De mais/demais

É como quiser


      «Era por demais óbvio que, se eu estivesse minimamente consciente durante as últimas horas, teria tentado escapulir-me há imenso tempo» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 154). «Durante o encontro, Coleman ouvira em silêncio, refreando os seus sentimentos, tentando manter o espírito aberto e ignorar a satisfação por de mais aparente com que Primus expunha e aconselhava, com pompa, as virtudes da prudência a um professor universitário quase quarenta nos mais velho do que ele» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 95).
      É mais uma das áreas pantanosas da nossa língua. Ninguém erra escrevendo de uma ou de outra forma. Só pode haver preferências, e eu prefiro por de mais.

[Post 3539]

«Quando muito»

Outra vez?


      «Com base nas dimensões da casa, o quarto trancado à chave não seria muito grande, quanto muito seria ligeiramente mais pequeno do que o meu quarto, e talvez não fosse mais do que um cubículo» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 59).
      No máximo, se tanto — escreve-se quando muito, e já o vimos aqui mais de uma vez. Só para demonstrar que é no mais simples que muitas vezes nos espalhamos ao comprido.

[Post 3538]

Actualização em 7.06.2010

      Parece ser um erro de todos os dias: «Mas não era como se, graças a algum freudismo de ocasião, Rema viesse substituir de modo obscuro a minha mãe; quanto muito, Rema fazia com que a minha mãe parecesse, em retrospectiva, uma sombra pálida de um amor original ainda por surgir» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 65).



Sol/sol

Pouco solar


      «Uma fraca luz de um cinza-azulado iluminava o espaço, graças a uma enorme janela por detrás da área da recepção que deixava entrar um Sol fraco, proveniente de um jardim húmido e esquecido no pátio» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 140).
      Deus nos livre de o Sol, com núcleo central, fotosfera, camada inversora, coroa solar e camada emissora de luz zodiacal, nos entrar assim pela casa. Matava-nos. Nesta tradução, há outros problemas solares: «O guia informa que esta baía ao pôr-do-sol é um dos locais mais românticos de todas as Cíclades, e refere ainda, de uma forma surpreendentemente franca, que é um sítio fantástico para se ter relações sexuais ao ar livre» (idem, ibidem, p. 127).

[Post 3537]

Geórgia/Jórgia

Será mesmo necessário?


      Numa nota à resposta a uma consulta sobre topónimos urbanos, lê-se no Ciberdúvidas: «Para designar em português o estado dos Estados Unidos da América que se chama Georgia em inglês, a forma recomendada por Rebelo Gonçalves no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (1947: 353, n. 4) e no Vocabulário da Língua Portuguesa (1966) era Jórgia, que se distinguia assim de Geórgia, país do Cáucaso. Contudo, essa forma não logrou impor-se no uso, como se pode comprovar pelo facto de na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura da Editorial Verbo ocorrer Geórgia como designação comum aos dois territórios.»
      Não logrou impor-se no uso, mas vai-se lendo de vez em quando, tanto em traduções como na imprensa: «O pai era, como antes dele o fora o seu pai, que foi pastor metodista na Jórgia» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 337). «Segundo o diário Atlanta Journal-Constitution [AJC], a televisão do estado da Jórgia, no Sul dos Estados Unidos, transmitiu imagens da efígie, com cabeça negra, pendurada diante de um cartaz no qual se pode ler: “Plains, Jórgia. Reduto de Jimmy Carter, o nosso 39.º presidente”» («Boneco ‘Obama’ enforcado na Jórgia», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 4.1.2010).
      Mas será mesmo necessário distinguir?

[Post 3536]

«Não tem de quê»/«De nada»

¡Muchas gracias!


      «— Não tem de quê. Faz bem em descansar uns dias depois do que passou para chegar aqui» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 114).
      Quando é que deixámos, generalizadamente, de dizer «não tem de quê» e passámos a dizer «de nada»? Não sei. E quem tem a noção de que esta última resposta à fórmula de agradecimento é um castelhanismo? No Portugal Protocolo, ainda não se esqueceram.

[Post 3535]

Léxico: «transportadora»

Ultrapassados pela realidade


      «Em breve estarei a debater-me com o gato para o meter na caixa de transporte, pegarei nos dictafones e sairei de casa, quiçá para sempre» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 93).
      «Caixa de transporte», sim, mas há anos que se usa, com vantagem, o vocábulo «transportadora» para designar o mesmo. Contudo, para os dicionários, «transportadora» continua a ser somente a «empresa de transportes» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora) ou a «empresa especializada no transporte de carga ou de passageiros» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).
      Quanto a dictafone, é mais um vocábulo obtido por derivação imprópria: quando uma empresa norte-americana inventou um gravador que servia especialmente para ditar a correspondência, deu-lhe o nome comercial de Dictaphone. Posteriormente, outras empresas e outras marcas passaram a usar o vocábulo para designarem aparelhos com as mesmas características. Logo, a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa está errada: «Nome registado de um gravador que serve especialmente para ditar a correspondência.» Imagine-se proceder da mesma maneira para a palavra «gilete»: «Nome registado de aparelho de barbear composto, etc.» No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o problema é outro e não menos grave (comum a outros verbetes já aqui analisados): a etimologia do vocábulo é falsa, errada.

[Post 3534]

Hífen

Piso escorregadio


      O uso do hífen merecia um estudo sério e uma reforma ortográfica. Entretanto, manda o capricho de cada escrevente e dicionarista. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não há dúvida: é com hífen. Meia-verdade. Se procurarmos «meia-verdade» no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, o nosso olhar cai no espaço entre «meia-tinta» e «meia-volta». Recorremos ao VOLP da Academia Brasileira e também não o encontramos, mas entre «meia-tinta» e «meia-volta» encontramos «meia-vida» e «meia-vira».
      «Meia verdade. Menos de meia verdade. Boa sorte e lamento. O Primeiro Eric Sanderson» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 23).
      Mas ainda o capricho. «Há a cabeça de um sapo; uma flor; uma espécie estranha de alga; e um animal meio-ave meio-serpente» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 110) «Aos vinte e dois anos, sentindo-se asfixiado pela falsa euforia que reinava em Paris de pós-guerra, organizou uma expedição ao Camboja à procura das ruínas khmers, mas as autoridades coloniais prenderam-no por tentar escapar com esculturas que encontrara meio-perdidas na selva» (idem, ibidem, p. 130). «Um desses aventureiros, vestido num traje com plumas, pretendia ser apenas meio-mortal quando o desgraçado nem conseguia transformar o cinabre em ouro» (idem, ibidem, p. 218).
      Podemos continuar assim? Podemos, mas viveríamos muito melhor com certezas.

[Post 3533]

Tradução: «condition»

Sem condições


      «— Na maioria dos casos, a amnésia dissociativa aparece e desaparece relativamente depressa. Na generalidade, é o evento despoletador, o incidente traumático que provoca a condição, que é esquecido. Por vezes, a perda de memória pode ser... — a Dr.ª Randle desenhou um pequeno círculo com a cabeça — mais abrangente, mas isso é raro. Até uma única recorrência de qualquer género de amnésia dissociativa é muito, muito invulgar» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 20).
      Isto não está em condições: desde quando é que em português se usa o vocábulo condição para nos referirmos ao estado de saúde? Nem sempre a condition inglesa é a condição portuguesa. Nesta tradução, é erro que se repete demasiado.

[Post 3532]

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