Fases da Lua

Vamos lá alunar


      «Com a maré a subir e depois de uma noite de Lua cheia, os aliados [sic] desembarcaram nas várias praias que bordejam as costas da Normandia. Foi no dia 6 de Junho de 1944, entre as 06.30 e as 07.30, que 135 mil soldados e vinte mil veículos entraram na França ocupada pelos nazis para libertar a Europa de um dos mais terríveis episódios da sua história» («Em Arromanches, na Normandia», Maria de Lurdesvale, Diário de Notícias, 25.07.2010, p. 9).
      É um erro que tenho visto também em livros revistos. A Lua, como poucas vezes se pensará, tem muitas mais fases, mas apenas se atribui nome — pelo menos na língua portuguesa, que em algumas outras não é assim — a quatro: lua cheia (ou plenilúnio), lua nova (ou novilúnio), quarto minguante (ou decrescente) e quarto crescente. E é assim como eu acabei de escrever que se devem grafar, porque então já não estamos a referir-nos ao astro, esse sim com maiúscula inicial, mas a fases do astro. Ou Maria de Lurdesvale também escreve «Plenilúnio»?

[Post 3731]

Sobre «promitente-comprador»

Não me convence


      Abunda a grafia promitente-comprador e promitente-vendedor — tal como abunda a grafia promitente comprador e promitente vendedor. Nos acórdãos que tenho lido, ia jurar que se usa mais esta última. Quando, há uns anos, alguém perguntou ao Ciberdúvidas qual a grafia correcta, o consultor Miguel Faria de Bastos não teve dúvidas: «A primeira fórmula, promitente-comprador, é a mais correcta. O promitente-comprador é promitente de uma compra; ainda não é um comprador. O termo promitente-comprador constitui uma unidade conceitual com um sentido técnico-jurídico próprio e, daí, a obrigatoriedade do hífen.»
      Não vejo em que é que o facto de se tratar de uma «unidade conceitual» obriga ao uso do hífen. Não faltam «unidades conceituais» no Direito e noutras ciências veiculadas por locuções e não por vocábulos compostos. Direi, ao melhor estilo jurídico, que se me afigura, pois, duvidoso o bem fundado da explicação.

[Post 3730]

Actualização em 27.07.2010

      Então agora vejam noutro jornal: «No tribunal de Loulé, contudo, já foram registadas sete acções de promitentes compradores, a reclamar a anulação dos contratos e pedindo o dobro do sinal, alegando incumprimento contratual» («Apartamentos vendidos por milhões de euros no Algarve chegam a tribunal», Idálio Revez, Público, 27.07.2010, p. 20).


Léxico: «crono»

Coisas dos tempos


      E a propósito de contra-relógio, lembro-me agora que a imprensa começou a usar, com ou sem aspas, a redução crono. A origem há-de estar na redução francesa (e os Franceses, já aqui o vimos, têm uma louvável inclinação para as reduções vocabulares), chrono. «O espanhol, que venceu já em 2007 e 2009, partiu com oito segundos de vantagem para o luxemburguês Andy Schleck (Saxo Bank), segundo classificado, conseguiu defender-se dos ataques e até ganhou mais alguns segundos ao seu principal rival, acabando o crono com 39 segundos de vantagem na geral. Precisamente o tempo conquistado na polémica e decisiva 15.ª etapa, que lhe deu a liderança, após a qual foi vaiado e acusado de falta de fair play por não esperar pelo luxemburguês quando este viu a corrente da sua bicicleta saltar» («Contador resiste no crono e assegura terceiro triunfo», Cipriano Lucas, Diário de Notícias, 25.07.2010, p. 44).

[Post 3729]

Léxico: «bicavalista»

Falemos de cavalos


      Nem é preciso ler a palavra «contra-relogista» (e na semana passada li-a em dois jornais) para me lembrar da copidesque do Público. Basta algo semelhante, e ontem foi a palavra «bicavalista». Perguntou o jornalista do Diário de Notícias: «O que é um bicavalista?» O entrevistado não era de poucas palavras: «É um adepto dos automóveis 2 cavalos; o termo deriva de bicavalaria. É um apaixonado por este carro simples, mas que é uma grande máquina. Somos amantes e fãs destes veículos — que procuramos manter, conduzir, conservar, divulgar —: o 2 cavalos original, como é o meu caso, mas também da Dyane, do AMI8 e do Mehari. Todos estes carros fazem parte da bicavalaria» («Trabalhei na fábrica da ‘Citroën e apaixonei-me pelo 2 cavalos”», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 25.07.2010, p. 68).
      O processo de formação é um tudo-nada mais engenhoso, mas o que está em causa é justamente o mesmo. Será que a copidesque cortava a palavra? E substituía-a por quê? Só pode ser para rir.

