Sobre «mal-estar»

Não custa lembrar


      No Jogo da Língua, na Antena 1, o locutor prometeu oferecer um exemplar da obra 10 Passos para Chegar ao Topo, de João Garcia e Rui Nabeiro, ao ouvinte que respondesse «com correcção». A pergunta era sobre se se diz e escreve «mau-estar» ou «mal-estar». O ouvinte respondeu «com correcção» e até correctamente. A Prof.ª Sandra Duarte Tavares explicou então que é mal-estar e não *mau-estar porque se trata de um advérbio, como quem diz «estar mal», pois ainda lembra a forma verbal. Também se diz «bem-estar», argumentou. Pois aí é que está: lembra, mas já não é. E se não é, menos estranho seria que fosse «mau-estar», ou não? Mas não é, não. Todos os dias os falantes — entre eles talhantes, jornalistas, professores, tradutores, polícias — se esquecem disso: «Isabela não tinha por hábito impressionar-se com facilidade, mas havia neste homem qualquer coisa que lhe causava mau-estar, acrescido ainda pela sensação de náusea proveniente do seu bafo avinhado, e que era quase insuportável» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, pp. 227-28).

[Post 3667]

Sobre «sépsis»

Será assim mesmo?


      «A implementação da via verde da sépsis, cuja mortalidade é de cerca de 40% no mundo, está a reduzir os casos mortais pelo menos em três hospitais portugueses, onde esse valor é de 22%» («Via verde da sépsis reduz mortalidade em Portugal», Diário de Notícias, 29.06.2010).
      Começamos por nem sequer ter o vocábulo na maioria dos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009), por exemplo, não o regista. Regista sepse, que remete para sepsia: «invasão de um organismo por microrganismos» (p. 1450). Mas, porque já houve tempo em que sepsia e septicemia foram considerados, mesmo pela comunidade médica, como sinónimos, vejamos o que diz aquele dicionário sobre septicemia: «estado grave, produzido pela invasão microbiana do sangue, que depois se espalha pelo organismo» (p. 1450). Sendo assim e salvo melhor opinião, não me parece que tenha sido criada uma via verde para a sépsis — mas para a septicemia. Por outro lado, porque é que na definição de «septicemia» não consta a palavra «doença»? Veja-se esta definição: «Doença sistémica associada à presença de microrganismos patológicos ou toxinas no sangue (bactérias, vírus, fungos ou outros) (daqui). Sépsis é a síndrome de resposta inflamatória sistémica (SRIS) devida à infecção.
      Sépsis é o mais próximo do étimo grego. Nesta língua, significava a decomposição de matéria orgânica animal ou vegetal em presença de bactérias. O primeiro registo do vocábulo foi encontrado nos poemas de Homero.

[Post 3666]

Tradução: «nourricier»

Não abdiquem


      «Ces pères nourriciers...» «Estes pais nutritivos...» É um erro imperdoável em qualquer tradutor, e muito mais comum do que se possa pensar. «Nutritivo» é a primeira acepção que surge quando se consulta um dicionário de francês-português, pelo que se abdica inconscientemente de reflectir. Nutrítico, nutritício, nutritivo... No caso, não é defeito dos dicionários, mas dos tradutores. «Estes pais alimentadores...»

[Post 3665]

Tradução: «morbidité»

Com escolha


      O original diz que aquela acção (que não posso identificar) é «responsable d’une diminution de la morbidité et de la mortalité». O tradutor verteu «morbidité» como «morbidez», provavelmente a única correspondência dada pela generalidade dos dicionários de francês-português. Salvo melhor opinião, porém, morbidez é somente a qualidade ou estado de mórbido.
      Em várias línguas, é aos pares que nos surgem os termos relativos. Espanhol, morbilidad ou morbididad. Em inglês, morbidity e morbility. Em alemão, morbididät e morbilität. Em português, morbidade e morbilidade. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista as duas variantes. Vejam as diferenças: «Morbidade: relação entre o número de casos de enfermidade e o número de habitantes, num determinado lugar e momento.» «Morbilidade: relação entre os casos de doença e o número de habitantes de um aglomerado populacional.» Ora, é precisamente nestes casos que não valorizo nada os esforços de redigir verbetes diferentes. E pergunto-me, já que perguntar-lhes seria em vão, se os termos não deviam remeter um para o outro. Se não quisermos perder de vista o étimo latino, escolheremos morbidade.

[Post 3664]

Infinitivo impessoal

Sem escolha


      «No século XVIII, Rousseau, os médicos e os moralistas souberam fazer vibrar esta corda para convencer as mães a consagrar-se inteiramente aos seus filhos, a amamentá-los, a cuidar deles e a educá-los.» Neste caso, já o infinitivo não pode ser — nunca — flexionado, pois, com o verbo («convencer») regido da preposição, funciona como complemento. Efectivamente, ninguém diz ou escreve (melhor: ninguém deve escrever ou dizer) *Os alunos estão dispostos a competirem, ou *Consegui convencê-los a aceitarem. Antes Os alunos estão dispostos a competir, e Consegui convencê-los a aceitar.


Nota: aceitei a sugestão de um leitor de assinalar de cor diferente (escolhi o fundo branco) o que está correcto e a vermelho somente o que está incorrecto. É o que farei doravante.

[Post 3663]

«Rinos»?

Menos sofisticados


      ... e por isso recomendam que os bebés com menos de um ano não vão para a creche. E porquê? «Il atrappe les virus des copains avec leur cortège de rhinos, bronchiolites, etc.» O problema é a tradução: como incluir, sem notas de rodapé, todas as inflamações e outras afecções em que entra como elemento de formação rin(o)? «Cortejo de rinos»? Ao contrário da língua francesa, e já aqui lembrámos mais de uma vez esta característica, o português é um pouco avesso a reduções vocabulares.

[Post 3662]

Tradução

Mais enviesamentos


      «À ce jour, c’est la Société française de pédiatrie qui a publié le rapport le plus objectif sur cette question, n’hésitant pas à faire part des incertitudes et des enquêtes biaisées.» Então agora digam-me com qual das traduções, subtilmente diferentes, concordam e porquê.
  1. «Até agora, é a Sociedade Francesa de Pediatria que publicou o relatório mais objectivo sobre esta questão, não hesitando em falar das incertezas e dos inquéritos enviesados.»
  2. «Até agora, é a Sociedade Francesa de Pediatria que publicou o relatório mais objectivo sobre esta questão, não hesitando em falar de incertezas e de inquéritos enviesados.»

      Quanto ao enviesamento, já aqui falámos.

[Post 3661]

Léxico: «rádula»

Ganha o caracol


      Se não devemos, razoavelmente, esperar que os dicionários gerais da língua expliquem que o córtex está dividido em seis camadas, numeradas de I a VI e todas com uma designação específica, porque não são enciclopédias ou manuais de Medicina, já acho muito razoável que esperemos encontrar neles o próprio vocábulo «neocórtex». Consultemos, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009). Na página onde devia estar registado (p. 1115), esbarramos com o vazio entre «neócoro» e «neocriticismo». Deve ser por se tratar da área mais evoluída do cérebro... Em contrapartida, todos registam, por exemplo, o vocábulo «rádula», que designa o órgão semelhante a uma língua de muitos moluscos, entre eles o caracol. Munida de numerosos dentículos, serve para cortar os alimentos — plantas, que os caracóis são herbívoros. Qual o critério para estas exclusões? Falta de espaço? A sério? Por mim, dispensem o encarregado da guarda, limpeza e boa ordem dos templos, entre os pagãos.

[Post 3660]

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