Infinitivo pessoal

Certo, para quem não sabe


      Original: «Les pédiatres et les nombreux “ spécialistes ” de la maternité, dénonçant les préceptes de leurs prédécesseurs — et parfois les leurs propres à quelques années de distance — retrouvaient les arguments d’un Plutarque ou d’un Rousseau qui surent si bien culpabiliser celles qui restaient sourdes à la voix de la nature.» Tradução: «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade ao denunciar os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás — reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»
      Pois é, e onde está a concordância do infinitivo? E as necessárias vírgulas? Pois é... «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade, ao denunciarem os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás —, reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»

[Post 3657]

Sobre «complicativo»

E não foi desta


      «São chefes de Estado. Ficam em hotéis de cinco estrelas. Têm direitos e exercem esses direitos. Em Portugal temos muita resposta e não é difícil encaixá-los. Mas não são primas donas [sic]. Às vezes, os assessores são mais complicativos» («“Uma boa conferência pode custar 400 mil dólares”», Luís Naves entrevista António Cunha Vaz, presidente da empresa consultora de comunicação Cunha Vaz e Associados, Diário de Notícias, 2.07.2010, p. 64).
      Nem sempre os dicionários são bons para aferir estas questões, mas, desta vez, a ausência do vocábulo complicativo parece-me corresponder ao seu baixo índice de frequência. E nunca vi o vocábulo ser usado num texto merecedor, pela sua intrínseca qualidade, de ser citado.

[Post 3656]

Sobre «interesse»

Não vá mais longe


      «É esse um dos encantos do capitalismo, o interesse de cada um (em francês percebe-se melhor, “intérêt” é também “lucro”).» («Que horror, iguais aos outros!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.07.2010, p. 64).
      Caro Ferreira Fernandes: não saia da Península Ibérica. Então em espanhol não é precisamente o mesmo? «Interés», além de outras coisas, tanto é o «lucro producido por el capital» como a «inclinación del ánimo hacia un objeto, una persona, una narración, etc.». E não vimos aqui recentemente, a propósito de uma acepção de «barato» no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, uma escandalosa má tradução deste termo?

[Post 3655]

Países Baixos

Um plural singular


      Muito perturbado depois de uma discussão, o revisor só perguntava, completamente atoleimado: «Países Baixos? Países Baixos? Mas não é “País Baixo” que se diz?» Mas isso foi há um ano. Quando se traduz, é quase inevitável a tendência para copiar formas de grafar que nos são alheias. «Pays-Bas», diz o original francês. «Países-Baixos», traslada o nosso tradutor. «Royaume-Uni», lê-se no original francês. Mas aqui, o nosso tradutor não deixa de escrever «Reino Unido». Mas Nederland não significa «País Baixo»? São reminiscências da República dos Sete Países Baixos Unidos.

[Post 3654]

Tradução: «auditrice»

Ouça lá


      «À l’occasion d’émissions de radio, elle demandait aux auditrices assurées de leur anonymat de répondre à la même question.» «Em programas de rádio, ela pedia às auditoras, a quem garantia o anonimato, para responderem à mesma pergunta.»
      Auditor também é, não podemos negá-lo, aquele que ouve — mas actualmente nunca é usado nesta acepção. Há auditores de contas, auditores internos, auditores de justiça (e alguns, candidatos, nem sequer sabem o que isso significa)... No sentido daquele que ouve, e em especial do que ouve um programa de rádio, é ouvinte que se usa. Deslize que prova que não são apenas os falsos cognatos que traem o tradutor.

[Post 3653]

Evocar/invocar

Agora em francês


      «Outre que l’inconscient, lui, pèse de tout son poids sur l’une et l’áutre, il faut bien avouer que la plupart des parents ne savent pas pourquoi ils font un enfant et que leurs motivations sont infinitement plus obscures et confuses que celles évoquées dans la sondage.» Isto dizia o original. O tradutor verteu assim: «Para além do peso que o inconsciente tem em ambas as decisões, é preciso dizer que a maior parte dos pais não sabe porque fazem um filho e que as suas motivações são infinitamente mais obscuras e confusas do que as evocadas na sondagem.» Parece perfeito, excepto que no original devia estar «invoquées» em vez de «évoquées», que os autores franceses também se enganam e também confundem os conceitos. Já aqui mostrei as diferenças, naquele que é o meu texto mais lido. Umas linhas à frente, quando o autor voltou a usar, no mesmo contexto, o verbo évoquer, o tradutor já não hesitou: traduziu por «invocar». Esqueceu-se, essa é que é essa, foi de uniformizar.

[Post 3652]

Por justaposição

Sombras e fantasmas


      Vou juntá-los, porque, quanto à gramática, fantasmas e sombras é tudo a mesma coisa: fazem parte de compostos cujos elementos devem escrever-se justapostos por hífen, ao contrário do que muitas vezes lemos: «Em 1966, o suíço Gottfried Dienst validou o golo-fantasma de Geoff Hurst, que ajudou a Inglaterra a conquistar o seu único título mundial, perante a Rep. Federal da Alemanha (4-2)» («Vingança germânica com toque uruguaio», César Lopes, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 12). «De acordo com os jornais israelitas, o político recebeu milhares de dólares do estrangeiro através de empresas-fantasma» («Nacionalista deixará Governo se condenado por corrupção», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 4.08.2009, p. 24). «A história do filme passa-se numa sexta, dois dias (ou seja, 200 anos) depois, quando, por acaso, dois caçadores americanos a vêem sair da bruma, como um barco-fantasma a emergir das águas» («Ilhas de Bruma», Nuno Pacheco, P2/Público, 28.06.2010, p. 3). «Aos 41 anos, este filho de madeirenses, de origens humildes, é deputado no Parlamento Nacional, pela AD (Aliança Democrática), principal força da oposição, e vice-ministro-sombra dos Transportes» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 92).

[Post 3651]

Um Alcorão especial

Visão invisual


      Estará já tudo dito em relação à questão Alcorão/Corão? Não, há sempre novos e mais criativos erros. Na edição de Julho da revista Visão Júnior (n.º 74), na secção «Correio dos Leitores» (p. 6), uma miúda de 10 anos, Ana Margarida Oliveira, escreveu: «Olá! Na edição de Junho encontrei um erro na página 20, em Marrocos, onde diz Al Corão deveria estar apenas Corão. Já confirmei no meu livro de HGP (ando no 5.º). Beijinhos e continuem com um belíssimo trabalho.» Eles não esclarecem, faço-o eu: HGP é a disciplina de História e Geografia de Portugal. Nem encontrava melhor fonte... Nunca conheci nenhum revisor que me dissesse que tinha revisto um manual escolar. Eu nunca o fiz. Resposta da redacção: «Pois, Ana. Mas a comunidade muçulmana em Portugal refere-se a este documento com o termo Al Corão. Esta é a forma mais correcta. Obrigada pela tua atenção.» Agora quanto aos revisores da revista, António Ribeiro e Rui Carvalho: foram incapazes de fazer ver ao autor da resposta que está enganado? Ou partilham da mesma opinião? Bem podem autores conceituados vir dizer que «Corão» é uma forma desnecessária, por ultracorrigida, ou que é um misto de galicismo e de falso eruditismo. Chega-nos agora esta versão piorada — e numa revista para um público infanto-juvenil, para o erro ficar bem impresso na memória — do erro. Al Corão!

[Post 3650]

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