Sobre «esguízaro»

Vejam lá


      Levado por semelhanças e fiado nas aparências, o tradutor do espanhol até pode traduzir esguízaro por janízaro. Já vi... O contexto e a raridade do vocábulo podem levar a isso. Ora, se os modernos dicionários de espanhol só lhe fazem corresponder o sinónimo «suíço», é preciso lembrar que é algo mais do que isso. O DRAE di-lo provindo do alto alemão médio Swîzzer. A verdade é que provém de sguizzero, «da Suíça». Sguizzero é vocábulo dialectal romanesco por svizzero, «suíço». O termo, contudo, e isto é, a meu ver, o mais importante, utilizou-se sobretudo em referência aos elementos da Guarda Suíça Pontifícia, o corpo de guarda encarregado, desde 1506, de escoltar e proteger o papa.

[Post 3739]

Sobre «bisonho»

Quase, quase


      Abram aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) na página 240. Bisonho. «inexperiente; inábil; (soldado) não exercitado); principiante; acanhado; tímido». Vem do castelhano bisoño, «inexperiente», do italiano bisogno, necessidade».
      Actualmente, em termos de uso, prevalece a última acepção, «acanhado; tímido». Interessa-me agora, porém, a etimologia. Na época de Cervantes (1547—1616), era um dos muitos italianismos em castelhano. Era o termo, que designava de facto o soldado novo e inexperiente, com que os italianos se referiam, ironicamente, aos soldados espanhóis recém-chegados a Itália — o que mais tarde se chamou Itália, pois só no século XIX Massimo D’Azeglio (1798—1866), destacadíssimo dirigente do Reino unificado de Itália, pôde afirmar: «L’Italia è fatta, ora van fatti gli italiani.» Ora em 1502, os Reis Católicos enviaram o exército espanhol (o mais numeroso e heteróclito da Cristandade, com espanhóis, italianos, alemães, valões, etc.), comandado pelo grão-capitão Gonzalo de Córdoba, a Itália. Quando precisavam de qualquer coisa, os soldados do exército espanhol dirigiam-se aos italianos com um escasso «io bisogno», «preciso»...

[Post 3738]

Tese e dissertação

Imagem do Correio da Manhã

Muito prazer


      «Ana Marques faz parte das Maxgirls, tem 24 anos, é natural do Porto e vive em Cascais. Licenciada em Design de Ambientes, é quase mestre nessa área. Falta-lhe apenas concluir a tese mas, segundo Ana, pode esperar, e a música não» («“Trago os amores comigo...”», Dina Gusmão, Correio da Manhã, 28.07.2010, p. 44).
      Ela é que disse isso, ou foi a senhora jornalista que o concluiu? Bem, até os dicionários, pelo menos alguns, lhes dão razão. Contudo, já aqui o vimos, tese é de doutoramento, ficando reservado para o mestrado a dissertação.

[Post 3737]

Adjectivos truncados

Trunca


      «Em contrapartida, a aliança britânica-francesa-norueguesa-polaca conseguiu a 28 de Maio, no norte [sic], reconquistar Narvik» (A Segunda Guerra Mundial, Gerhard Schreiber. Tradução de Luís Covas e revisão de Eda Lyra e Texto Editores. Alfragide: Texto Editores, 2010, p. 37).
      Não é questão nova aqui. Eu truncaria os três primeiros adjectivos e escreveria: anglo-franco-noruego-polaca.

[Post 3736]

«Statu quo»

Bastardias linguísticas


      «Aquele tinha em mira o status quo, definido pelas potências vitoriosas para a Europa em 1919-1920, e fixado em vários acordos pelos Estados participantes na conferência de Washington (entre 12 de Novembro de 1921 e 6 de Fevereiro de 1922) para o Extremo Oriente» (A Segunda Guerra Mundial, Gerhard Schreiber. Tradução de Luís Covas e revisão de Eda Lyra e Texto Editores. Alfragide: Texto Editores, 2010, p. 13).
      Vimos aqui recentemente como o latim anda abastardado por cá. Os Ingleses que escrevam como lhes aprouver, nós devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o estado em que as coisas estavam antes da guerra. Na Texto Editores, já agora, podiam dar uso aos dicionários que editam: o Dicionário Integral da Língua Portuguesa (Texto Editores, 2009) regista na página 1526 statu quo. Ou agora andam a estragar todas as línguas e mais alguma?

