«Extranamoro»?

Extrapassa o já visto


      «Minutos antes de assassinar a namorada à marretada, David Saldanha, de 22 anos, jurou-lhe amor eterno e disse-lhe que queria casar e ter dois filhos, aos quais chamariam Bernardo e Mariana. Mas o estudante suspeitava de uma relação extranamoro de Joana Silva, de 20 anos, no Verão de 2009, e a discussão que se seguiu acabou com os sonhos» («Mata namorada após prometer casamento», Luís Oliveira, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 24).
      Nunca tinha lido ou ouvido o vocábulo extranamoro. Por analogia com extramatrimonial (ou extraconjugal), esperar-se-ia algo como (mas, em certo sentido, ainda pior) extranamoratório. É que o adjectivo namoratório está registado e significa «relativo a namoro». Mas temos, por exemplo, a partir de um substantivo, «extraclasse», «extramuros», etc.

[Post 3649]

«Terras Altas»/«terras altas»

Altos e baixos


      «A história passa-se nas terras altas e envolve uma pequena aldeia [Brigadoon] que pelos anos de 1700 era um minúsculo oásis numa Escócia infestada de bruxas e feiticeiras malévolas» («Ilhas de Bruma», Nuno Pacheco, P2/Público, 28.06.2010, p. 3).
      Como tudo anda trocado! No Correio da Manhã, escrevem que «o mau tempo volta a assolar Portugal Continental e a Madeira», prevendo-se que «a velocidade do vento possa atingir 70 quilómetros/hora, com rajadas de 110 nas Terras Altas».

[Post 3648]

Tradução: «transfer»

Ainda pior


      «As camisolas da selecção nacional no Mundial da África do Sul têm de ser personalizadas com o nome do adversário e a data do jogo, por exigência da FIFA. Na primeira fase, tudo foi feito em Portugal. Com a passagem aos oitavos-de-final, a Federação Portuguesa de Futebol solicitou a ajuda de um especialista em artes gráficas, Tony Azeredo, português nascido em Vila Nova de Gaia há 46 anos. “Apesar de ser um trabalho pago, 150 euros, eu e a minha mulher tivemos um enorme prazer em ajudar o nosso país. Trabalhámos até de madrugada para que tudo pudesse estar pronto um dia antes do jogo com a Espanha. Estamos orgulhosos de ser portugueses”, disse ontem ao CM, momentos antes de entregar a um representante da FPF os ‘transfers’ que irão ser estampados nas camisolas.» («Emigrante luso dá nome a camisolas», Octávio Lopes, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 9).
      Este caso ainda é mais grave. Apesar de algumas diferenças, transfer é decalque. Contudo, nem sequer era necessário ter usado nenhum destes termos, bastava ter escrito «letras». Simples. Em alternativa, usava-se o estrangeirismo, sim, mas explicava-se o significado, como neste caso: «TDT 12 de Janeiro foi a data escolhida pela Anacom — Autoridade Nacional de Comunicações para o arranque da primeira fase de switch off (desligamento) das emissões analógicas de televisão» («Desligamento arranca a 12 de Janeiro de 2012», M. M., Diário de Notícias, 29.06.2010, p. 66).

[Post 3647]

Tradução: «checklist»

Assim não


      «A checklist elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) começou por ser aplicada no Hospital de Santo António, no Porto, e no de Santa Marta, em Lisboa. Há um mês, as regras foram alargadas aos cerca de 20 blocos operatórios do Centro Hospitalar de Lisboa Central, ou seja, no Hospital da Estefânia, São José e Capuchos. Os bons resultados das práticas cirúrgicas levaram a DGS a estender agora estas regras que podem salvar vidas a todos as salas de operação do País» («Novas regras de segurança em todas as cirurgias», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 30.06.2010, p. 15).
      A minha oposição ao uso de estrangeirismos não se fundamenta somente no facto de saber que boa parte dos leitores não irá compreendê-los, mas no próprio respeito por um património que devemos preservar, e mais um jornalista. Neste caso, usou duas vezes o vocábulo checklist, escusadamente. Os leitores teriam ficado mais elucidados se tivesse optado por lista de controlo ou lista de verificação.

