Como se escreve nos jornais

Julgarão eles que...?


      Lembram-se daquela questão de congénere/homólogo? Pois agora no Diário de Notícias quiseram resolvê-la de outra forma... «O ministro das Obras Públicas português, António Mendonça, convidou o seu homónimo de Marrocos, Karim Gellab, para uma visita de dois dias, para mostrar “várias oportunidades de negócio. Marrocos está com um dinamismo forte, está a apostar em infra-estruturas e as empresas portuguêsas [sic] têm aqui uma oportunidade”, afirmou» («Marrocos aberto aos portugueses», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 35).

[Post 4059]

Ortografia: «hilaridade»

Puro desleixo


      «Mas se este gigante de talento (2,16 metros) habituou os adeptos das seis equipas por onde passou às demonstrações de hilariedade excêntrica, também sempre deixou claro que os seus 147 kg, [sic] têm um peso insubstituível em determinados momentos do jogo» («Idade não tira ambição nem sentido de humor», Jorge Alves Barata, Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 42).
      Por vezes, não sabem: -iedade ou -idade? Não procuram, contudo, saber. O leitor saberá... Já aqui vimos esta questão.

[Post 4058]

Léxico: «andorriano»

Mais cuidado


      «Os três baristas vencedores vão agora representar Portugal no Campeonato Ibérico frente aos campeões espanhóis e andorrianos, que se realiza em Barcelona no próximo dia 9 de Novembro» («Melhor café é tirado em Leiria», Diário de Notícias, 15.10.2010, p. 72). O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, para não irmos mais longe, ignora esta variante do gentílico, tal como desconhece a variante andorrense. Incompreensível. O Dicionário Houaiss só ignora a variante andorriano.

[Post 4057]

«Sobre avaliação»

Não, senhora ministra


      Ana Jorge, ministra da Saúde, na Antena 1: «Nós tínhamos encontrado uma série de irregularidades com o uso da portaria e a única maneira de parar com essas irregularidades, que algumas eram muitos graves, e que estão sobre avaliação neste momento […] e por isso foi preciso suspender [a portaria].» Até ministros confundem as preposições. Ah, sim, e escritores, e revisores, e professores, e jornalistas... Este erro já passou por aqui.
      No mesmo serviço noticioso, das 3 da tarde, Maria de São José falou em «doentes mentais graves»; a repórter Natércia Simões, por seu lado, falou em «doentes psiquiátricos»: esperemos que seja o mesmo.

[Post 4056]

Selecção vocabular

O Senhor do Bonfim nos valha


      Na Pública de hoje («“Made in China”», p. 71), Ricardo Garcia quis fazer um exercício de estilo à volta das famigeradas fitas do Bonfim. «Amarra-se a dita cuja ao pulso, ao tornozelo ou seja lá onde for e ela vai-se desfazendo aos poucos, lentamente, até se partir — instante em que o desejo professado no momento do nó supostamente se realiza.» Os desejos professam-se? «Na Internet, encontrei um sítio que vende qualquer coisa advinda do Oriente: de cabos coaxiais a enormes gruas, de sacos para compras a bidões para gasolina, de torneiras a computadores, de estátuas religiosas a moldes para plásticos.» As coisas advêm? «Além disso, no fundo, somos todos iguais. Se hoje vivemos refestelados no conforto ocidental, é porque antecessores nossos deram cabo das florestas, conspurcaram os rios, poluíram o ar, exploraram o trabalho infantil e praticaram outros comportamentos cívicos de semelhante nobreza, em prol da acumulação de riqueza.» Praticam-se comportamentos?

[Post 4055]

Como se escreve nos jornais

Non habemus correctores


      O cardeal protodiácono, perdão, o jornalista Miguel Gaspar quis escrever latim e saiu espanhol. Acontece. «Até que chegou a noite de sexta-feira, 29 de Novembro. Depois da ruptura, o acordo. Sabia-se que Teixeira dos Santos estava chez Catroga. E que o clima de serenidade doméstica fora mais propício ao fumo branco do que o bulício do Parlamento. Pouco depois das onze da noite, confirmou-se a notícia que já circulava pelas televisões. Habemos orçamento. E para o dia seguinte marcou-se a cerimónia solene da assinatura do dito cujo» («Os homens da luta», Miguel Gaspar, «Pública»/Público, 7.11.2010, p. 14). Os copidesques não deram por nada.

[Post 4054]

Ortografia: «mal-estar»

Vergonha


      «No primeiro jantar que teve este ano com Dilma Rousseff, a nova presidente do Brasil que assume funções no início de 2011, o número dois do novo Governo, Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), firmou um pacto com a pupila de Lula da Silva: “Teremos liberdade para dizer um ao outro o que queremos e o que não queremos, do que gostamos e do que não gostamos”, confidenciava, em Setembro, à revista Piauí. Os últimos acontecimentos dão-lhe, no entanto, motivos para um mau-estar logo no arranque» («Michel Temer: o trunfo de Dilma no Parlamento», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 26).
      Pois se até professores falam e escrevem assim... Se a formação profissional não fosse a aldrabice que é, não aprendiam em pequenos, aprendiam na adultícia.

[Post 4053]

Léxico: «tuíte»

Más opções

      «“Entra o Governo com um tropeção de Mariano Gago”. A tuiteira Catarina Pereira começava assim, às 10 da manhã, com a hashtag (etiqueta que permite pesquisar os tuítes sobre um deterinado [sic] tema) #oe2011, o relato do debate do Orçamento de Estado» («Crispação no Parlamento, descontracção no Twitter», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 3). Entretanto, na edição de hoje do Público pode ler-se: «“Twittar”, “googlar”, “politólogo” ou “flexisegurança” são algumas das novas palavras que integram a edição actualizada do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora. A nova edição tem um total de 410 mil entradas, incluindo mais de seis mil estrangeirismos» (Público, 6.11.2010, p. 13).
[Post 4052]

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