[Post 3735]

Khmers/khmers

Afinal, talvez me leiam


      No Público, tudo continua na mesma: «Duch, o homem que geriu “com precisão matemática” a mais temida das prisões dos khmer vermelhos, foi ontem condenado a 35 anos de prisão por um tribunal especial do Camboja» («Sentença de Duch: “11 horas por cada morto” na prisão S-21», Público, 27.07.2010, p. 10). No Diário de Notícias, lá concederam que aquele ezinho era indefensável, e passaram a escrever de outra forma: «O tribunal internacional encarregue de julgar os crimes do regime comunista dos Khmers Vermelhos no Camboja condenou ontem a 30 anos de prisão, por crimes de guerra e contra a humanidade, o responsável da principal prisão de Phnom Penh, onde foram mortas ou torturadas mais de 15 mil pessoas entre 1975 e 1979» («Torcionário khmer recebe pena de 30 anos de prisão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 27.07.2010, p. 22).

[Post 3734]

«Passar a pente fino»

Andam trocados


      «Restauração passada a pente-fino» (Correio da Manhã, 27.07.2010, p. 22). Se os jornalistas escrevem assim e se os revisores deixam passar, imagine-se o resto. Então não é passar a pente fino que se escreve? Não é o que fazem, e este erro é recorrente. Hífenes. Agora também lhes deu para não grafarem com hífen o vocábulo nadador-salvador: «Marco saía com familiares de dentro de água, quando os nadadores salvadores já não estavam ao serviço, e, a poucos metros da areia, numa zona de fundão, desapareceu quando uma onda rebentou. O pânico instalou-se junto da família e dos banhistas que ainda estavam no local. Alguns nadadores salvadores que ainda estavam por perto lançaram-se ao mar, mas não conseguiram encontrar o jovem» («Mar esconde corpo de jovem banhista», João Tavares, Correio da Manhã, 27.07.2010, p. 11).

[Post 3733]

Sobre «vectorial»

Assim se vê a diferença


      «José Robalo, subdirector-geral da DGS, revelou ao CM que foram reforçadas as medidas de combate ao vírus do Nilo Ocidental: “Foi reforçada a rede de vigilância vectorial, coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde [Dr.] Ricardo Jorge, que recebe mosquitos de todo o País. Nesta medida, decidimos aumentar o número de insectos recolhidos em Lisboa e Vale do Tejo para análises laboratoriais”, explicou o responsável» («Reforçadas medidas contra vírus do Nilo», André Pereira, Correio da Manhã, 27.07.2010, p. 17).
      Uma sondagem dir-nos-ia quantos leitores do Correio da Manhã perceberiam aquele vectorial. Assim sem qualquer explicação, é um mau trabalho. No Público, creio que ainda é pior: «“Foram encontradas 11 espécies diferentes de mosquitos na zona de residência do doente, mas, até agora, nenhum caso positivo da presença de vectores do vírus do Nilo Ocidental”, refere José Malheiros, especialista dedicado a esta rede de vigilância do INSA que já funciona há alguns anos» («Caso de infecção por vírus do Nilo Ocidental em Portugal está “praticamente confirmado”», Andrea Cunha Freitas, Público, 27.07.2010, p. 6).
      No Diário de Notícias, a palavra começa por nem sequer estar na peça principal (de resto, o artigo é muito mais informativo do que os dos outros jornais), mas num texto de apoio: «Desde 2008 que o INSA tem uma rede de vigilância de vectores (veículos de transmissão como os mosquitos) no Continente e na Madeira» («Mosquitos e mamíferos estão a ser investigados para detectar vírus do Nilo», Diana Mendes, 27.07.2010, p. 12).
      Agora quanto a vectorial. Se tivéssemos dicionários realmente bons, talvez não fosse tão grave que os jornalistas escrevessem assim. Não é o caso. Qualquer dicionário remete sempre para vector. Este vem do latim vector, -ōris, «que conduz». Em termos genéricos, é o agente que transporta algo de um lugar para outro. Especificamente em termos médicos, é o ser vivo que pode transmitir ou propagar uma doença. Nenhum dicionário da língua portuguesa, porém, apresenta esta simplicidade.

[Post 3732]

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