Léxico: «estanteirola»

Não será fácil


      Foi expungido de todos os dicionários o termo estanteirola. Só numa edição de 1831 do velho Dicionário da Língua Portuguesa de António Morais o encontro: «Coluna de pau ao princípio da coxia, a qual sustinha o tendal, e junto a ele assistia o capitão mandando.» E abona com uma citação de Diogo do Couto. Mas a definição devia dizer mais: que era um posto elevado coberto de um toldo. Se estivermos a ler uma tradução do Dom Quixote e não houver uma nota a explicar o vocábulo (em espanhol é estanterol), não saberemos de que se trata.

[Post 3675]

Sobre «ethos»

É pena


      Habitualmente, em obras de filosofia, pelo menos as editadas em Portugal, só se usa ethos. Que ethos é este? É, ou pode ser, o vocábulo grego ἔθος, que os Romanos transliteraram por ĕthos, «hábito, costume, tradição», e raiz de «ética». Já ἦθος foi transliterado para o latim como ēthos, e é habitualmente traduzido por «morada, residência, domicílio», e, por extensão de sentido, «carácter, natureza habitual». O Dicionário Houaiss menciona-os, respectivamente, como éthos e êthos, dois grecismos. Mas, no aportuguesamento, é apenas etos que consta neste mesmo dicionário para os dois vocábulos. Lá se evolou a univocidade, ideal e necessidade de toda a ciência.

[Post 3674]


Actualização em 5.10.2010

      «Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada)» («Quem guardará o guarda?», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 62).


«Dar/tirar residência»

Actualizar os clássicos


      «Señor gobernador, de muy buena gana dejáramos ir a vuesa merced, puesto que nos pesará mucho de perderle; que su ingenio y su cristiano proceder obligan a desearle; pero ya se sabe que todo gobernador está obligado, antes que se ausente de la parte donde ha gobernado, a dar primero residencia: déla vuesa merced de los diez días que ha que tiene el gobierno, y vayase a la paz de Dios» (El Ingenioso Hidalgo Don Quijote De La Mancha, Cervantes. Cap. LIII).
      Podemos perguntar-nos o que faz hoje mais sentido. A tradução dos viscondes de Castilho e de Azevedo diz: «mas é sabido que todo o governador deve, antes de se ausentar, dar primeiro residência». Daniel Augusto Gonçalves traduziu: «mas já se sabe que todo o governador está obrigado antes de se ausentar do lugar onde governou a prestar primeiro contas».
      Curiosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista tirar residência, «examinar o procedimento e serviço de alguém, sindicar». Só um juiz podia tirar residência, mas, no excerto do Dom Quixote, fala-se de quem tem de dar residência, neste caso, os governadores. Falta, pois, nos dicionários, esta locução. Nos dicionários de espanhol, não apenas está registada a acepção correspondente do substantivo residência, «processo ou auto formados a quem foi residenciado», como o próprio verbo residenciar: «Dito de um juiz: tomar conta a outra pessoa da conduta que observou no seu desempenho que exerceu cargo público.»

[Post 3673]

Entidade certificadora

Anjinhos


      A abertura de hoje do Ciberdúvidas é um elogio à iniciativa do YouTube de atribuir um selo de qualidade que atesta a correcção linguística das legendas em inglês dos vídeos carregados pelos utilizadores. E não têm dúvidas em afirmar que «esta é uma iniciativa que se apresenta como um bom exemplo a seguir (e a generalizar) para o português: uma certificação de qualidade tipográfica e linguística para todos os produtos dos media (imprensa incluída), traduzidos para ou criados em português».
      «Qualidade tipográfica e linguística»... Bem, como utopia não está mal, mas resta perguntar que entidade seria essa e se o selo seria atribuído à peça ou por tradição. Sim, por tradição: a empresa x é muito boa, podem pôr selos em tudo quanto produzirem. Isto é que é atestar a qualidade? Ou, mais democraticamente, o selo seria atribuído em função da satisfação e segundo critérios dos leitores? Como um leitor da Visão Júnior: «Olá! Adoro a vossa revista. Compro-a todos os dias, sem falta, no dia de lançamento. Nas vossas revistas, desde a trigésima, nunca detectei um erro.» Bem, acho que só se pode detectar um erro quando sabemos que o é. Esperem: «Mas na VISÃO Júnior passada, n.º 73, na página 27, no artigo Dentro de um farol, no sexto balão de fala que tinha o título de «Lâmpada de Farol», escreveram “okm” em vez de “km”. Mas pronto, foi uma pequeníssima gralha.» Logo no agradecimento ao leitor (que também lê a «VISÃO normal»), eis um erro: «Tens toda a razão Guilherme.»

