Léxico: «culote(s)»

Athina com os números


      «O equipamento para o cavalo, com sela, cabeçada e protecção dos cascos ronda um investimento na ordem dos dois mil euros. Já o equipamento do cavaleiro custará sensivelmente o mesmo e é composto por casaco, colete, culotte (calças), botas, capacete e chicote» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      É como se escreve sempre — mas a palavra está aportuguesada há bastante tempo: culote(s). Claro que parece mais fino, sobretudo porque no artigo principal e num de apoio se refere a multimilionária Athina Onassis e os seus milhões. É «herdeira de uma fortuna estimada entre 750 milhões e 1,5 mil milhões de euros», lê-se no artigo. Pode ser e pode não ser: num artigo mais à frente, «Em lágrimas Oprah Winfrey nega ser lésbica» (p. 53), lê-se que a apresentadora «tem uma fortuna avaliada em cerca de dois milhões de euros». Bah.

[Post 4179]

Acordo Ortográfico

O acordo é um fato... roto


      «Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação dos Professores de Português (APP), lembra que “estamos já numa fase de transição” e que a convivência com as duas grafias — a actual e a nova — levará muito tempo. Sobre o impacto que essa situação poderá ter na avaliação dos alunos, o responsável referiu que a APP sugeriu que “durante o período de transição as duas grafias sejam aceites”. Ou seja, escrever facto ou fato será aceite, sem ser considerado um erro. Medida que foi aplicada pelo Ministério da Educação nos exames nacionais» («Editoras prontas a aplicar o Acordo Ortográfico», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 16).
      Se até uma jornalista, cujo trabalho anda todo à volta da língua, escreve este disparate, imagine-se o cidadão comum. Sabe Deus quem lhe disse que era assim...

[Post 4178]

Tradução: «resort»

Como a pessoa amada


      Outro anglicismo completamente desnecessário — e tão na moda que todo o bicho-careta procura desesperadamente ocasião de o usar — é resort. Muito se usa e abusa, hoje em dia, da palavrinha. Os jornalistas, esses grandes propinadores destes venenos de venda livre, começaram a usá-lo há não mais de meia dúzia de anos. Alguns tradutores também o acham necessário para exprimir um conceito que reputam completamente alheio. E estância, meus senhores, essa linda palavra? Acrescentem «balnear», «de Verão», «de Inverno».
      O mal dos estrangeirismos é que dão muito nas vistas. «A língua», como escreveu João de Araújo Correia na obra A Língua Portuguesa, «não deve mudar a olhos vistos. Deve ser como pessoa amada, que todos os dias se modifica sem que o notemos.»

[Post 4177]

Tradução: «panel»

Temos melhor


      Tinha de ser: o «panel of three veterinarians» transmutou-se em «painel de três veterinários», como se faltasse termo em português para traduzir aquele banal panel. Não usamos para conferência de médicos a locução junta médica? Então, «junta de três veterinários». E não é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora omite esta acepção de «junta»?! O mais próximo que regista é «grupo de pessoas com um dado fim, comissão».

[Post 4176]

Sobre «franco-canadiano»

Francês do Quebeque


      Não é interessante que franco-canadiano também designe um canadiano francófono? Bem, não acontece o mesmo com outros compostos, nem sequer com compostos com o mesmo primeiro elemento. Esperem, esta acepção é um anglicismo. Então, French Canadian traduz-se por...? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que franco-canadiano, como substantivo, é a pessoa francesa que tem ascendência canadiana. Será mesmo? Mas habitualmente considera-se que a ordem dos elementos é arbitrária, sem variação de significado. Logo porque não há-de designar — sim, invertam agora: canado-francês — também o canadiano que tem ascendência francesa? Aliás, em inglês tem esses mesmos (e só esses) sentidos: franceses que chegaram nos séculos XVII e XVIII ao Canadá (sentido histórico, do qual derivou o actual, de canadiano descendente de franceses) e canadianos francófonos.

[Post 4175]

Pronúncia

Faz-me impressão


      Rui Pereira, ministro do Interior, perdão, da Administração Interna, estava hoje de manhã em Tomar, «no terreno», para avaliar os danos causados pelo minitornado. O repórter Paulo Brás, da Antena 1, acompanhou a visita e disse que o ministro acabara de fazer um «breve briefing com as autoridades». Rui Pereira quis manifestar o seu apreço pelo trabalho da Protecção Civil e da Câmara Municipal e garantiu que iria ser accionado o fundo de emergência municipal e que iria falar com o ministro da Economia para que o IAPMEI «acorresse a quaisquer necessidades». E como pronunciou o vocábulo «economia»? Pois claro, ¦ikunumía¦. Quem fala assim, por favor, levante o dedo.

[Post 4174]

Unidades de medida

É diferente


      Nas traduções, o erro espreita aqui e ali. As rações de um potro foram gradualmente aumentadas, «up to five and finally to six quarts of grain a day». Não se pode dizer que foi «para cinco e finalmente seis quartas de cereal». Também temos quartas, claro, mas a nossa quarta é a quarta parte do alqueire, do arrátel, da vara. O quart do original é um quarto de galão, que é diferente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, é há para volume seco e para líquidos. No caso, é seco. Sobretudo os dicionários bilingues inglês-português, e tenho à minha frente o da Porto Editora, registam que o galão nos EUA é equivalente a 3,785 litros. Mas para volume seco, deveriam acrescentar, é equivalente a 4,404 884 litros, e a divisão é em quartos, sim.
      Em quanto foi aumentada, afinal, a ração do potro? Pelas minhas contas, arredondando, deveria ter-se dito que as rações do potro «foram gradualmente aumentadas para 5,5 l e finalmente 6,6 l de cereal». Conferem? É um problema de falsos cognatos, mas também de precipitação.

[Post 4173]

Bíblia e tradução

Entre nós


      Também embirro (mas não digam a ninguém) com Revelation traduzido por... Revelação. Na nossa tradição, o último livro da Bíblia é o Apocalipse. É, bem sei, o mesmo, pois «apocalipse» é um termo grego que significa precisamente «revelação».
      Mera divagação, queria falar de outra questão. Lembram-se do que aqui disse sobre o verbo inverter? Vejam este título do Diário de Notícias: «Passos diz que vai demorar duas legislaturas para inverter os erros». Contudo, a afirmação de Pedro Passos Coelho que justificou o título é esta, reproduzida no mesmo artigo: «Corrigir os últimos anos de inconsciência vai demorar vários anos de dificuldades e até penúria» (Paula Carmo, Diário de Notícias, 29.11.2010, p. 9). Então, sendo assim, melhor teria sido titular: «Passos diz que vai demorar duas legislaturas para corrigir os erros». Isso de «inverter» os erros, próprios ou alheios, parece-me coisa impossível — e malissimamente escrita.

[Post 4172]

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