Tradução: «discreto»

Na corte


      Tinha de encontrar a melhor tradução para o vocábulo espanhol discreto — conselheiro, confidente de reis, cortesão? Talvez esta seja a mais adequada. Curioso é que nem sequer o Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) regista esta acepção. Regista outra próxima: «En algunas comunidades, persona elegida para asistir al superior como consiliario en el gobierno de la comunidad.» Comunidades religiosas, pois. E na corte? De qualquer modo, importa também realçar que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista uma acepção de «discreto» próxima desta: «Religioso de uma ordem que a representa no capítulo geral.» (Relacionado, regista «discretório».) Nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário Houaiss registam esta acepção.

[Post 3633]

Sobre «radiofarol»

Sem luz


      «Não houve nem falsos radiofaróis atraindo enganadoramente para o desastre o avião, nem mísseis prontos a destruí-lo, nem “uma longa mão” dos serviços secretos sul-africanos, ou soviéticos, ou mesmo moçambicanos» («O mistério continua», Luísa Meireles, Actual/Expresso, 15.05.2010, p. 14).
      O Dicionário Houaiss define radiofarol como o «equipamento que emite determinados sinais de rádio para orientação do navegante»; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, como a «estação emissora de ondas radioeléctricas que permite a um navio ou a um avião determinar a sua posição e seguir na rota prevista»; o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como a «estação fixa de rádio, de emissão temporária ou permanente, cujos sinais, captados a bordo de uma aeronave, permitem determinar a sua posição». Esta última definição parece-me dúbia. Quanto à definição do Dicionário Houaiss, creio que seria melhor ter optado pelo termo «navegador» em vez de «navegante». A definição constante do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é (mas gostaria de conhecer a opinião de quem sabe destas questões, como Paulo Araujo) lapidar.

[Post 3632]

Tradução e legendagem

A solução fonética


      «A trama policial adensa-se e o detective diz que o criminoso se esconde em casa do Capitão Tibes, que nem faz parte da história. Afinal, o foragido buscou refúgio no sul de França. Em Cap d’Antibes, para ser mais preciso... Conclusão: não sabes traduzir, inventa. Os exemplos da solução fonética do ‘chuta e segue em frente’ são mais que muitos na nossa TV, e há quem diga que, se a dobragem não resolve a questão, pelo menos disfarça-a» («Telecomando», José Alves Mendes, Actual/Expresso, 15.05.2010, p. 34).
      E quem é que quer a questão — a incompetência, deveria ter escrito José Alves Mendes — disfarçada? A legendagem ainda permite, pelo menos a alguns de nós, comprovar e denunciar mais facilmente até que ponto o tradutor é incompetente.

[Post 3631]

«Carro eléctrico»

Veremos, se cá estivermos


      Em comunicação pessoal, afirma Fernando Venâncio: «O carro eléctrico (o utilitário) vai tendo a mesma designação que o carro eléctrico (o transporte público). Quanto tempo poderemos (ou deveremos) aguentar essa sobreposição semântica?»
      O que penso, e respondi, é que o meio de propulsão não tem interferido, até hoje, na designação do veículo que continuamos a conhecer como «automóvel». Assim, posso estar enganado, mas nunca nos iremos referir ao automóvel movido a electricidade como «eléctrico», ficando assim a designação reservada para o veículo de transporte urbano de passageiros movido a electricidade, sobre carris de ferro. Afinal, ninguém diz «vou a Sintra no meu gêpêele (GPL)».
      Fernando Venâncio contrapõe: «De momento, lê-se (e, infiro, ouve-se) carro eléctrico, por extenso, para o automóvel. Já nisso há uma sobreposição.»
      Sobreposição semântica parcial será, pois o que eu ouço e leio é «eléctrico» para o transporte público. «Carro eléctrico» para designar este é de rara ocorrência na oralidade, e na escrita somente em casos mais formais, como «Museu do Carro Eléctrico».
      «A Siemens vai produzir sistemas de carregamento para veículos eléctricos a instalar nas habitações, no âmbito do programa de mobilidade eléctrica (MOBI.E) que está a ser desenvolvido pelo Governo, anunciou ontem o presidente do grupo em Portugal» («Carros eléctricos carregados em casa», Diário de Notícias, 15.05.2010, p. 47).
      O que pensam os meus leitores desta questão?

[Post 3630]

Sobre «hábito»

Mas nem sempre


      Nunca pensamos na palavra «hábito» como significando, não a indumentária de um religioso (ou religiosa), mas a insígnia, o distintivo de uma ordem religiosa ou militar — ou religiosa militar, como a de Calatrava, por exemplo, a mais antiga em Espanha, cujos cavaleiros tomaram entre nós o nome de freires de Évora, e depois freires de Aviz. E em espanhol também o vocábulo hábito tem esta acepção. O hábito dos cavaleiros de Calatrava era uma cruz régia floreada.

[Post 3629]

Sobre «barato»

De interesse público


      Uma das acepções de barato, como substantivo, é a «comissão paga por jogadores de carteado a quem lhes disponibiliza o local e material de jogo» (Dicionário Houaiss) ou o «dinheiro que o dono da tavolagem retira do bolo ou recebe do banqueiro como interesse que lhe é devido» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa) ou a «percentagem paga ao dono de uma casa de jogo, deduzida dos ganhos do jogo» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Parece-me que é castelhanismo — mas isso não é grave, que os temos às centenas, tanto mais que é antigo. Mas esperem... aquele «interesse que lhe é devido» do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não é má tradução do espanhol interés, «juro»? Mas, nesta língua, barato também é a «porción de dinero que daba voluntariamente quien ganaba en el juego» (DRAE).

[Post 3628]

Pontuação

De cátedra


      «Para chegar a este modelo [de cátedra ou cadeira pontifícia] foi preciso construir três protótipos e 76 horas de trabalho, na empresa Antarte. Ambas as peças foram feitas com “materiais e soluções do Norte”, garantiu o arquitecto Aldemiro Rocha: combinam madeira com pele, distinguindo-se por terem o logotipo de Bento XVI gravado. Já o biombo, foi desenhado pela designer portuense Luísa Peixoto» («Papa pediu para levar cadeiras», Diário de Notícias, 15.05.2010, p. 5).
      Vamos ignorar a questão protótipos/logotipo, ou começamos mal o dia. Centremo-nos na pontuação da última frase. Uma vírgula a separar o sujeito do verbo na ordem directa e sem orações intercalares? Pura inépcia gramatical. O erro deriva, a meu ver, de se confundir esta com outra construção com o mesmo significado: «Já quanto ao biombo, foi desenhado pela designer portuense Luísa Peixoto.» Neste caso, com vírgula, sim.

[Post 3627]

Formas perifrásticas

Se quer saber


      Cara Luísa Pinto: já aqui abordei pelo menos uma vez essa questão. Hoje exemplifico com outra frase errada: «Apesar de fazer parte da colecção Portugal Turístico (o logótipo é um trevo de quatro folhas), o postal foi Made in Italy. É pois aos italianos que assacamos o ultraje. Não é assim tão mau: acabamos por nos habituarmos a morar em Necklaces» («Feito à mão», Miguel Esteves Cardoso, Público, 6.06.2010, p. 33).
      O nosso notável cronista desprezou o que lhe terá ditado a intuição, e a gramática saiu ofendida. Com formas verbais perifrásticas, o infinitivo deve ser impessoal: acabamos por nos habituar.

[Post 3626]

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