Ortografia: «centro-direita»/«centro-esquerda»

Desamparados, não


      Conservadores e liberais coligados? «Pode ser o renascimento de um liberalismo culpado, com vontade social-democrata, salvando, durante mais uns tempos, o Estado-Providência. Esta coligação pode modernizar os Tories e isolar “a direita”, como Cameron se refere aos camaradas que o definem como wet (mole, liberal). Pode ser que a soma do centro esquerda e do centro direita dê centro. Ou não dê em nada» («No meio da média», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.5.2010, p. 39).
      Sim, concordamos, mas escreve-se centro-esquerda e centro-direita, e até há dicionários que registam esses substantivos compostos, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.


[Post 3449]

Léxico: «paraprofissional»

Sem dúvida


      Cara M. J. R., não me parece que o termo cause assim tanta estranheza, sobretudo se tivermos em conta que aparece contextualizado. Estou aqui a ver um Manual para Treino de Paraprofissionais: Economia Familiar e Nutrição, um texto policopiado da responsabilidade da extinta Direcção-Geral de Extensão Rural e datado de 1979. Se se deve a influência inglesa, e há-de dever, a verdade é que esta abonação nos remete para trinta e um anos atrás. Em inglês, paraprofessional é «a trained aide who assists a professional person (as a teacher or doctor)» (in Merriam-Webster). E, afinal, o prefixo par(a)- não nos é assim tão estranho, e até na mesma área: lembre-se de «paramédico». Tudo visto, use paraprofissional.

[Post 3448]

Epânodo. Definição e exemplo

Estudava-se outrora


      Um leitor brasileiro, W. O., pretende saber em que consiste o epânodo. Bem, é matéria que as gerações mais novas de Portugueses ignoram totalmente. Era uma figura de estilo (figura de sintaxe ou de construção, mais precisamente) estudada, por exemplo, na obra do P. António Vieira. Contudo, com as últimas reformas do ensino, obras como esta foram eliminadas dos currículos. Aliás, quase toda a literatura foi escorraçada, tendo dado lugar ao estudo da língua em textos pragmáticos, utilitários. O mais perto que se fica é pedir aos alunos que redijam a acta (!) do Consílio dos Deus.
      Voltemos ao epânodo. Consiste na repetição discriminada de dois ou mais termos que anteriormente foram empregados juntos. É, no fundo, uma recapitulação (é esse o significado do étimo) do que antes se escreveu. Eis um exemplo, colhido no Sermão da Sexagésima, uma obra exemplaríssima agora estupidamente substituída nas escolas por obras de escritores medíocres e traduções malfeitas: «A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio; relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata.»

[Post 3447]

«Foi o Pai que me ensinou»

Anticampanha


      Um avisa que outros podem não perceber a frase, outro afirma que não percebe: «Já a campanha com o lema Foi o Pai que me ensinou peca por ineficaz: para quem está fora da Igreja (e para muitos dos que estão dentro) o significado do “Pai” não era perceptível» («A (falta de) estética católica e os avisos do Papa», António Marujo, Público, 12.05.2010, p. 5). «Confesso que não percebo a campanha “Foi o Pai que me ensinou”, que está por todas as ruas para comemorar a visita papal. Sei que este Pai se escreve com maiúscula porque foi assim que a Agência Ecclesia escreveu no despacho que anunciava a campanha. Pelos mupis e pelos cartazes não se pode saber porque está tudo em maiúsculas. As notícias que li sobre a campanha falavam do slogan como se fosse a coisa mais evidente do mundo e não explicavam que pai era aquele. Imagino que alguns dos jornalistas que estiveram na conferência de imprensa onde a campanha foi apresentada eram católicos praticantes e perceberam logo tudo e que os outros tiveram vergonha de perguntar para não lhes chamarem ateus, mas a verdade é que eu não sei de que pai estão a falar. Do Pai Eterno? Do pai, daquele que não costuma precisar de maiúscula? Do pai espiritual? Do Papa?» («As nove virtudes teologais», José Vítor Malheiros, Público, 12.05.2010, p. 41).
      E a frase está acaso descontextualizada? Não está inserida numa campanha? Se quase 90 % dos Portugueses se declaram católicos e a Igreja Católica não é proselitista, acho que não há problema nenhum. E, por outro lado, como se afere a eficácia de uma campanha: perguntamos aos colegas se perceberam? Perguntamos em casa, à nossa família?

[Post 3446]

«Colocar em causa»?

Mais um prego


      «Manuel Alegre publicou ontem no seu site (www.manuelalegre.com) uma cronologia detalhada sobre a forma como cumpriu o serviço militar, com o objectivo de esclarecer dúvidas que têm sido levantadas sobre a matéria. O candidato presidencial diz que não tem nada a esconder, “ao contrário dos cobardes que espalham calúnias a coberto do anonimato”, e vai “agir judicialmente” contra os que colocarem em causa a sua carreira militar» («Alegre processa quem coloca a sua carreira militar em causa», Luciano Alvarez, Público, 12.05.2010, p. 21).
      Quis saber se também o poeta já tinha cedido a esta moda aparvalhada de substituir o verbo pôr pelo verbo colocar, agora omnipresente, mas não, é mesmo inépcia do jornalista.

[Post 3445]

«Farisaísmo» ou «fariseísmo»?

Dá que pensar


      «Quem tem razão», pergunta-me o leitor e também revisor J. J. L., «aqui como noutras situações — os dicionários ou os falantes/escreventes? É que, dos quatro ou cinco dicionários que compulsei, nenhum regista a variante “fariseísmo”, de “fariseu”, e todos pelo contrário apontam “farisaísmo”, de “farisaico” — e eu próprio estaria mais tentado a concordar com a primeira…»
      Bem, o que me parece é que a forma farisaísmo, a única que os dicionários registam, é contra-intuitiva, pois de fariseu nunca a obteríamos. O que acontece é que farisaísmo se obteve a partir da forma radical farisa + ismo. É muito raro ouvir (talvez menos ler) a forma dicionarizada.

[Post 3444]

Tradução: «solicitor-general»

Sai disparate


      «Vários senadores republicanos, que no ano passado elogiaram a escolha de Elena Kagan para solicitor-general (a advogada que litiga no Supremo Tribunal em representação do Governo), já avisaram que este é um processo distinto, uma vez que as nomeações para o Supremo são vitalícias» («Obama escolhe mais uma mulher (que nunca foi juíza) para o Supremo Tribunal dos EUA», Rita Siza, Público, 11.05.2010, p. 23).
      Rita Siza não se atreveu a traduzir solicitor-general, e fez mal. O Diário de Notícias atreveu-se, e também fez mal, pois solicitor-general não é solicitadora-geral mas procuradora-geral, embora não corresponda à nossa figura com a mesma designação, pois é um alto funcionário do Departamento de Justiça norte-americano que representa a Administração no Supremo Tribunal.

[Post 3443]

Pronúncia: «ícone»

«I-cone»?!


      Na emissão de anteontem do programa Câmara Clara, Paula Moura Pinheiro e Mário Pereira, director do Palácio Nacional de Mafra (PNM), pronunciaram de uma forma um pouco estranha a palavra «ícone». Ora ouçam aqui (quase no final do 9.º minuto de gravação). Digam-me depois se é assim que a pronunciam. Vá-se lá saber porquê, as questões de pronúncia abespinham muito mais as pessoas do que as relativas à ortografia e outras. (No Forvo, a pronúncia, por uma falante brasileira, também não me convenceu.)

[Post 3442]

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