[Post 3728]

Léxico: «modelito»

Sabrina Sato num modelito ousadíssimo ©

Diminutivo pleno


      Aqui leio que Sandra Bullock surgiu com um modelito criativo na estreia de um filme; ali tomo conhecimento de que Roberto Cavalli foi o responsável pelo modelito que Shakira usou na final do Campeonato do Mundo de Futebol; acolá fico a saber que Paris Hilton mostrou um modelito ousado numa festa regada a champanhe... E a palavra já está bem presente em alguma da nossa imprensa. Tanto quanto sei, só o Dicionário Aulete Digital regista o termo: «Pop. Vest. Roupa, traje: “Longos na cor preta dominaram a festa, mas um ou outro modelito exibiu plumas cor-de-rosa...” (Folha de S. Paulo, 14.09.1999).»

[Post 3727]

Léxico: «supraordinado»

Os nossos hierarcas


      É um sentido figurado, sim senhor, mas quando pretendemos usar um antónimo de subordinado, por que palavra optamos? «Superior», pois claro. Mas no mundo académico usa-se há muito supraordinado. Então agora imaginem que um autor topava com um orientador como aquele de que falei aqui. Este perguntava logo, numa grande nota a vermelho, se «supraordinado» existe. É que, se sim, não tinha nada a opor... Claro que, temos de o dizer, não são apenas os índices de frequência a ditar a inclusão de um vocábulo nos dicionários. Quantas lacunas clamorosas, indefensáveis, absurdas, aqui tenho denunciado ao longo dos anos.
      Agora podia dizer alguma coisa sobre a relação hierárquica supraordinado/subordinado, começando por convidar o leitor a recuarmos ao sentido etimológico de «hierarquia», que remete para uma comunidade governada por uma autoridade sagrada cuja origem é divina. Mas não digo mais.

[Post 3726]

Sobre «ambidestro»

A torto e a direito


      Hitler, cruzes!, era canhoto. Mas isso não tem, excepto na etimologia, nada de sinistro. António Lobo Antunes também é esquerdino, e não há-de ser por isso que não foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Destro, dextro, ambidestro, ambidextro, esquerdino, canhoto, canhestro são todos termos que qualquer dicionário — excepto, pelo menos de forma inequívoca (digo isto para objectar ao que me possam dizer sobre o Dicionário Aulete Digital), o Dicionário Houaiss — refere apenas às mãos, mas os jornalistas desportivos usam-nos igualmente para referir o pé que os futebolistas usam. «Apesar da chegada de Sereno, que é um central ambidestro, Villas-Boas tem apostado em Maicon para jogar na posição mais à esquerda do centro da defesa, ou seja, aquela que nos últimos anos tem vindo a ser ocupada por Bruno Alves.»

[Post 3725]

Da oralidade à escrita

Passatempo sem prémio


      Há expressões que ficam uma vida (a nossa) inteira na oralidade. Ora digam-me lá os meus estimados leitores que hipótese escolheriam e porquê.

a) «Traduzo o que os portugueses entenderam: eu vou é já tirar o meu dinheirinho do BCP, chupistas, e vai-se a ver a Caixa também está falida, isto só vai com um Salazar, o BES vai pró maneta, ó lá se vai, e o BPI só se aguentou com um stress da tanga, quando vier aí um mesmo a sério...»

b) «Traduzo o que os portugueses entenderam: eu vou é já tirar o meu dinheirinho do BCP, chupistas, e vai-se a ver a Caixa também está falida, isto só vai com um Salazar, o BES vai pró maneta, oh lá se vai, e o BPI só se aguentou com um stress da tanga, quando vier aí um mesmo a sério...»

c) «Traduzo o que os portugueses entenderam: eu vou é já tirar o meu dinheirinho do BCP, chupistas, e vai-se a ver a Caixa também está falida, isto só vai com um Salazar, o BES vai pró maneta, olá se vai, e o BPI só se aguentou com um stress da tanga, quando vier aí um mesmo a sério...»

[Post 3724]

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