Dizer-se

Maldita obsessão


      «Cândida Almeida e os dois magistrados, Vítor Magalhães e Paes Faria, assinaram uma nota conjunta em que se disseram alvo de uma “campanha insidiosa”» («Documento falso no caso Freeport», Eduardo Dâmaso, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 28). É uma legenda de duas fotografias daqueles magistrados, e o revisor antibrasileiro virou a página para mim e apontou-a. «Veja bem: “se disseram”!» Apresentou logo alternativas de redacção. Encolhi os ombros. Para quê? No Dicionário Houaiss, dizer-se: «declarar-se; qualificar-se. Exs: diz-se um grande orador. Dizia-se incapaz de assumir o cargo». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dizer-se: «intitular-se; chamar-se; considerar-se».

[Post 3868]

Países Baixos

Plural, of course


      Um ex-soldado canadiano visita, alguns anos depois, os campos de batalha da Grande Guerra. «Unrecognizable, of course. Neat and trim in the manner of the Low Countries.» «Claro que estavam irreconhecíveis. Estavam limpos e arranjados, à maneira dos Países Baixos.» Como se vê, também os anglo-saxónicos se referem no plural àquele país: Low Countries. Lembrei-me desta entrada aqui.

[Post 3867]

Plural «graffiti»

Falta algo


      «Os graffitis estão do lado da Cisjordânia, a umas dezenas de metros do check-point da estrada para Jerusalém» («O muro», Humberto Lopes, Jornalismo&Jornalistas, n.º 43, p. 66).
      Bonita publicação, sim senhor, mas falta-lhe o toque de um revisor... Já aqui vimos que o plural é graffiti. Conheço um disléxico que, nesta circunstância, diria: na melhor nódoa cai o pano. Desçamos o pano.

[Post 3866]

Léxico: «directa»

Ajuízem bem


      «Ana Peres faz directa para entregar acórdão» (Ana Luísa Nascimento/Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 6).
      Os Brasileiros, tanto quanto sei, não dizem da mesma forma. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista este termo coloquial: «noite em que não se dorme e que geralmente se dedica a uma actividade recreativa ou profissional; noitada». Claro que o que se faz de noite, de dia aparece. E mais: à noite põe-se muito bacelo, de manhã está todo murcho. Se aqui estivesse Sancho Pança, diria mais. Só falta mesmo o acórdão ver a luz do dia.
      E a propósito de juízes. Ando a ler uma tradução do inglês e o Your Honour é sempre traduzido por... *meretíssimo. A dissimilação a ter expressão na escrita. Interessante. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no respectivo verbete, só regista isto: «muito digno e merecedor de respeito». Pois é, e a indicação de que se trata também de uma forma de tratamento dada aos juízes de direito?

[Post 3865]

Tetuão, de novo

Qual deles o pior


      Página 1000 do Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves: «Tetuão, top.» O FLIP desfaz-me a escrita e escreve «Teutão». Ah, ah, ah. Outra variante encontrada no Diário de Notícias: «A voz de Tânia, dez anos, mal se ouve. Está numa cama do Hospital Mohamed VI, Tétouan» («“Fiquei agarrada pelo cinto”», Diário de Notícias, 10.09.2010, p. 6). E no Correio da Manhã: «Visitou ainda os restantes três feridos internados no Hospital de Ceuta e no dia anterior os mais graves em Tétuan, onde estavam internados nove feridos, sendo que cinco foram ontem transferidos num avião comercial para Lisboa» («“Sonho acabou em tragédia”», Rui Pando Gomes, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 12).

[Post 3864]

Léxico: «aríete»

À marrada


      «“Foi preciso chegar aos 96 anos para ser tratada como uma criminosa”, disse ontem ao CM com ironia a idosa, na altura em que a PSP se encontrava a arranjar as portas que foram arrombadas com um aríete metálico» («GOE invade casa de idosa por erro», Luís Oliveira, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 16).
      Neste caso, prefiro a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «antiga máquina de guerra formada por uma viga grossa e comprida, com uma cabeça de carneiro esculpida na extremidade, que era utilizada para derrubar portas e muralhas». Em astronomia e em astrologia, Carneiro não se diz também muitas vezes Áries? E mais: ao aríete, e neste caso é o Dicionário Houaiss a lembrá-lo, também se deu o nome de áries. O étimo é o vocábulo latino arĭes,ĕtis, «carneiro». Logo, os polícias arietaram, por engano, a porta da idosa. O étimo de arietar é o verbo latino arietāre, «marrar». E relativo a carneiro diz-se arietino, como já aqui tínhamos visto.

[Post 3863]

Léxico: «desfaçado»

Dá jeito saber


      Aquele que usa de desfaçatez é um... é um... Então, não respondem? Desfaçado! A primeira abonação na língua dá-a o Dicionário Houaiss como tendo sido em 1536 e indica como étimo provável o espanhol antigo desfazado, «descarado», de faz, «face, cara, rosto». Pois é, mas, entre os estudiosos do espanhol, desfazado (actualmente, desfachatado) é tido como proveniente do vocábulo italiano sfacciato, que significa «desavergonhado, descarado, insolente». Ou seja, não se formou na língua. Sfacciato: «Privo di rispetto e di pudore: comportamento s.; eccessivamente indiscreto e impertinente: non essere sfacciato!», regista o Sabatini Coletti.

[Post 3862]

Ortografia: «Tetuão»

Vendidos


      Acabei de ouvir no noticiário da Antena 1. Nos jornais, não se lê outra coisa: «Em Tetouan encontram-se onze passageiros do paquete Funchal que ficaram feridos no acidente, que provocou nove mortos» («Corpos das vítimas transladados esta tarde para Portugal», Diário de Notícias, 9.09.2010). Por um lado, escrevem Duisburgo e Magaliesburgo — e acho bem, já aqui o afirmei —, sem tradição entre nós, por outro, optam pela grafia francesa, Tetouan, em detrimento da que se usou durante séculos em Portugal, Tetuão. Haja paciência.
      Trata-se, mais uma vez, de opções de transcrição. Actualmente, as autoridades marroquinas preferem, por razões políticas óbvias, Tetouan, mas, como para Espanha continua a ser Tetuán, para nós não deixa de ser Tetuão.

[Post 3861]

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