«Em segunda mão»

Novo


      «Era em segunda-mão e estava à venda numa livraria em Naxos, onde trocávamos os livros e onde os turistas de mochilas às costas iam vender coisas quando os fundos começavam a escassear» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 121). «Para este jovem avaliador e restaurador de jóias de 33 anos, a actual conjuntura não tem favorecido o negócio da compra de jóias em segunda-mão» («Quanto valem as jóias da nossa vida?», Joana Nogueira, Domingo/Correio da Manhã, 30.05.2010, p. 44).
      Os dicionários registam «em segunda mão», mas em jornais e livros vai predominando «segunda-mão». Não sei para que serve aqui o hífen.

[Post 3547]

Nome de monumento

Espantoso


      «Através de uma confusão de fios telegráficos, avistei a catedral de Pedro-e-Paulo que, na bruma da manhã, parecia um pagode de uma Catai imaginária» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 193).
      É espantoso como por vezes nos jornais se escreve melhor do que nos livros: «Quando o grão-duque [Vladimir Kirillovich Romanov, primo do czar Nicolau II (1917–1992)] morreu, um ano mais tarde, a grã-duquesa [Leónida Romanov (1914–2010)] regressou a São Petersburgo para assistir aos serviços fúnebres realizados na Catedral de Pedro e Paulo, onde também ela será enterrada pelos primeiros dias de Junho» («A grã-duquesa vai voltar a casa», Leonor Pinhão, Domingo/Correio da Manhã, 30.05.2010, p. 39).

[Post 3546]

«Tenho certeza»?

Accra ataca de novo


      «Tenho certeza que dirão que sim» («I am quite sure they will say so.»), diz V, com a sua máscara de Guy Fawkes, a Evey Hammond, depois de a ter salvado das mãos dos acusadores num beco escuro de Londres durante o recolher obrigatório. O filme tem como título V de Vingança e passou ontem à noite na RTP1. Tradução e legendagem, lembram-se bem, de Accra B. Rockley. Lá está a omissão do artigo a denunciá-lo.

[Post 3545]

«Dar um quico»?

Fora de circulação


      «Um chefe de redacção que eu tive», escreveu Alice Vieira recentemente, «dizia muitas vezes: “Um jornal que se preza não circula com palavras fora de circulação.”» É claro que o conselho se aplica também a livros e a filmes, por exemplo. Num filme que anteontem passou na RTP1, Boiler Room (que também é conhecido por O Primeiro Milhão), o protagonista, Seth Davis, está num bar com uma colega, Abbie, e, a pedido dela, conta-lhe um episódio da sua infância. Tinha 10 anos e andava na rua de bicicleta, uma Mongoose prateada. «O meu pé escorregou e o pedal deu um quico e partiu-me a perna.» («And my foot slips and the pedal spins around hard enough to break my leg.»)
      Como substantivo dicionarizado, toda a gente saberá que quico é um chapéu pequeno e ridículo. Como substantivo deverbal, não dicionarizado, derivado de quicar, tenho sérias dúvidas da propriedade e de que a maioria dos falantes o conheça. Como não vi o filme até ao fim, não sei quem fez a tradução.

[Post 3544]

Verbo «haver»

Era só o que faltava


      À saída do debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro, José Sócrates, disse aos jornalistas: «Não, as únicas medidas que podem haver são aquelas medidas que são previstas no Plano de Estabilidade e Crescimento.»
      Por coincidência, já hoje aqui falámos da impessoalidade do verbo haver no sentido de existir. Há, é verdade, alguma tolerância (e é conveniente dizê-lo, pois em público, em vez de se congratularem com um blogue como este, há quem apele para a minha «complacência», como se eu fosse um monarca absoluto atreito a excessos...), dado que se trata da oralidade, mas ainda assim erro é erro, e este é grosseiro. Estão reunidas as condições para ser mais grave do que parece: é o primeiro-ministro e foi aos microfones da rádio.

[Post 3543]

Aiatola/foxetrote/sprinte

Uma lição


      Não é daqueles tradutores adeptos de aportuguesamentos descabelados, como já aqui vimos, mas ainda assim não deixa de surpreender os que vai adoptando: «Inspirava-o, no entanto, um espírito não menos implacável do que do aiatola e era reclamado em nome de ideais não menos exaltados» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 15). «Havia noites em que cada verso de cada canção assumia um significado tão estranhamente momentoso que ele acabava a dançar sozinho o foxetrote arrastado, leve, repetitivo, banal e, contudo, maravilhosamente útil para criar ambiente que costumava dançar com raparigas do liceu de East Orange, contra as quais comprimia, através das calças, as suas primeiras erecções significativas» (idem, ibidem, p. 27). «Pensar no Dr. Fensterman a entregar ao seu pai um grande saco de papel atafulhado com todo aquele dinheiro pô-lo de novo a correr, a saltar, de brincadeira, imaginárias barreiras baixas (era há vários anos o campeão liceal de provas de barreiras baixas de Essex County e o segundo nos duzentos metros sprinte) até à Evergreen e volta» (idem, ibidem, p. 102).
      De resto, as traduções de Fernanda Pinto Rodrigues deviam ser lidas com muita atenção por tradutores, revisores e editores. Escrever-se-iam menos disparates.

[Post 3542]

Haver/existir

É connosco


      «Dou frequentemente com o verbo “existir”», escreve-me o leitor Pedro Ribeiro, «a ser usado em frases onde o verbo “haver” servia perfeitamente.» Acrescentou alguns exemplos: «O responsável assinalou que existem em Portugal cerca de 1,4 milhões de armas legais» (in Sol). «Existem 2,08 milhões de empréstimos à habitação» (in Diário de Notícias). «Porque não dizer que “há em Portugal cerca de 1,4 milhões de armas” ou que “há 2,08 milhões de empréstimos”?» E conclui: «Enfim, a minha sensação é que, como “haver” é um verbo irregular e que pode ser complicado de conjugar, muitos escritores acabam por se refugiar no “existir”. Mas não creio que as palavras sejam sinónimos.»
      São sinónimos, pelo menos actualmente e numa das acepções, mas a peculiaridade do verbo haver no sentido de existir é a sua impessoalidade, o que é ignorado por alguns alunos, professores, políticos, jornalistas, revisores... Nos casos que indica, contudo, também eu mudaria os verbos.

[Post 3541]

Léxico: «clickjacking»

Não é comigo


      «Centenas de milhares de utilizadores do Facebook estão a ser vítimas de ataques de “clickjacking”, segundo vários especialistas internacionais em segurança online. Clicando em links como “Campeonato do Mundo 2010 em HD”, que outras pessoas dizem ter “gostado”, os membros da rede social são reencaminhados para sites “maliciosos” controlados por terceiros. Os ataques infiltram-se no sistema do utilizador» («“Jacking” chegou ao Facebook», T. C. E., Metro, 4.6.2010, p. 12).
      Num tempo em que o Facebook parece ter tomado conta do mundo — e eu continuo fora do mundo, porque estou fora do Facebook —, mais um neologismo para decorar.

[Post 3540]

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