«Desesma»?

Viva ou morta


      Procura-se: «Então porquê este cansaço, esta desesma até para falar, excepto para gritar de raiva?» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1975, p. 159). Claro que pode ser gralha. Nem o recurso a um dicionário inverso nos deu qualquer pista.

[Post 4051]

Sobre «implementar»

Pretensões


      Quer ensinar-nos a ler um nome próprio estrangeiro — «Mas na hora da sua própria morte o camarada Ceausescu (ler “tcheauchescu”) não teve direito a honras de Estado nem a uma cerimónia familiar» (p. 8) —, mas depois escreve um português abastardado: «Cerca de 30 mil habitações serão removidas para implementar a mastodôntica Casa da República. Com o fim do regime é rebaptizada Palácio do Parlamento, mas a população de Bucareste no que respeita aos nomes oficiais é parecida com a lisboeta e toda a gente conhece o edifício como Casa Poporului (casa do povo)» («O marionetista e a marioneta», Rui Catalão, «Ípsilon»/Público, p. 11).

[Post 4050]

Sobre «desprender-se»

E este?


      «Mas de todo o seu ser desprendia-se algo forte e impetuoso, algo audacioso e apaixonado» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1975, p. 58). E este desprender-se, isto é, lançar de si, emanar, exalar, não é, sem tirar nem pôr, o espanhol desprenderse? Echar de sí algo... E, contudo, talvez bem português.

[Post 4049]

Verbo haver

Imagem tirada daqui

Corta!


      José Manuel Rosendo entrevistou (numa cafetaria?!) o filósofo José Gil para a Antena 1. Eis um excerto mais antigramatical: «Quer dizer, a questão é de tal ordem, que nós vamos começar um mau ano 2011, com uma recessão que todos anunciam, depois haverão uma estagnação, haverão um aumento mínimo do crescimento económico, estagnante, e não se vê o fim. É sem fim à vista.» O mais intrigante (bem sei que se trata da oralidade) é que, mesmo que o verbo permitisse, nesta acepção, o seu uso no plural, o sujeito, neste caso, não o pedia.

[Post 4048]

Ortografia: «bioartificial»

Muito certo

      «Medicina Investigadores espanhóis apresentaram na terça-feira em Madrid um processo de criação de órgãos ditos bioartificiais a partir de células-mãe do doente, limitando assim para este último possíveis riscos de rejeição» («Células-mãe podem ser empregues na recriação de órgãos», Diário de Notícias, 4.11.2010, p. 27). Perfeito: bioartificiais está correcto. Bioastronáutica, bioastronomia, biolectricidade, bioengenharia, bioética, etc.

[Post 4047]

Ortografia: «grafitado»

Quase, quase


      «A sua mãe, a ama Luísa Carvalho — conhecida na zona como “tia Luísa” — deu explicações à progenitora da criança, mas a partir desse dia o “descanso acabou”. O prédio onde funciona a creche, na sobreloja, foi graffitado com palavras obscenas e cartazes colados em todo o lado. “Estou a ser linchado na praça pública”, diz» («Abuso de menor aconteceu “durante uma brincadeira”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 4.11.2010, p. 21). Muito bem: está duplicada, ao menos isso, a consoante certa — mas não seria melhor grafitado?

[Post 4046]

Sobre «costa»

Imagem tirada daqui

É mesmo


      Que «costeiro» é relativo à costa sabemos todos nós e os dicionários ajudam-nos a confirmá-lo. Contudo, só no Dicionário Houaiss e no Aulete Digital ficamos a saber que costa também é, por extensão de sentido, a área que fica à margem de rio, lagoa, etc.

[Post 4045]

«De moto próprio»

Mote de ‘mot’


      Do editorial do Diário de Notícias de hoje: «Neste quadro, o que se tornou evidente ontem foi que o futuro político deste Governo está nas mãos de Teixeira dos Santos e da sua capacidade de atingir os objectivos a que se propôs, não só este ano, mas nos primeiros meses de 2011. Não foi só a oposição a dizê-lo, mesmo que o PSD o tenha deixado particularmente claro, afirmando que não haverá um terceiro acordo com Sócrates. Foi mesmo o primeiro-ministro quem resolveu, por mote próprio, assumir este Orçamento como integralmente seu, esperando colher sozinho os seus frutos» («Seis meses decisivos», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 8).
      Em português, é de (ou por) moto próprio. Em latim, donde provém, é motu proprio — sem preposição! Ao contrário de outros, e também tenho o meu latinzinho, não me rala nada que se use a locução aportuguesada, e seria mesmo estulto, salvo melhor opinião, o contrário. De moto próprio significa espontaneamente; por iniciativa própria; por sua conta; sem conselho ou constrangimento alheio. (Agradeço ao leitor R. A. por me ter chamado a atenção para este erro.)

[Post 4044]

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