Verbos pronominais

É doença, é grave


      «Oiça esta: “Muitos ter-se-ão já questionado...” “Ter-se-ão” existe, claro, mas não se pode usar aqui. Será antes: “Muitos terão já questionado...”» Nada de pronominais, portanto. Assim se constrói a biografia de um homem. Já sabem qual.

[Post 3875]

Plural: «navajos»

Índios e aurículas


      Na página dos obituários, sob a fotografia de um velhote com cara de rato, lia-se o seguinte: «Foi um dos 29 índios navajo que eram operadores de rádio na frente do Pacífico, na II Guerra Mundial. Eles comunicavam no seu próprio dialecto, o que enganou os adversários japoneses que pensavam tratar-se de uma língua codificada ou encriptada» («Allen Dale June», Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 49).
      Não acham que ficava melhor escrever «índios navajos»? Há menos tempo os estudantes de Teologia afegãos, mais dados a empunhar as armas que a sobraçar os livros, contaminam a Terra e já vocês lhes chamam talibãs. Ao que parece, o uso do dialecto só enganou os adversários japoneses que pensavam tratar-se de uma língua codificada ou encriptada. Não enganou os outros, japoneses ou não. Demasiado subtil? Fica com a etiqueta «pontuação».
      A propósito de estudantes de Teologia, gostaria de poder dizer alguma coisa sobre aquela obra de ficção em que se pergunta: «Do not nasty little seminarians still refer to a woman’s sine qua non as auricula—the ear?» Mas ainda não posso. Isto a propósito de emprenhar pelos ouvidos.

[Post 3874]

Neologismo: «homoafectividade»

Novidades


      «A relação da Igreja Católica com os novos modelos de famílias, onde impera a homoafectividade, é apenas um dos seus [de Luís Corrêa Lima] temas de estudo» (“Deus criou os homossexuais”», Nuno Miguel Ropio, Jornal de Notícias, 12.09.2010, p. 26).
      É só um eufemismo ou melhorativo forjado ou pretende-se mesmo dizer mais do que as palavras que sempre usámos transmitem? Pelo que vejo, há muitos cientistas sociais, ligados ao estudo da sexualidade, a usarem-no. E quem o usa também usa este: «Com 48 anos, Corrêa Lima desenvolve estudos que invertem o paradigma da heteronormatividade universal» (“Deus criou os homossexuais”», Nuno Miguel Ropio, Jornal de Notícias, 12.09.2010, p. 26).

[Post 3874]

Pontuação

Vírgulas fugitivas


      Já aqui exalcei o olho clínico (potenciado, recentemente, e assim prosaicamente desmetaforizado, com uns implantes intra-oculares — pista preciosa para um Dr. Richard Kimble lhe descobrir a identidade, a não ser que prefiram vê-lo como um alter ego meu) do revisor antibrasileiro para as repetições. Com as lentes, também recentemente, porque me lembro de conversas em que ele afirmava o contrário, foi-lhe implantado no cérebro a necessidade de um matiz na pontuação dos complementos circunstanciais de lugar. Apareceu a seguinte frase: «Em Braga, substituiu Jorge Costa em Novembro e, nos seus primeiros três jogos, somou 7 pontos, mas depois não conseguiu garantir um lugar europeu, terminando a 12 pontos de um V. Guimarães que foi 3.º classificado.» Que não, que a acção e o lugar estão tão intimamente ligados, argumentou, preleccionou, tentou convencer, que não pode haver ali vírgula, e, assim, emendou desta maneira: «Em Braga substituiu Jorge Costa em Novembro e, nos seus primeiros três jogos somou 7 pontos, mas depois não conseguiu garantir um lugar europeu terminando a 12 pontos de um V. Guimarães que foi 3.º classificado.» Isto convence alguém? Suspeito que nem o próprio sai convencido nem os demais persuadidos.

