Sobre «secreta»

Não é segredo


      Cara Luísa Pinto: isso acontece muito, mas não é necessário grafar entre aspas, já aqui o expliquei mais de uma vez. Veja dois exemplos. «O despacho foi ontem publicado em Diário da República e, a partir de agora, será Mário Mendes a resolver qualquer situação de conflito de competências entre as forças e os serviços de segurança — não só das polícias mas também as “secretas” e a Protecção Civil — que surja na operação» («Visita do Papa reforça poderes de ‘superpolícia’», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 18). «O Presidente norte-americano nomeou ontem um veterano do Pentágono como novo patrão das secretas dos Estados Unidos» («General veterano vai dirigir as secretas dos Estados Unidos», Público, 6.06.2010, p. 14). Bastava usar-se — mas alguns dicionários até já registam o termo «secreta» na acepção de polícia secreta, como é o caso da edição de 2009 do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (p. 1438, 1.ª coluna). Terceira acepção.

[Post 3659]

Sobre «doula»

Ainda ontem


      Lê-se no Ciberdúvidas: «Sou revisora de texto numa revista cuja especialidade é a gravidez. Há pouco tempo deparei-me com a palavra “doula”, de origem grega, que é a mulher que acompanha a recém-mãe após o parto. Esta palavra é utilizada em diversas línguas. A minha questão é se faz parte do léxico português. Não constando em nenhum dicionário, deverá ser encarada como um estrangeirismo?» A consultora Ana Martins respondeu: «Sim, a palavra está dicionarizada. Cf. doula no Dicionário Aulete Digital. Há estrangeirismos que estão dicionarizados e há-os que não estão, dependendo da avaliação de frequência empreendida pelo lexicógrafo.» (Não teceu qualquer consideração sobre a aberração «recém-mãe», indigna de uma revisora, ao contrário do que, sem qualquer dúvida, faria um consultor como José Neves Henriques.)
      A transliteração para o alfabeto latino da palavra grega correspondente dá doulē. Foi num estudo, «Mothering the mother: how a doula can help you to have a shorter, easier and healthier birth», de Marshall Klaus e John Kennell, datado de 1993, que o vocábulo «doula» foi, à falta de um inglês para transmitir o conceito, usado. E foi através do inglês que nos chegou. Como não destoa da fonética nem da grafia da língua portuguesa, rapidamente está a ser integrado na língua e não tardará a chegar a outros dicionários. O Dicionário Aulete Digital devia ter registado, na etimologia, que nos vem do grego, sim, mas mediado pelo inglês. Em francês também se usa o termo «doula».

[Post 3658]

Infinitivo pessoal

Certo, para quem não sabe


      Original: «Les pédiatres et les nombreux “ spécialistes ” de la maternité, dénonçant les préceptes de leurs prédécesseurs — et parfois les leurs propres à quelques années de distance — retrouvaient les arguments d’un Plutarque ou d’un Rousseau qui surent si bien culpabiliser celles qui restaient sourdes à la voix de la nature.» Tradução: «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade ao denunciar os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás — reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»
      Pois é, e onde está a concordância do infinitivo? E as necessárias vírgulas? Pois é... «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade, ao denunciarem os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás —, reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»

[Post 3657]

Sobre «complicativo»

E não foi desta


      «São chefes de Estado. Ficam em hotéis de cinco estrelas. Têm direitos e exercem esses direitos. Em Portugal temos muita resposta e não é difícil encaixá-los. Mas não são primas donas [sic]. Às vezes, os assessores são mais complicativos» («“Uma boa conferência pode custar 400 mil dólares”», Luís Naves entrevista António Cunha Vaz, presidente da empresa consultora de comunicação Cunha Vaz e Associados, Diário de Notícias, 2.07.2010, p. 64).
      Nem sempre os dicionários são bons para aferir estas questões, mas, desta vez, a ausência do vocábulo complicativo parece-me corresponder ao seu baixo índice de frequência. E nunca vi o vocábulo ser usado num texto merecedor, pela sua intrínseca qualidade, de ser citado.

[Post 3656]

Sobre «interesse»

Não vá mais longe


      «É esse um dos encantos do capitalismo, o interesse de cada um (em francês percebe-se melhor, “intérêt” é também “lucro”).» («Que horror, iguais aos outros!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.07.2010, p. 64).
      Caro Ferreira Fernandes: não saia da Península Ibérica. Então em espanhol não é precisamente o mesmo? «Interés», além de outras coisas, tanto é o «lucro producido por el capital» como a «inclinación del ánimo hacia un objeto, una persona, una narración, etc.». E não vimos aqui recentemente, a propósito de uma acepção de «barato» no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, uma escandalosa má tradução deste termo?

[Post 3655]

Países Baixos

Um plural singular


      Muito perturbado depois de uma discussão, o revisor só perguntava, completamente atoleimado: «Países Baixos? Países Baixos? Mas não é “País Baixo” que se diz?» Mas isso foi há um ano. Quando se traduz, é quase inevitável a tendência para copiar formas de grafar que nos são alheias. «Pays-Bas», diz o original francês. «Países-Baixos», traslada o nosso tradutor. «Royaume-Uni», lê-se no original francês. Mas aqui, o nosso tradutor não deixa de escrever «Reino Unido». Mas Nederland não significa «País Baixo»? São reminiscências da República dos Sete Países Baixos Unidos.

[Post 3654]

Tradução: «auditrice»

Ouça lá


      «À l’occasion d’émissions de radio, elle demandait aux auditrices assurées de leur anonymat de répondre à la même question.» «Em programas de rádio, ela pedia às auditoras, a quem garantia o anonimato, para responderem à mesma pergunta.»
      Auditor também é, não podemos negá-lo, aquele que ouve — mas actualmente nunca é usado nesta acepção. Há auditores de contas, auditores internos, auditores de justiça (e alguns, candidatos, nem sequer sabem o que isso significa)... No sentido daquele que ouve, e em especial do que ouve um programa de rádio, é ouvinte que se usa. Deslize que prova que não são apenas os falsos cognatos que traem o tradutor.

[Post 3653]

Evocar/invocar

Agora em francês


      «Outre que l’inconscient, lui, pèse de tout son poids sur l’une et l’áutre, il faut bien avouer que la plupart des parents ne savent pas pourquoi ils font un enfant et que leurs motivations sont infinitement plus obscures et confuses que celles évoquées dans la sondage.» Isto dizia o original. O tradutor verteu assim: «Para além do peso que o inconsciente tem em ambas as decisões, é preciso dizer que a maior parte dos pais não sabe porque fazem um filho e que as suas motivações são infinitamente mais obscuras e confusas do que as evocadas na sondagem.» Parece perfeito, excepto que no original devia estar «invoquées» em vez de «évoquées», que os autores franceses também se enganam e também confundem os conceitos. Já aqui mostrei as diferenças, naquele que é o meu texto mais lido. Umas linhas à frente, quando o autor voltou a usar, no mesmo contexto, o verbo évoquer, o tradutor já não hesitou: traduziu por «invocar». Esqueceu-se, essa é que é essa, foi de uniformizar.

[Post 3652]

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