Por justaposição

Sombras e fantasmas


      Vou juntá-los, porque, quanto à gramática, fantasmas e sombras é tudo a mesma coisa: fazem parte de compostos cujos elementos devem escrever-se justapostos por hífen, ao contrário do que muitas vezes lemos: «Em 1966, o suíço Gottfried Dienst validou o golo-fantasma de Geoff Hurst, que ajudou a Inglaterra a conquistar o seu único título mundial, perante a Rep. Federal da Alemanha (4-2)» («Vingança germânica com toque uruguaio», César Lopes, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 12). «De acordo com os jornais israelitas, o político recebeu milhares de dólares do estrangeiro através de empresas-fantasma» («Nacionalista deixará Governo se condenado por corrupção», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 4.08.2009, p. 24). «A história do filme passa-se numa sexta, dois dias (ou seja, 200 anos) depois, quando, por acaso, dois caçadores americanos a vêem sair da bruma, como um barco-fantasma a emergir das águas» («Ilhas de Bruma», Nuno Pacheco, P2/Público, 28.06.2010, p. 3). «Aos 41 anos, este filho de madeirenses, de origens humildes, é deputado no Parlamento Nacional, pela AD (Aliança Democrática), principal força da oposição, e vice-ministro-sombra dos Transportes» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 92).

[Post 3651]

Um Alcorão especial

Visão invisual


      Estará já tudo dito em relação à questão Alcorão/Corão? Não, há sempre novos e mais criativos erros. Na edição de Julho da revista Visão Júnior (n.º 74), na secção «Correio dos Leitores» (p. 6), uma miúda de 10 anos, Ana Margarida Oliveira, escreveu: «Olá! Na edição de Junho encontrei um erro na página 20, em Marrocos, onde diz Al Corão deveria estar apenas Corão. Já confirmei no meu livro de HGP (ando no 5.º). Beijinhos e continuem com um belíssimo trabalho.» Eles não esclarecem, faço-o eu: HGP é a disciplina de História e Geografia de Portugal. Nem encontrava melhor fonte... Nunca conheci nenhum revisor que me dissesse que tinha revisto um manual escolar. Eu nunca o fiz. Resposta da redacção: «Pois, Ana. Mas a comunidade muçulmana em Portugal refere-se a este documento com o termo Al Corão. Esta é a forma mais correcta. Obrigada pela tua atenção.» Agora quanto aos revisores da revista, António Ribeiro e Rui Carvalho: foram incapazes de fazer ver ao autor da resposta que está enganado? Ou partilham da mesma opinião? Bem podem autores conceituados vir dizer que «Corão» é uma forma desnecessária, por ultracorrigida, ou que é um misto de galicismo e de falso eruditismo. Chega-nos agora esta versão piorada — e numa revista para um público infanto-juvenil, para o erro ficar bem impresso na memória — do erro. Al Corão!

[Post 3650]

«Extranamoro»?

Extrapassa o já visto


      «Minutos antes de assassinar a namorada à marretada, David Saldanha, de 22 anos, jurou-lhe amor eterno e disse-lhe que queria casar e ter dois filhos, aos quais chamariam Bernardo e Mariana. Mas o estudante suspeitava de uma relação extranamoro de Joana Silva, de 20 anos, no Verão de 2009, e a discussão que se seguiu acabou com os sonhos» («Mata namorada após prometer casamento», Luís Oliveira, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 24).
      Nunca tinha lido ou ouvido o vocábulo extranamoro. Por analogia com extramatrimonial (ou extraconjugal), esperar-se-ia algo como (mas, em certo sentido, ainda pior) extranamoratório. É que o adjectivo namoratório está registado e significa «relativo a namoro». Mas temos, por exemplo, a partir de um substantivo, «extraclasse», «extramuros», etc.

[Post 3649]

«Terras Altas»/«terras altas»

Altos e baixos


      «A história passa-se nas terras altas e envolve uma pequena aldeia [Brigadoon] que pelos anos de 1700 era um minúsculo oásis numa Escócia infestada de bruxas e feiticeiras malévolas» («Ilhas de Bruma», Nuno Pacheco, P2/Público, 28.06.2010, p. 3).
      Como tudo anda trocado! No Correio da Manhã, escrevem que «o mau tempo volta a assolar Portugal Continental e a Madeira», prevendo-se que «a velocidade do vento possa atingir 70 quilómetros/hora, com rajadas de 110 nas Terras Altas».

