Como se escreve nos jornais

Estamos bem arranjados


      Até um jornalista como Eurico de Barros confunde rebuliço com reboliço. «Foi uma surpresa total. Eu fui com uma pessoa amiga que é de lá e ele tinha-me passado fotografias e vídeos, e achei que ia encontrar um lugar cinzento, triste, destruído. E aquilo que vou encontrar é completamente diferente. Pristina é uma cidade pequena, mas em constante reboliço, com muita construção, imensa gente, muita gente jovem, muitas raparigas bonitas — não estava mesmo à espera disto! —, tudo me surpreendeu. Pensei que ia para um lugar com todos os motivos para ser triste e deprimente, mas que acabou por não o ser» («“Fiquei surpreendido com o que encontrei no Kosovo”», Eurico de Barros entrevista o autor e ilustrador português Ricardo Cabral, Diário de Notícias, 29.11.2010, p. 48).
      (Oportunidade para ver aqui a excelente obra de Ricardo Cabral.)

[Post 4171]

Como se escreve nos jornais

Despeçam-no


      Até um porco (pelo menos um porco piemontês) sabe que há muitas trufas em Alba. E onde fica Alba?, perguntam. O porco fala por si. O jornalista que escreveu o artigo «Stanley Ho paga 249 mil euros por trufa» (29.11.2010, p. 35) no Diário de Notícias acha que é no Piedmont, no Noroeste da Itália, estão a ver? «E têm uma curiosidade: utilizam-se cães ou porcos para as farejar enterradas na terra. As mais famosas são oriundas de Alba, na província de Piedmont, no Norte de Itália, e apanhadas entre Setembro e Dezembro. À semelhança de outros anos, as trufas deverão ser cozinhadas pelo chef do Gran Lisboa Hotel, em Macau.»

[Post 4170]

Anglicismos

Tudo inglês, por favor


      Houve no passado fim-de-semana uma iniciativa comercial em Lisboa chamada Stockmarket, realizada na antiga FIL, onde se juntaram 120 marcas com descontos até 80 %. Tinha de ter, já estão a ver, nome inglês, ou não atrairia clientes modernos, cosmopolitas. A jornalista Maria João Caetano escreveu um artigo («Contornar a crise e comprar as prendas de Natal no Stockmarket», 3.12.2010, p. 48) no Diário de Notícias sobre o acontecimento. Começa por nos dizer que o espaço ia ter uma área de lounge. E mais, o mercado (prosaicamente, é isto, meus senhores) seria, «segundo os especialistas», «uma shopping party (festa de compras)». A ideia era escoar os stocks, pois claro. Além dos stands, escrevia a jornalista, podiam os papás estar descansados: havia um playground. Ficámos também a saber que a responsável queria «uma espécie de roadshow, para levar as pechinchas a todo o País».
      Isto é uma traição ao idioma pátrio. Não sei como é que um jornalista consegue escrever assim.

[Post 4169]

Tradução: «exercise boy»

Altas cavalarias


      «Gordon», fiquei a saber, «was an exercise boy at the yearling training center.» Muito prazer. «Moço de exercícios», querem que seja? Faz lembrar o ferro-guia... É uma das dificuldades da tradução, a falta de correspondência entre léxicos, decorrente, também, da ausência de correspondência nas realidades. Eu bem gostava que houvesse corridas de cavalos e apostas em Portugal, mas não há. Já no Brasil, existe o turfe, mas não descola muito, em termos linguísticos, da realidade anglo-saxónica. Creio que entre as tarefas dos cavalariços não se conta esta de levar os cavalos a fazer exercício. No México, dão o nome de poniador a estes profissionais.

[Post 4168]

Fraccionários

Pergunto


      «He raced the seven-eighths of a mile in a sizzling 1:21⅗, three-fifths of a second faster than the old mark.» Podemos, na tradução, representar o tempo da mesma forma? Lia-se na tradução: «Correu os sete oitavos de milha num escaldante minuto e 21 ⅗ segundos, três quintos de segundo mais rápido que a velha marca.» Não seria mais correcto representar o minuto por numeração árabe? E a parte fraccionária não tem de estar junto, sem espaço, da parte inteira?

[Post 4167]

Como se fala na televisão

Coitados de nós


      Um dos convidados de ontem do programa Prós e Contras foi o escritor José Luís Peixoto. Uma das frases que lhe ouvi: «Eu tive oportunidade de publicar recentemente um romance em que acabei por, ao escrevê-lo, por me debruçar sobre a questão da emigração portuguesa, nesse caso, especificamente, para França, e ter oportunidade de perceber que se tratam de pessoas que construíram dois países, de certa forma, com o que fizeram.» Fátima Campos Ferreira quis ainda saber se o escritor achava que somos um povo resignado. «Eu penso que nos querem resignar», respondeu, violentando a gramática, o autor do Livro. Esgotada a gramática e a inspiração com este convidado, Fátima Campos Ferreira virou-se para Salvador Mendes de Almeida, e perguntou: «O que é que denota hoje, que sinais vê na sociedade?»
      Não me perguntem mais nada, pois fui-me deitar com esta frase (salvo seja).

[Post 4166]

Tradução: «lead shank»

Não pega


      Mais cavalos. No original lia-se que John «takes hold of the lead shank and brings them into the circle», que o tradutor quis que fosse John «pega no ferro-guia e leva-os para o círculo». Só que nenhum dicionário bilingue inglês-português que eu conheça regista a locução lead shank. Sei o que é, sim, mas desconheço o termo correspondente em português. Num dicionário de inglês-espanhol que aqui tenho, vejo-a traduzida por cuerda e cadena. (E também confirmo que sweet feed está traduzido por comida dulce.)

[Post 4165]

Ortografia: «bola-de-berlim»

Mil por dia


      No Diário de Notícias, as bolas-de-berlim saem a preceito, com hífenes e minúsculas. Graças, talvez, a Paulo Julião. «A bola-de-berlim do Manuel Natário é o seu produto mais conhecido, e dos fornos da pastelaria podem sair mais de mil, para uma fila de espera que, como é hábito, chega a contornar, sobretudo na “fornada da tarde”, quase toda a rua. É por tudo isto que o Prémio Mérito Comercial, atribuído pelo Conselho Empresarial dos Vales do Minho e Lima (CEVAL), pretende sublinhar, “pela antiguidade, notoriedades regional, nacional e internacional”, além da “constância e qualidade dos seus produtos”» («Mil bolas-de-berlim por dia e com amigos no Facebook», Paulo Julião, Diário de Notícias, 6.12.2010, p. 18). Não sei o que é pior: haver grávidas que vão a Viana do Castelo para comer uma bola-de-berlim ou esta confeitaria estar no Facebook.

[Post 4164]

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