o hotel Tiara Park Atlantic. Queriam, mal informados, assaltar uma ourivesaria que ali existia, e por isso iam munidos de uma marreta. Contentaram-se então com a máquina registadora do restaurante do hotel e com o cofre da recepção. Trocos, decerto, para quem queria levar mãos-cheias de ouro. Escreve o jornalista: «Face à informação[,] um dos suspeitos saltou o balcão da recepção e já no interior do espaço apontou a arma de fogo [a] um dos dois funcionários que estavam na altura no local e exigiu que este lhe entregasse dinheiro» («Assalto armado a hotel de luxo», Susana Otão, Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 14). Sim, está mal escrito, mal pontuado, mas só queria realçar este aspecto: João de Araújo Correia, e outros cultores da língua, iria espumar com aquele «face à», mas quem é que hoje em dia sabe que é calinada em vez de «perante»?

[Post 4229]

Estrangeirismos

O que se esqueceu


      Quando tratou do vocábulo «olho» na fraseologia portuguesa, Vasco Botelho de Amaral não se lembrou de referir, de passagem e para um fim meramente didáctico, o empréstimo do francês a olho nu (à l’oeil nu), ao contrário de Mário Barreto, que propôs como alternativas «a olhos desarmados» e «com a vista desarmada». Que se vê nos dicionários actuais? Registam, indiferentemente, «a olho nu», explicando que significa sem auxílio de qualquer utensílio óptico, e «à vista desarmada». Muito próxima, esta, portanto, da proposta do filólogo brasileiro. «À vista desarmada» usa-se até mais do que se possa julgar. Muitas outras propostas foram, infelizmente, desprezadas. Por fortuna, já ninguém usa revanche (nem revancha, um pouco, mas muito pouco, melhor), mas ainda se discute, de vez em quando, se avalancha é melhor do que avalanche (mas temos alude), e há quem se lembre sempre de equipe (como Mário Soares) e não de equipa, cabine mas não cabina, etc. Ainda estamos a tempo.

[Post 4228]

Tradução: «Ground Zero»

Ou Zona Zero?


      Já aqui defendi mais de uma vez, e expliquei porquê, que não se devia grafar Ground Zero em itálico. A expressão passou a ser usada superabundantemente após os atentados às Torres Gémeas de Nova Iorque. Cá está: Torres Gémeas. Foi assim que, a determinada altura, se passou a dizer entre nós. (Em contrapartida, nós é que temos as verdadeiras Twin Towers ali para Sete Rios...) Se a temos de usar duas ou três vezes, não pensamos muito no caso. Se, pelo contrário, a temos de usar algumas dezenas de vezes no mesmo texto, já dedicamos ao assunto mais alguma reflexão. A expressão teve origem com o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e em Nagasáqui. Refere-se à área onde todos os edifícios foram quase arrasados e onde a mortalidade atingiu os 85 por cento ou mais das pessoas que se encontravam na rua sem protecção. Em Hiroxima, por exemplo, o raio do Ground Zero ficou acima de 1,6 km. Porque não traduzir sempre por Zona de Impacto, como se vê algumas vezes?

[Post 4227]

Adaptação de estrangeirismos

Imagem tirada daqui

Paratonnerre


      A propósito da adaptação de estrangeirismos, e concretamente do galicismo abat-jour, de que o mesmíssimo Garrett também se ocupou, Vasco Botelho de Amaral mostrou, no seu Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, ter seguido a lição camiliana de aprender no «dicionário inédito do povo». Assim, certa vez, ouviu de um gaiato (palavra, infelizmente, pouco usada hoje em dia) «apara-raios». E eu também já a ouvi da boca de gente simples. «Ora», justifica Vasco Botelho de Amaral, «o gaiato que disse apara-raios desviou-se do falar geral e talvez incurável (que adoptou pára-raios), mas deu-me lição de aportuguesamento analógico admirável. Na verdade, se os pára-raios aparam os raios que atraem, que melhor aportuguesamento haveria do que este de apara-raios, com semelhança fonética e de esplêndida precisão descritiva do aparelho?» (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

[Post 4226]

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