[Post 3646]

Selecção vocabular

No talho com o Correio da Manhã


      «Além de receberem gado suíno, caprino e ovino, os dois primos geriam o negócio onde eram abatidos e desmembrados os animais, vendendo depois a carne a particulares e a estabelecimentos» («Gado roubado em matadouro», Miguel Curado, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 22).
      Claro que os sentidos se alargam, mas desmembrar era, inicialmente, apenas privar de seus membros, separar ou cortar os membros de um animal. E esquartejar, um sinónimo que logo nos acode à memória, é, também inicialmente, apenas cortar em quartos. Nunca ouvi nenhum talhante usar outra palavra que não «desmanchar». Consulto o respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vejo? Que desmanchar é «esquartejar (animais domésticos) para lhes aproveitar a carne». Uma vaca é um animal doméstico?

[Post 3645]

Pontuação

Pelo contrário


      Fala-se da ausência do presidente da República nas cerimónias fúnebres de Saramago, e, abruptamente, isto: «O estilo ausente de pontuação, escrita ritmada como se fosse pensamento, nunca me maravilharam» («Todos os nomes menos Cavaco», Marta Rebelo, Diário de Notícias, 29.06.2010, p. 71).
      Eu queria ter boa vontade e ver naquela «pontuação» um sentido restrito, mas nem os dicionários nem o uso mo permitem: pontuação é, e cito a definição do Dicionário Houaiss, «na língua escrita, sistema de sinais gráficos que indicam separação entre unidades significativas para tornar mais claros o texto e a frase, pausas, entonações, etc. (p. ex., ponto, vírgula, ponto e vírgula, ponto de interrogação, etc.)». Em Saramago não falta pontuação, e, descontando a heterodoxia, toda correcta, que dá gosto. Há quem diga, e isso eu vejo também, que é escrita ritmada como se fosse oralidade, não pensamento. E finalmente: só com grandes malabarismos nos arranjamos para justificar a forma verbal «maravilharam».

[Post 3644]

Como se escreve nos jornais

Abrir o bico


      Ainda as cinzas de José Saramago não arrefeceram, e já se lêem textos de um mau gosto inaudito, como este publicado ontem no Correio da Manhã: «Resta anunciar a data de inauguração do novo lugar de peregrinação. Espera-se que seja numa altura em que não haja desculpas para ausências pecaminosas. É preciso mostrar ao mundo que esta Pátria pobre, socialista, ridícula e patética é a maior na arte de fazer bicos. De pé ou de joelhos» («Festival de bicos», António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 56).
      Também eu, se é que isso interessa, não simpatizava muito com o escritor, mas escrever desta forma a respeito do monumento que a Câmara Municipal de Lisboa (e é de supor que não tenha sido coagida a isso) pretende erigir em frente da sede da Fundação José Saramago não me parece menos que indigno. Resta-me a, paradoxal, tendo em conta o que venho fazendo aqui desde há cinco anos, satisfação de nem 10 % dos muitos leitores do Correio da Manhã saberem que bicos, na acepção insinuada nas posições, «de pé ou de joelhos», significa o que significa.

[Post 3643]

Ortografia: «fait-divers»

Variedades


      «O candidato presidencial Fernando Nobre considerou ontem que a “colagem” da sua candidatura a Mário Soares é apenas um “fait diver” criado por quem não quer “discutir propostas sérias para o País”, recordando que não pediu qualquer apoio» («“Colagem a Mário Soares é fait diver”», Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 36).
      Num tempo de inglesismos, os francesismos vão sendo quase completamente desconhecidos. Quase: resta, numa escrita oralizante, o que o ouvido reteve, por vezes pouco. O hífen foi-se, e só falta afeiçoar o fait: fé. Fé diver.

[Post 3642]

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