Léxico: «hilético»

Pouco filosófico


      Se eu fosse filósofo, ia zangar-me muito que o melhor dicionário da língua portuguesa não registasse os termos hilético e hilé. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o adjectivo «hilético» é o referente à «hilé», e esta é, em filosofia, e na obra husserliana, concretamente, a «matéria da sensação como dado puro, antes da intervenção da actividade intencional do espírito, que lhe confere um sentido». Sim, prosaicamente, matéria. Contudo, a matriz semântica do étimo da nossa «matéria» é o grego ὕλη, «madeira, a matéria de que algo é feito». Concreto, material como um tronco. (Espero que o meu amigo Marcos Cóias e Silva, consultor filosófico, não me desminta.) Esperem: o Dicionário Houaiss regista, entre outras, hílico: «pertencente à matéria; corpóreo, material». Ah, sim, e regista husserliano.

[Post 3956]

«Empregue/empregado»

Ah, isso

      Os correctores, automáticos, deram agora em expungir de todos os textos qualquer «empregue» que tenha tido a veleidade de existir. Automáticos, sem ponderação. Em vez de estudarem, põem-se, quase lúbricos, a espreitar por cima do ombro dos outros (sim: aprendemos muito com os outros, mas não assim), e depois sai asneira. «Aliás, a expressão tantas vezes empregue...».

[Post 3955]

Léxico: «planeidade»

E, no entanto...


      Planeidade. Qualidade do que é plano. Existe? Claro que sim, é vocábulo que se usa com alguma frequência. Está dicionarizado? Não está. Nada de surpreendente: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não regista «estanquidade» ou «estanqueidade». E, no entanto... E, finalmente, preocupação que só costumamos ter com neologismos: está bem formado? Bem, planidade estaria mais de acordo com a língua.

[Post 3954]

Revisão

É uma missão


      O revisor antibrasileiro mostrou, mais uma vez, como não deixa passar repetições de qualquer espécie. «Veja: “Está longe de estar”. O jornalista não conseguia dar volta a isto?!» A noite, porém, não foi marcada por estas saborosas prelecções, antes por uma queixa: «... E depois disse-me: ‘“Assim, não é de admitir, etc.”’ Para que é esta vírgula aqui a separar o sujeito do verbo?” “Assim” sujeito!» Bem, eu também fiquei abalado, um revisor experiente a dizer a outro semelhante barbaridade. Lembrei-me de outro. Da primeira vez que falámos, apesar de alguma incoerência, disse muita coisa acertada. «Por exemplo, “fazer com que”: nunca deixo passar tal disparate. Como eu costumo dizer, temos “coque”, não “com que”.» Riu-se. Da segunda vez, porém, tinha os reflexos um pouco embotados, e o nariz, qual tubérculo rugoso, purpúreo, distraía-me tanto como o entrecruzar de conversas e referências que me eram estranhas. No meio de tanta gente, ele tinha um propósito bem claro: comer o máximo de croquetes e beber tanto quanto aguentasse de portos. Deixei-o aportar na mesa das bebidas e eu naufraguei na multidão.

[Post 3953]

Como (quase) se escreve nos jornais

Passar das marcas


      O jornalista escrevera que o Futebol Clube do Porto tinha divulgado «um comunicado com dois pontos no sítio oficial do clube a desmarcar-se do sucessor de Rui Moreira no programa Trio d’Ataque, da RTPN». O plumitivo lembrava que Rui Moreira abandonara «em directo o programa da última terça-feira, após uma calorosa troca de palavras com o representante do Benfica». Alguns jornalistas são mesmo dados a estes disparates desmarcados, e, no calor da labuta, confundem «acalorado» com «caloroso». Fica tudo em família. Eu estava lá e poupei os pobres leitores, já fustigados pelo temporal.

[Post 3952]

Revisão

Solércia me parece


      Serigaita. Sirigaita. Bem, começa-se por nem sequer se saber ao certo qual o étimo de serigaita. «Talvez do asturiano xirigata “vozerio, algazarra”», avança, corajoso, o Dicionário Houaiss. «De origem obscura», assegura o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Depois, parece-me muito mais natural, mais fácil, a prolação de «serigaita», pela dissimilação introduzida. Agruras de autor? Nada disso: colegas atrevidos.
      A propósito de prolação, conhecem o Prontuário Sonoro da RTP? Ei-lo aqui. Não têm de quê.

[Post 3951]

Léxico: «navio cabinado»

Imagem tirada daqui

Haja pelo menos um


      «A embarcação, um barco cabinado, estava registada na Capitania do Porto da Régua, que comandou o resgate» («Barco afunda-se no Douro e o resgate gera críticas», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 18). Dos dicionários consultados, só o Dicionário Aulete Digital regista o adjectivo «cabinado»: «que tem cabine». Como o da imagem.

[Post 3950]

Tradução: «bullying»

Outra forma


      Já aqui vimos várias tentativas de tradução do anglicismo bullying. Mais uma, e não das piores: «Uma menina inglesa de 12 anos morreu nos braços do pai após ter chegado a casa queixando-se de dores no peito. A criança, que sofria de asma, poderá ter sido vítima de uma perseguição (bullying) dos colegas de escola, que durava já há alguns meses» («Menina morre sob suspeita de alvo de bullying», Jornal de Notícias, 7.10.2010, p. 44).

[Post 3949]

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