«Determinar-se»

Que cada um diga (III)


      «Advierte, Cristinica, y está cierta de una cosa: que la mujer que se determina a ser honrada, entre un ejército de soldados lo puede ser» — Cervantes. Espanhol até ao tutano? «E alta noite, quando nisto se acabam de determinar, mandam logo ao tronco para que os façam prestes para irem a padecer» — Fr. Gaspar da Cruz. Português de lei?

[Post 4036]

«Com ser»

Que cada um diga (II)


      «Confieso también que me engañaba, y que podría ser que hacer ahora la experiencia me pusiese la verdad delante de los ojos el desengaño; y, estando desengañada, fuese, con ser honesta, más humana» — Cervantes. Espanhol até ao tutano? «E porque el-rei tem tanto cuidado do governo de seu reino e o traz tão bem regido, com ser tão grande como é, o sustenta e conserva unido em paz há muito número de anos, sem nenhuns reinos estranhos entrarem a possuir nada na China, antes a China sujeitou e teve muitos reinos e muitas gentes sujeitas pelo seu singular governo» — Fr. Gaspar da Cruz. Português de lei?

[Post 4035]

«Sem falar palavra»

Que cada um diga (I)


      «Todo esto estaba mirando Leonisa, que ya había vuelto en sí; y, viéndose en poder de los corsarios, derramaba abundancia de hermosas lágrimas, y, torciendo sus manos delicadas, sin hablar palabra, estaba atenta a ver si entendía lo que los turcos decían» — Cervantes. Espanhol até ao tutano? «Foi isto coisa que pôs os loutiás em grande admiração, e como atónitos e fora de si estiveram um grande espaço olhando um para o outro sem falarem palavra» — Fr. Gaspar da Cruz. Português de lei?

[Post 4034]

Pronúncia: «Rousseff»


«Ruzefe», dizem eles


      Temos aqui um problema, mas desses que se resolvem da noite para o dia: alguns dos nossos jornalistas da rádio, como Alexandre David, da Antena 1, não pronunciam correctamente o apelido da nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff. «Ruzefe», diz ele. Quem sabe se o apelido original, que o advogado búlgaro Pétar Russév, pai de Dilma, mudou para Rousseff, se pronunciava dessa forma. Na escrita, também temos um problema: na mesma edição de certos jornais, como no Público de hoje, ora se lê Rousseff ora Roussef.

[Post 4033]

Instrumentos de tortura

Boa têmpera

      Embora Fr. Gaspar da Cruz refira algumas formas e instrumentos de tortura, como a canga, falemos de torturas mais actuais, como aquelas que sofreu a recém-eleita presidente do Brasil, Dilma Rousseff: «E pouco depois Dilma é presa. Passa três anos na prisão, com torturas várias. Espancam-na e dão-lhe choques eléctricos. A pedagoga Maria Luiza Belloque, que esteve na mesma cela, contou à Piauí: “A Dilma levou choque até com fios de carro. Fora ‘cadeira do dragão’ [uma cadeira de metal que a cada choque faz com que as pernas do preso batam numa placa], ‘pau-de-arara’ [uma barra onde o preso fica pendurado pelos punhos e pelos joelhos] e choque para todo o lado. Ela levantava o meu astral quando eu chegava arrebentada da tortura.” Leslie Belloque, sua cunhada, reforçou: “Ela não era nada chorona. Falávamos como se não tivesse tortura. A Dilma é um tenente, é muito forte”» («A mulher a quem Lula deu o Brasil», Alexandra Lucas Coelho, Público, 1.11.2010, p. 4).

[Post 4032]

«Ali faziam seus feitos»

Escatologia


      «Assim comiam e bebiam, e ali faziam seus feitos, o que lhes não era pequeno tormento e pena» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 230).
      Há dias ouvi a humorista Maria Rueff dizer que humor negro e escatologia não eram com ela (ao contrário do mestre e patrono), e, pelo menos no que respeita a esta última, é uma atitude quinhentista. Ali faziam seus feitos — parece, até pela circularidade, o eufemismo consumado. E quem fala de feitos fala de obras, e não diz o povo também obrar? Diz, e ainda ontem o ouvi no Alentejo.

[Post 4031]

«À primeira face»

Alatinado


      «E para que lhe não desagrade à primeira face a leitura, parecendo-lhe ter falta, pareceu-me bem mostrar-lhe aqui a ordem de proceder nesta obra» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 69). Agora dizemos à primeira vista, mas aqui ainda era a tradução mais próxima da locução latina prima facie.

[Post 4030]

Verbo «colocar»

A maldição


      «Tony Carreira», lê-se no Diário de Notícias de hoje, «voltou à escola onde fez o ensino primário em Armadouro, uma aldeia do concelho da Pampilhosa da Serra, para “um desfiar de recordações” durante a conversa com Manuel Luís Goucha, no programa De Homem para Homem, que hoje vai para o ar às 21.00, no TVI 24» («Tony Carreira partilha recordações com Goucha», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 31.10.2010, p. 67). «O cantor recorda», escreve a jornalista, «“a sua professora que o colocava frequentemente de castigo por causa das traquinices que fazia, que o mandava muitas vezes ao quadro e que foi a primeira pessoa da aldeia a ter uma televisão e, por isso, convidou a turma inteira para ir a sua casa assistir às celebrações do 13 de Maio”, revela Manuel Luís Goucha.» O mais certo, se teve sorte, foi a professora pô-lo de castigo; passado todo este tempo, a realidade surge desfocada, e onde havia pores agora há colocares.

[Post 4029]

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