Léxico: «enfermeiro nocturno»

Fazer vela


      «Quando cheguei às Urgências de Psiquiatria, estava tudo em silêncio e o enfermeiro nocturno estava a jogar ao solitário no computador com o rosto apoiado flacidamente sobre a mão» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 17).
      Sobrinho de enfermeiros, toda a vida ouvi que de noite se estava no «serviço de vela», nunca que se era «enfermeiro nocturno». (Vela é, aqui, um regressivo do verbo velar.) Lembram-se da «enfermeira circulante»? Neste caso, há-de ser tradução do inglês nocturnal (male) nurse. A única abonação para a expressão encontro-a neste número do Boletim do Trabalho e Emprego.

[Post 3553]

«Arame metálico»?

Puxado à fieira


      «As mesmas madeixas curvas cortadas a direito, como nessas bonecas vestidas de indígenas que vivem toda a vida em caixas de plástico, seguras por um arame metálico à cintura» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 13).
      Eu sei que por vezes se diz «arame metálico», mas será mesmo necessário acrescentar o adjectivo? Arame não é o fio de qualquer metal puxado à fieira? Ainda se fosse «fio metálico».

[Post 3552]

Recursos

O cão encadernado


      O leitor Paulo Araujo mandou-me o artigo acima sobre a reedição do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira Azevedo, pela Lexikon Editora Digital. A segunda boa notícia é a de que até final do ano a obra poderá ser consultada gratuitamente na Internet.
      É escusado enaltecer a importância dos dicionários analógicos. Sobre o dicionário do padre jesuíta Carlos Spitzer (1883–1922), ler este texto.

[Post 3551]

Léxico: «cronovelema»

Agora é tarde


      «Assim começa A Arte de Morrer Longe, o novo livro de Mário de Carvalho. Não é um romance, uma novela ou um conto. É um cronovelema» («A culpa é do Facebook», Rita Silva Freire, Sol, 14.05.2010, p. 46).
      O escritor, que lê Os Maias uma vez por ano, inventou a palavra cronovelema — e mandou-a estampar na capa — para designar a última obra. O que me parece, porém, é que estas classificações tipológicas já não interessam a ninguém, e sobretudo se inventadas.

[Post 3550]

Formas de tratamento

Trapalhadas


      V de Vingança, outra vez. O P. Lilliman fora capelão na Prisão de Larkhill. Agora é bispo. Vamos encontrá-lo na Abadia de Westminster, com o secretário a dirigir-se-lhe: «Your Grace.» «Oh, Dennis. Has everything been arranged?», diz o bispo. Há então um pequeno equívoco, pois o secretário pensa que o prelado se está a referir a uma viagem a Perth, mas na realidade era aos seus apetites pedófilos. («My last little joy.») O secretário desculpa-se: «I’m sorry, Your Grace.» Como é que Accra B. Rockley traduziu your grace, podemos saber? Traduziu sempre mal, traduziu por «vossa graça». Desde quando se usa «vossa graça» para nos dirigirmos a um bispo? Usa-se excelência (e «Vossa Excelência» ou «Vossa Excelência Reverendíssima» na correspondência). Entretanto, entra V, que cumprimenta: «Reverend.» Tradução de Accra B. Rockley: «Reverendo.» Mas reverendo, em português, é a forma de tratamento para um simples padre. Não é só Isabel Stilwell que vem errando de livro para livro.

[Post 3549]

Sobre «item»

Igualmente


      «A Secretaria Regional de Educação dos Açores anunciou ontem que vão ser anulados dois itens da prova de avaliação sumativa externa de Matemática, realizada quarta-feira por alunos do 9.º do arquipélago. Segundo as autoridades, a anulação foi motivada por “incorrecções” detectadas nos itens 5.1 e 8.2 da prova» («Anulados dois itens em prova nos Açores», Público, 21.5.2010, p. 11).
      É uma questão de gosto pessoal: não gosto da palavra «item». Também estou muito condicionado, vendo bem, pela acepção mais usada em Direito: cada um dos artigos de uma exposição escrita ou requerimento. E o vocábulo «item» traz outro perigo: não é raro certos burocratas, talvez até mesmo do Ministério da Educação, lerem-no como se fosse uma palavra inglesa. Abrenúncio! E quem diz item diz subitem.

[Post 3548]

«Em segunda mão»

Novo


      «Era em segunda-mão e estava à venda numa livraria em Naxos, onde trocávamos os livros e onde os turistas de mochilas às costas iam vender coisas quando os fundos começavam a escassear» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 121). «Para este jovem avaliador e restaurador de jóias de 33 anos, a actual conjuntura não tem favorecido o negócio da compra de jóias em segunda-mão» («Quanto valem as jóias da nossa vida?», Joana Nogueira, Domingo/Correio da Manhã, 30.05.2010, p. 44).
      Os dicionários registam «em segunda mão», mas em jornais e livros vai predominando «segunda-mão». Não sei para que serve aqui o hífen.

[Post 3547]

Nome de monumento

Espantoso


      «Através de uma confusão de fios telegráficos, avistei a catedral de Pedro-e-Paulo que, na bruma da manhã, parecia um pagode de uma Catai imaginária» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 193).
      É espantoso como por vezes nos jornais se escreve melhor do que nos livros: «Quando o grão-duque [Vladimir Kirillovich Romanov, primo do czar Nicolau II (1917–1992)] morreu, um ano mais tarde, a grã-duquesa [Leónida Romanov (1914–2010)] regressou a São Petersburgo para assistir aos serviços fúnebres realizados na Catedral de Pedro e Paulo, onde também ela será enterrada pelos primeiros dias de Junho» («A grã-duquesa vai voltar a casa», Leonor Pinhão, Domingo/Correio da Manhã, 30.05.2010, p. 39).

[Post 3546]

Arquivo do blogue