[Post 3672]

«Igualação, igualização»

Desorientando o orientando


      O orientador perguntava, numa grande nota a vermelho, se «igualização» e «igualação» existem. Se sim, não tinha nada a opor. Escrever isto, calculo, demora tanto como pesquisar na Internet. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, edição em linha, por exemplo, o verbete «igualização», remete para «igualação», o «acto ou efeito de tornar igual ou nivelar». No de papel, pode ver-se aqui.
      Nestes casos (e com contornos que não posso divulgar), é de ponderar fazer directamente o doutoramento, sem passar pelo mestrado. Com outro orientador.

[Post 3671]

Como se escreve nos jornais

Parece-me simples


      Todos os dias fico estupefacto com as incongruências e erros que saem nos jornais. Na era da informática, seria facílimo ser disponibilizado, a revisores e jornalistas, na intranet das redacções, não um livro de estilo, mas algo mais específico e exaustivo: uma lista dos vocábulos que habitualmente suscitam dúvidas e de opções da publicação. A lista teria de resultar, naturalmente, de um consenso informado, não do capricho de um só indivíduo. Ainda ontem assisti a uma longa discussão das chefias da redacção porque, depois de anteontem o jornal se ter referido ao clube italiano como Génova, ontem havia quem quisesse (e conseguisse) que fosse Genoa. Mas já se tinha tido a mesma discussão semanas antes. O mesmo se passa com outras, bem mais ponderosas, questões linguísticas. Por vezes, pode nem sequer saber-se de onde parte a directiva. Pode vir um malabruto e lançar: «A partir de hoje, não se escreve “rioavista”, mas “vila-condense”. Anda aí um parvalhão a inventar essa merda.»

[Post 3670]

Acordo Ortográfico

AO à la carte


      Agora que a irreversibilidade da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 me parece uma evidência, vamos ter outros dois problemas: o desconhecimento das suas regras e a aplicação à la carte. «Quase todas as outras atividades», escreveu ontem Francisco José Viegas na coluna que mantém no Correio da Manhã, a única, recorde-se, neste jornal segundo as novas regras ortográficas, «pedem às câmaras que os contratem para espetáculos ou ao Estado que lhes pague o que acham.» De fora ficava a edição de livros, que, segundo FJV, não se lamuria nem pedincha nada ao Estado. Umas linhas antes, tinha escrito: «Através das câmaras, o Estado tem financiado a “indústria musical” no Verão — da “música pimba” ao rock e ao hip-hop.»
      Ora, a Base XIX, 1.º, b), do Acordo Ortográfico de 1990 é claro ao estabelecer o uso da minúscula: «Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera.» Já agora, há publicações que, depois de terem, de acordo com a nova ortografia, escrito «espetáculo» e «espetador», recuaram, a pedido, para «espectáculo» e «espectador». Não por vontade própria o fizeram, antes por pressões de vontades alheias. Outra grande fonte de equívocos são as duplas grafias. Malaca Casteleiro afirmou uma vez que serão cerca de 500 vocábulos os que ficarão com dupla grafia e acentuação. Também veio comparar, o que me pareceu pouco avisado, a dupla grafia permitida pelo AO1990 com variantes que a língua já regista, como ouro/oiro e outras semelhantes.
      Faltam, a meu ver, duas coisas para se aplicar cabalmente o Acordo Ortográfico de 1990: discernimento e um vocabulário ortográfico comum.

[Post 3669]

Sobre «quadruplicar»

Barbarismos


      Um jogador, não sei agora qual, vai ganhar quatro vezes mais no novo clube. E o que escrevem os jornalistas? Sim, porque não podem escrever de uma forma tão terra-a-terra. Boa! Mais alatinado: «quadriplicar». (Já que raramente pode ser mais grecizado, como sucedeu com a «sépsis», de que aqui falei hoje.) «O jogador vai quadriplicar o ordenado.» Vão ao dicionário e lá está: quadri- é o elemento de formação de palavras que exprime a ideia de quatro, quádruplo, quatro vezes, quadrado. E na página 1314 do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) encontram em quadru- a remissão para quadri-. Perfeito, pensa o jornalista. No entanto, a única forma correcta é quadruplicar, vinda directamente do latim. É um erro que se repete. Haverá pior? Bem, erro é erro. Ainda ontem, um jornalista escreveu que certo clube «infringiu uma pesada derrota» a outro. Afinal, foi ele, jornalista, o único a infringir as regras e a infligir um duro golpe na nossa paciência.
  (Claro que amor com amor se paga, e eles agora escorraçaram-me do clube deles. Só a hiperligação, porque fisicamente não me apagam.)

[Post 3668]

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