Abdalá e aiatola

Assim é que é


      «“A Rainha passará duas noites no hospital e deverá regressar à Jordânia ainda no decorrer desta semana”, indica o texto. A Rainha da Jordânia acompanhou o Rei Abdalá II na sua visita a Nova Iorque, onde efectuou uma intervenção nas Nações Unidas» («Rainha Rania da Jordânia foi operada», Diário de Notícias, 28.09.2010, p. 55).
      Deve ser dos poucos jornais portugueses que dão este ar aportuguesado ao nome do rei Abdullah II ibn Al Hussein. Muito mais ridículo era (ou faziam crer que era) aportuguesar ayatollah, e eis que actualmente já se vai vendo por todo o lado aiatola (que, ó descuido!, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa reconhece mas não regista). Tempos ominosos esses, em que se acreditava que o título era nome próprio.

[Post 3924]

Júri/jurado

Não vá alguém pensar


      «Outra coisa é alguém do alto de um poder, como ser júri dos Ídolos, na Sic, se permitir humilhar publicamente (é na tevê) gente cuja culpa é só estar iludida sobre os seus dotes» («Um supor para explicar os ‘Ídolos’», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.09.2010, p. 60). Na mesma crónica, mais adiante, o jornalista mostra, sem nunca usar a palavra «jurado», conhecer o conceito de «júri» (cujo verbete no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisa de uma nova e melhor redacção), mas, na frase citada, há erro. O pronome alguém (de resto muito especial, dado o seu uso como substantivo) não designa uma pessoa ou alguma pessoa cuja identidade não é especificada ou definida? Singular. Logo, não há um alguém que possa ser júri, apenas integrar um júri.

[Post 3923]

Como se escreve nos jornais

Bem e mal


      «No aniversário do golpe e contra-golpe conhecidos, no PREC, por “maioria silenciosa”, a Lusa difundiu novas e emocionantes declarações do “doutorado em Sociologia pela Universidade de Genebra” António Barreto, que integra, pela Direita (pela Esquerda ataca Boaventura Sousa Santos), a minoria barulhenta de tudólogos que jornais e TVs ouvem a propósito de tudo e de nada, principalmente de nada. A preferência dos media pela tudologia de tipo oracular praticada por Barreto e congéneres explica-se pela sua inesgotável capacidade para produzir manchetes capazes de “épater les bourgeois”» («Depois dele, o Dilúvio», Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 29.09.2010, p. 56).
      Tudólogo e tudologia são achados, sem dúvida, mas não compensam os erros e más opções. Desde logo, é contragolpe que se escreve. Entre TV’s e TVs, venha o Diabo e leve as duas mais os media. Quanto ao antipoético ódio (e inveja?) que ressuma cada sílaba, não cabe tratar neste blogue, pois não é matéria linguística.

[Post 3922]

Tradução: «prester»

Vejam lá


      Desde pequenos que ouvimos falar da lenda do Preste João das Índias, um rei cristão nestoriano (o nestorianismo negava a maternidade divina de Maria, fazendo a distinção entre as naturezas divina e humana de Cristo) chamado João, cujo império estaria situado na Ásia, segundo uns, ou em África, segundo outros. D. João II até mandou para África dois emissários a esse rei que nunca foi encontrado. Ultimamente, é mesmo já o terceiro caso em escassos meses, vejo em traduções do inglês — Prestes João. É preste que se escreve, que talvez venha do francês antigo prestre (no francês actual é prêtre). Prestes, adjectivo e advérbio, também existe, sim, mas não devem ser confundidos. Como me parece ser um erro muito específico de tradução, preferi então enquadrá-lo nesta categoria.

[Post 3921]

Léxico: «catamito»

Acrescentem este


      A personagem contratou um neto do gondoleiro veneziano de Byron, e seu pimp and catamite, lê-se no original. O problema é que nem todos os dicionários registam a palavra: está ausente, por exemplo, do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. (Sim, que vergonha.) Em contrapartida, o Dicionário Houaiss e o Aulete Digital registam-no. Deriva de um nome próprio, lê-se neste. Mais nada. Catamitus era o nome latino de Ganimedes. Estas lacunas explicarão, em parte, porque escreveu o tradutor «catamita». Ah, sim: catamito é o homem efeminado e o homossexual.

[Post 3920]

Dezenove/dezanove

Pequena diferença


      «— Vamos lá. Os navios Raio e Lúcifer ancoraram nas alturas das Antilhas. Esperaram dezoito dias em calmaria. Ao dezenove houve vento de servir. Levantaram, e fizeram-se de vela até vinte milhas de Cuba. Os navios espanhóis apareceram. Eram três. Foram abordados com pequena resistência. Carregavam sedas e porcelanas» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 261).
      É possível (mas esta edição, apesar de cuidada, tem gralhas) que Camilo tenha escrito dezenove, mas essa grafia do numeral é para nós um brasileirismo. Contudo, está mais próximo dos elementos de formação: dez+e+nove. E mais próximo, também, do espanhol: diecinueve (a que se junta a grafia, mais usada antigamente, diez y nueve).

[Post 3919]

Revisão

Desunião ibérica


      E ainda um dia aparecerá um revisor com ganas de aspar qualquer vestígio de castelhanismo ou tudo que o semelhe na obra de Camilo. Dou-lhe já, a esse ignoto carrasco, como pábulo algumas frases mais suspeitas de Camilo, e coligidas somente nos Mistérios de Lisboa.
      «Imaginei-me com um braço quebrado, com uma gonilha ao pescoço, com oito dias de pão e água, com o ódio do padre eternamente irritado contra mim» (p. 52). Por causa da gonilha, que podia ser golilha, golilla. «A aparição improvisa da mãe a um filho, que sente pulsar no seu um coração cuja existência ignorava — uma surpresa assim, traz consigo um terror santo, que deve ser a preexistência do homem na presença de Deus» (p. 62). É ler Cervantes, se se quer ver «improvisos» e «improvisas». «Um, porém, prendia-me a atenção mais que os outros, por isso que o bruxulear da lâmpada projectava às vezes um relâmpago fugitivo por sobre a escuridade da moldura» (p. 84). Escuridad, obscuridad. «Minha mãe levantou-se, e caminhou com firmeza, mas calada, e recolhida, como se continuasse ainda a sua prática com os espíritos invisíveis» (p. 108). Não faltam, em Cervantes, pláticas, para nosso gosto (gusto?). «Apenas os vestígios da maceração desapareceram da face de D. Ângela de Lima, o conde, recebido em casa de seu futuro sogro, encontrou um sorriso nos lábios da filha» (p. 189). Também suspeito. Apenas, mal... «Alberto de Magalhães viera do Brasil. Quando, e donde fora, ninguém o sabia, nem ele dava lugar a perguntarem-lho» (p. 252). Ainda mais suspeito. «Vi-a chorar, cruzei as pernas, e roí as unhas com o donaire de um cínico enfastiado» (p. 305). A machadada final. Mas há mais, muito mais, mas esse negregado revisor sempre poderia socorrer-se da perspicácia do revisor antibrasileiro.

[Post 3918]

Crudelíssimo/cruelíssimo

Um Camilo corrigido


      Camilo escreveu «cruelíssimas», mas a revisora queria que fosse «crudelíssimas». «Estavam ambos suspensos, silenciosos, sublimes, e recopilando em um rápido pensamento uma síntese de dores cruelíssimas acordadas na reminiscência por aquele encontro» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, pp. 235-36).
      (E vejo que o Flip 7 não reconhece o verbo, agora caído em desuso, recopilar.)

[Post 3917]

Arquivo do blogue