Selecção vocabular

Fill a gas tank


      A crónica de hoje de Rui Tavares no Público começa bem: «Na linguagem de todos os dias, escolhemos as palavras apenas pela casca» («Princípios/valores», Rui Tavares, Público, 22.09.2010, p. 40). Depois, porém, e como já aqui vimos, há uns deslizes. Mais um exemplo: alguém diz que vai encher o tanque do carro? Rui Tavares, ao que parece, diz e escreve: «Se desejamos que nos entreguem um documento ou encham o tanque de gasolina, tanto se nos dá que seja a Ana ou o Sérgio a fazê-lo.» Parece a interferência do inglês, gas tank, a fazer-se sentir.

[Post 3898]

«Tequila» e outras coisas

Para rir


      Ao ler no Público uma notícia relativa ao encontro entre o rei de Marrocos, Mohamed VI, e o primeiro-ministro espanhol em que debateram os vários conflitos que opuseram, neste Verão, as autoridades dos dois países, vi que, era inevitável, um dos pontos de discórdia foi a cidade autónoma de Melilla. Lembrei-me então de um erro muito comum: pronunciar a palavra espanhola tequila como se tivesse dois ll. Não tem. Este vocábulo não tem a letra, ou dígrafo, melhor dizendo, ll (elle, em espanhol), que faz parte do alfabeto espanhol desde 1803, mas a letra l. Em 1994, no X Congreso de la Asociación de Academias de la Lengua Española, convencionou-se que os dígrafos ll e ch (che, em espanhol) deixariam de figurar como letras independentes na ordenação alfabética de dicionários e bibliografias. Claro que não estou à espera de que estes falantes apressados de todas as línguas saibam isto. Como decerto gostam de informação mais ligeira, aqui vai: o nome da letra q é cu: «cu de queso». Última anedota: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «tequila» e «tequilha».

[Post 3897]

«Replicar», de novo

Vamos ver


      Não se trata propriamente de um uso espraiado, mas, depois de já aqui o termos visto num artigo do Diário de Notícias, ei-lo no Público: «O secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, defendeu mesmo, na apresentação do projecto, que esta “solução inovadora” deve ser replicada pelo país» («Autarquia da Amadora e imobiliária vão fazer do Dolce Vita Tejo um interface de transportes», Inês Boaventura, Público, 22.09.2010, p. 27).
      Talvez valha mais a pena dizer duas coisas de interface. Primeira: neste momento, é consensual que o género de «interface» é feminino. Segunda: há muito que é assumida, decerto que devido aos elementos latinos por que é formada, como palavra portuguesa. Logo, é dispensável o itálico.

[Post 3896]

Ortografia: «picuinhas»

Coisas de galinhas


      «Mas “princípios” e “valores” transportam consigo metáforas muito diferentes (não querendo ser picuínhas, “metáfora” quer já dizer “transporte”: é o que os gregos escrevem nos camiões de mudanças)» («Princípios/Valores», Rui Tavares, Público, 22.09.2010, p. 40).
      Não quero ser picuinhas, mas é picuinhas que se escreve, sem acento agudo, porque não precisa dele, pois a semivogal i vem seguida do dígrafo nh da sílaba seguinte, que a anasala, levando-a a formar por si só uma sílaba. De qualquer modo, devo dizer que, estranhamente, o FLIP 7 deixa passar assim com o acento.
      Tanto quanto sei, os Brasileiros ignoram este vocábulo. Têm e usam, isso sim, o vocábulo picuinha: o primeiro piado das aves; dito picante, mordaz, malévolo; remoque; piada, piqueta, piquetada; atitude ou dito cujo intuito é contrariar, aborrecer outrem; pirraça, provocação; hostilidade um tanto gratuita, desconfiança, implicância, cisma».

[Post 3895]

Sigla SIV

Mais um trabalho


      A propósito do RIP, lembrei-me de mais uma sigla equívoca que anda agora por aí nos jornais: «Uma conclusão a partir depois de um estudo genético ao vírus da imunodeficiência símia (SIV) encontrado em macacos na ilha africana de Bioko e que ficou separada do continente depois da glaciação. Há mais de 10 mil anos» («Vírus da sida tem 32 mil a 75 mil anos», Diário de Notícias, 20.09.2010, p. 27).
      Foi preciso anos até os jornalistas escreverem VIH em vez de HIV. Agora, vão ser necessários outros tantos para que escrevam VIS em vez de SIV. É um trabalho, não hercúleo, mas infindável.

[Post 3894]

Tradução: «pallbearer»

Imagem tirada daqui
RIP

      Nascem, vivem, morrem — tal como os seres vivos. E tal como sucede em relação a estes, por vezes só os apreciamos devidamente quando já não estão entre nós. Numa revisão, dou-me conta de que não temos uma palavra para traduzir o vocábulo inglês pallbearer. «Transportador de caixão», regista, de forma equívoca, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Contudo, já tivemos uma palavra que correspondia de forma unívoca: corpoferário. Caiu, é claro, em desuso. (Não, é verdade, para o Dicionário Houaiss.) Puxando pela memória e pelos apontamentos, vejo que já encontrei pallbearer por gato-pingado. Contudo, este termo serviu para designar o indivíduo pago para acompanhar enterro a pé, empunhando uma tocha. Por extensão de sentido, em Portugal, mas creio que não no Brasil, gato-pingado passou a designar também o agente funerário, o papa-defunto. Ora, o pallbearer, o corpoferário, é muitas vezes uma pessoa da família do defunto.

[Post 3893]

Tradução

Levante-se o arguido


      Creio que podem imaginar a dificuldade que muitos tradutores têm em verter para português uma frase em inglês que refira barristers e solicitors. Já nem me refiro à má tradução desta última, que muitas vezes ocorre mesmo quando o vocábulo surge isolado. De qualquer modo, os termos ligados ao mundo jurídico-legal, como, naturalmente, os referentes a outras áreas, não raro são mal traduzidos. Um bailiff, por exemplo, mesmo que a história decorra na actualidade, é muitas vezes um «meirinho». Considerem agora esta frase e os erros em que pode induzir: «The walk offered him a chance to think about the case he was working on at the time, to deliberate privately without the interference of barristers, solicitors, bailiffs or defendants.»

[Post 3892]

English Channel

Manchas e mangas


      «If he could go back twenty years, he wondered, would he have jumped overboard as the ship passed through the English Channel or would he have come anyway and faced what was to come?» E como é que o tradutor verteu English Channel, adivinham? Pois é: Canal Inglês. Um erro incrível. Até preferia que fosse um desses lunáticos que querem corrigir a História e dissesse que era o Canal da Manga. Como os Alemães, ÄrmelKanal, os Franceses, La Manche, e os Italianos, La Manica.

[Post 3891]

Arquivo do blogue