[Post 3648]

Tradução: «transfer»

Ainda pior


      «As camisolas da selecção nacional no Mundial da África do Sul têm de ser personalizadas com o nome do adversário e a data do jogo, por exigência da FIFA. Na primeira fase, tudo foi feito em Portugal. Com a passagem aos oitavos-de-final, a Federação Portuguesa de Futebol solicitou a ajuda de um especialista em artes gráficas, Tony Azeredo, português nascido em Vila Nova de Gaia há 46 anos. “Apesar de ser um trabalho pago, 150 euros, eu e a minha mulher tivemos um enorme prazer em ajudar o nosso país. Trabalhámos até de madrugada para que tudo pudesse estar pronto um dia antes do jogo com a Espanha. Estamos orgulhosos de ser portugueses”, disse ontem ao CM, momentos antes de entregar a um representante da FPF os ‘transfers’ que irão ser estampados nas camisolas.» («Emigrante luso dá nome a camisolas», Octávio Lopes, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 9).
      Este caso ainda é mais grave. Apesar de algumas diferenças, transfer é decalque. Contudo, nem sequer era necessário ter usado nenhum destes termos, bastava ter escrito «letras». Simples. Em alternativa, usava-se o estrangeirismo, sim, mas explicava-se o significado, como neste caso: «TDT 12 de Janeiro foi a data escolhida pela Anacom — Autoridade Nacional de Comunicações para o arranque da primeira fase de switch off (desligamento) das emissões analógicas de televisão» («Desligamento arranca a 12 de Janeiro de 2012», M. M., Diário de Notícias, 29.06.2010, p. 66).

[Post 3647]

Tradução: «checklist»

Assim não


      «A checklist elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) começou por ser aplicada no Hospital de Santo António, no Porto, e no de Santa Marta, em Lisboa. Há um mês, as regras foram alargadas aos cerca de 20 blocos operatórios do Centro Hospitalar de Lisboa Central, ou seja, no Hospital da Estefânia, São José e Capuchos. Os bons resultados das práticas cirúrgicas levaram a DGS a estender agora estas regras que podem salvar vidas a todos as salas de operação do País» («Novas regras de segurança em todas as cirurgias», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 30.06.2010, p. 15).
      A minha oposição ao uso de estrangeirismos não se fundamenta somente no facto de saber que boa parte dos leitores não irá compreendê-los, mas no próprio respeito por um património que devemos preservar, e mais um jornalista. Neste caso, usou duas vezes o vocábulo checklist, escusadamente. Os leitores teriam ficado mais elucidados se tivesse optado por lista de controlo ou lista de verificação.

[Post 3646]

Selecção vocabular

No talho com o Correio da Manhã


      «Além de receberem gado suíno, caprino e ovino, os dois primos geriam o negócio onde eram abatidos e desmembrados os animais, vendendo depois a carne a particulares e a estabelecimentos» («Gado roubado em matadouro», Miguel Curado, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 22).
      Claro que os sentidos se alargam, mas desmembrar era, inicialmente, apenas privar de seus membros, separar ou cortar os membros de um animal. E esquartejar, um sinónimo que logo nos acode à memória, é, também inicialmente, apenas cortar em quartos. Nunca ouvi nenhum talhante usar outra palavra que não «desmanchar». Consulto o respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vejo? Que desmanchar é «esquartejar (animais domésticos) para lhes aproveitar a carne». Uma vaca é um animal doméstico?

[Post 3645]

Pontuação

Pelo contrário


      Fala-se da ausência do presidente da República nas cerimónias fúnebres de Saramago, e, abruptamente, isto: «O estilo ausente de pontuação, escrita ritmada como se fosse pensamento, nunca me maravilharam» («Todos os nomes menos Cavaco», Marta Rebelo, Diário de Notícias, 29.06.2010, p. 71).
      Eu queria ter boa vontade e ver naquela «pontuação» um sentido restrito, mas nem os dicionários nem o uso mo permitem: pontuação é, e cito a definição do Dicionário Houaiss, «na língua escrita, sistema de sinais gráficos que indicam separação entre unidades significativas para tornar mais claros o texto e a frase, pausas, entonações, etc. (p. ex., ponto, vírgula, ponto e vírgula, ponto de interrogação, etc.)». Em Saramago não falta pontuação, e, descontando a heterodoxia, toda correcta, que dá gosto. Há quem diga, e isso eu vejo também, que é escrita ritmada como se fosse oralidade, não pensamento. E finalmente: só com grandes malabarismos nos arranjamos para justificar a forma verbal «maravilharam».

[Post 3644]

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