Sobre «mina»

Uma acepção quase perdida


      Os dicionários vão ficando cada vez mais pobres. Onde pára a acepção do vocábulo mina relativo à galeria subterrânea que se abre nos sítios das praças, pondo no fim dela uma recâmara cheia de pólvora ou outro explosivo para que, dando-lhe fogo, arruíne as fortificações? Só no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mas muito mal explicado e redigido: «Fortif. Cavidade que (cheia de pólvora) faz ir pelos ares o que há por cima.» Bem, também, admito, o Dicionário Houaiss, e, aliás, com uma redacção suspeitamente semelhante, e por isso igualmente mal explicado.

[Post 3741]

Verbos pronominais

Decidir-se por


      O revisor antibrasileiro voltou ontem a afirmar pernóstica e categoricamente que a forma como os Brasileiros escrevem e falam tem contribuído decisivamente para a degradação da língua portuguesa. Há ali, nada me desconvence, qualquer trauma, e menos latente que efervescente. Pouco falta, se algo falta, para negar a existência de verbos pronominais na língua portuguesa. «Veja aqui: “O presidente decidiu-se pela dissolução do clube.” “Decidiu-se”! Já não é “decidiu pela”.» Não me mostrei bisonho e disse-lhe que eu me decidia pela pronominalização. Amochou. («Retraiu-se», diria, se ele não se melindrasse com o se inerente.)

[Post 3740]

Sobre «esguízaro»

Vejam lá


      Levado por semelhanças e fiado nas aparências, o tradutor do espanhol até pode traduzir esguízaro por janízaro. Já vi... O contexto e a raridade do vocábulo podem levar a isso. Ora, se os modernos dicionários de espanhol só lhe fazem corresponder o sinónimo «suíço», é preciso lembrar que é algo mais do que isso. O DRAE di-lo provindo do alto alemão médio Swîzzer. A verdade é que provém de sguizzero, «da Suíça». Sguizzero é vocábulo dialectal romanesco por svizzero, «suíço». O termo, contudo, e isto é, a meu ver, o mais importante, utilizou-se sobretudo em referência aos elementos da Guarda Suíça Pontifícia, o corpo de guarda encarregado, desde 1506, de escoltar e proteger o papa.

[Post 3739]

Sobre «bisonho»

Quase, quase


      Abram aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) na página 240. Bisonho. «inexperiente; inábil; (soldado) não exercitado); principiante; acanhado; tímido». Vem do castelhano bisoño, «inexperiente», do italiano bisogno, necessidade».
      Actualmente, em termos de uso, prevalece a última acepção, «acanhado; tímido». Interessa-me agora, porém, a etimologia. Na época de Cervantes (1547—1616), era um dos muitos italianismos em castelhano. Era o termo, que designava de facto o soldado novo e inexperiente, com que os italianos se referiam, ironicamente, aos soldados espanhóis recém-chegados a Itália — o que mais tarde se chamou Itália, pois só no século XIX Massimo D’Azeglio (1798—1866), destacadíssimo dirigente do Reino unificado de Itália, pôde afirmar: «L’Italia è fatta, ora van fatti gli italiani.» Ora em 1502, os Reis Católicos enviaram o exército espanhol (o mais numeroso e heteróclito da Cristandade, com espanhóis, italianos, alemães, valões, etc.), comandado pelo grão-capitão Gonzalo de Córdoba, a Itália. Quando precisavam de qualquer coisa, os soldados do exército espanhol dirigiam-se aos italianos com um escasso «io bisogno», «preciso»...

[Post 3738]

Tese e dissertação

Imagem do Correio da Manhã

Muito prazer


      «Ana Marques faz parte das Maxgirls, tem 24 anos, é natural do Porto e vive em Cascais. Licenciada em Design de Ambientes, é quase mestre nessa área. Falta-lhe apenas concluir a tese mas, segundo Ana, pode esperar, e a música não» («“Trago os amores comigo...”», Dina Gusmão, Correio da Manhã, 28.07.2010, p. 44).
      Ela é que disse isso, ou foi a senhora jornalista que o concluiu? Bem, até os dicionários, pelo menos alguns, lhes dão razão. Contudo, já aqui o vimos, tese é de doutoramento, ficando reservado para o mestrado a dissertação.

[Post 3737]

Adjectivos truncados

Trunca


      «Em contrapartida, a aliança britânica-francesa-norueguesa-polaca conseguiu a 28 de Maio, no norte [sic], reconquistar Narvik» (A Segunda Guerra Mundial, Gerhard Schreiber. Tradução de Luís Covas e revisão de Eda Lyra e Texto Editores. Alfragide: Texto Editores, 2010, p. 37).
      Não é questão nova aqui. Eu truncaria os três primeiros adjectivos e escreveria: anglo-franco-noruego-polaca.

[Post 3736]

«Statu quo»

Bastardias linguísticas


      «Aquele tinha em mira o status quo, definido pelas potências vitoriosas para a Europa em 1919-1920, e fixado em vários acordos pelos Estados participantes na conferência de Washington (entre 12 de Novembro de 1921 e 6 de Fevereiro de 1922) para o Extremo Oriente» (A Segunda Guerra Mundial, Gerhard Schreiber. Tradução de Luís Covas e revisão de Eda Lyra e Texto Editores. Alfragide: Texto Editores, 2010, p. 13).
      Vimos aqui recentemente como o latim anda abastardado por cá. Os Ingleses que escrevam como lhes aprouver, nós devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o estado em que as coisas estavam antes da guerra. Na Texto Editores, já agora, podiam dar uso aos dicionários que editam: o Dicionário Integral da Língua Portuguesa (Texto Editores, 2009) regista na página 1526 statu quo. Ou agora andam a estragar todas as línguas e mais alguma?

[Post 3735]

Khmers/khmers

Afinal, talvez me leiam


      No Público, tudo continua na mesma: «Duch, o homem que geriu “com precisão matemática” a mais temida das prisões dos khmer vermelhos, foi ontem condenado a 35 anos de prisão por um tribunal especial do Camboja» («Sentença de Duch: “11 horas por cada morto” na prisão S-21», Público, 27.07.2010, p. 10). No Diário de Notícias, lá concederam que aquele ezinho era indefensável, e passaram a escrever de outra forma: «O tribunal internacional encarregue de julgar os crimes do regime comunista dos Khmers Vermelhos no Camboja condenou ontem a 30 anos de prisão, por crimes de guerra e contra a humanidade, o responsável da principal prisão de Phnom Penh, onde foram mortas ou torturadas mais de 15 mil pessoas entre 1975 e 1979» («Torcionário khmer recebe pena de 30 anos de prisão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 27.07.2010, p. 22).

[Post 3734]

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