 
[Post 3873]

«Ground Zero», de novo

Maior escolha


      Na edição de anteontem do Jornal de Notícias, podia ler-se que «2000 trabalhadores da construção civil dedicam-se à reconstrução da Zona Zero, sete dias por semana» («Tensões islâmicas marcam os nove anos do 11 de Setembro», Cláudia Luís, Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 47). No Público, ainda continua a experimentar: «Promotor do diálogo inter-religioso, Akbar Ahmed defende salomonicamente que o polémico centro islâmico aprovado junto ao Ground Zero, em Nova Iorque, não deve ser construído naquele local — é um dos raros muçulmanos a ter esta posição» («Com a nova mesquita ao pé do Ground Zero, os muçulmanos estão a desafiar a identidade americana», Kathleen Gomes, «P2»/Público, 10.09.2010, p. 4). «Em vez disso, vai encontrar-se com o imã responsável pelo controverso centro islâmico projectado para as imediações do Ground Zero, em Nova Iorque» («Pastor da Florida desiste de queimar o Corão e quer agora afastar mesquita do Ground Zero», Ana Fonseca Pereira, Público, 10.09.2010, p. 15). Tal como no Diário de Notícias: «A distância entre o futuro centro comunitário muçulmano e o ground zero é de 200 metros e esta proximidade gerou uma discussão sobre a responsabilidade do terrorismo islâmico no 11 de Setembro e os limites da tolerância religiosa na América» («Primeiras vítimas no caso da queima do Alcorão», Luís Naves, Diário de Notícias, 11.09.2010, p. 26). Mas também assim: «Perante a anunciada queima de exemplares do Alcorão, “represália” prévia de um pastor americano à hipotética construção de uma mesquita junto ao Ground Zero, por todo o Ocidente inúmeras almas horrorizadas perguntaram: o que aconteceria se muçulmanos queimassem a Bíblia ou a Tora?» («Os fogos do Alcorão», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 63).
      Um destes jornalistas é um dos 55 seguidores que tenho no Twitter, e por isso há-de, pelo menos, reflectir nesta falta de critério.

[Post 3872]

Sobre «graffiti», de novo

Há sempre pior


      É o que podemos concluir: «O plano da Câmara Municipal de Lisboa tem como objectivo limpar as tags (rabiscos e assinaturas a marcador) e grafitis (pinturas a spray) que nos últimos anos têm sido uma praga no Bairro Alto» («Bairro Alto tenta limpar a cara», Cristiano Pereira, Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 16). E mais: «A intervenção decorre em duas fases distintas. Na primeira, realiza-se a recuperação do suporte ao nível do piso térreo, nomeadamente das fachadas, vãos de portas e janelas, com reparação dos rebocos, caixilhos, carpintarias e limpezas de cantarias, passando à manutenção das áreas recuperadas e protegidas com tratamento antigrafiti.» E, quer eles queiram quer não, são grafiteiros: «Perante esta realidade crescente dos grafitis nas paredes de Lisboa, a Câmara criou uma Galeria de Arte Urbana [GAU] que pretende ser um espaço para que os grafiteiros possam, legalmente, dar asas à sua imaginação.»

[Post 3871]

Léxico: «pneumotórax»

Falha do consultor


      Uma onda gigante «abalroou», nas palavras do jornalista, oito pescadores que estavam no paredão da Cova do Vapor. «“Um deles suspeita-se que tivesse alguma costela partida, outro tinha uma fractura no braço e um outro por ter batido com o peito nas rochas provavelmente tinha um pneumotórax”, disse [Luís Vitorino, coordenador da associação Caparica Mar]» («Onda gigante atira ao mar oito pescadores», S. B., Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 19).
      Se recorrermos ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, até podemos pensar que é mais um erro dos jornalistas: «Pneumotórax MEDICINA método de tratamento da tuberculose pulmonar pela introdução de azoto na pleura para provocar a compressão e a retracção do pulmão e, finalmente, a cicatrização das lesões pulmonares.» O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, no respectivo verbete e logo na primeira acepção, regista: «Acumulação de gases na cavidade pleural.» Se queremos saber mais, consultamos, por exemplo, a Medipédia. De maneira que, senhores da Porto Editora, está na altura de corrigirem acrescentando a acepção.

[Post 3870]

Alguém/ninguém

Sem tirar nem pôr


      D. Francisco Manuel de Melo (1608–1666) escreveu, nas Cartas Familiares, «sem que ninguém lho ache», mas o revisor antibrasileiro acha que «sem que ninguém» é erro crasso e que se deve dizer e escrever «sem que alguém». Em épocas mais recuadas, o uso da dupla negativa era talvez mais vulgar, com recurso ao advérbio «não» ou, como no caso acima, à preposição «sem», mas a língua portuguesa continua a ser, porque o é matricialmente, uma língua de dupla negação.

[Post 3869]

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