«Corria rua a cima»?

De cima a baixo


      «Subiram serra acima», exemplifica o Dicionário Houaiss o uso do advérbio acima. Mas leio agora: «Enquanto corria pela rua a cima, a única coisa que perturbava a minha felicidade era que me pudessem deixar para trás» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 221). Na obra Estrela Polar, de Vergílio Ferreira, leio: «rodando depois por outra rua acima»; n’A Tragédia da Rua das Flores, de Eça de Queirós, leio: «e, no ímpeto da alegria, rompeu pela rua acima cantando»; na obra Rua: novelas e contos, de Miguel Torga, leio: «A voz do Pedro, filho da Maria Peixeira, pela rua acima, parecia uma sineta a anunciar incêndio ou ressurreição»; na obra O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge, leio: «À espera da víbora ainda há quem ande, rua abaixo rua acima»... A significar destino, direcção, não se usa a construção por + grupo nominal + acima?

[Post 3221]

Léxico: «arquipresbítero»

Viva


      «No quarto, encontrei Iurovski e um guarda, além dos dois religiosos, o arquipresbítero Storozhev e o deão Buimirov» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 189).
      Tanto quanto me lembro, nunca tinha visto ser usado o vocábulo arquipresbítero. Só dos dicionários o conhecia. E não deixa de ser curioso que tenha ocorrido à tradutora para traduzir o vocábulo inglês archpriest, mais próximo do mais usual arcipreste. Mas ainda bem que ocorreu, saúdo-o vivamente, porque ninguém gosta mais de variedade do que eu.

[Post 3220]

O moral ‘vs.’ a moral

Em baixo


      Apesar da disposição sombria de todos, os prisioneiros comemoraram o aniversário de uma das grã-duquesas. «Fizemo-lo por insistência do czar, já que, como bom soldado e bom pai, estava preocupado com a moral da sua pequena tropa» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 161).
      Quantas vezes já aqui falei desta questão o moral vs. a moral? Nem eu sei. Aqui (e noutros excertos, mas agora estamos neste), tradutora e revisor espalharam-se ao comprido. A destrinça será assim tão difícil de fazer? Ou será indiferente?

[Post 3219]

Infinitivo impessoal

Gramática em pedaços


      «O piloto inclinaria o aparelho, faria pontaria com todo o cuidado e largaria uma bomba sobre a Casa Popov, fazendo todos voarem em pedaços» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 157).
      Mas as orações subordinadas gerundivas não são orações não finitas, ou seja, orações com formas não flexionadas de verbos? Então será «fazendo todos voar em pedaços».

[Post 3218]

«Estratego» e não «estratega»

Pierogi e estrategistas


      Estratego, a partir do grego, e não estratega, dizem alguns estudiosos. Mas há forma de contornar, se não queremos arrostar, a questão: «O cozinheiro Haritonov revelou-se um mestre a fazer uma refeição de praticamente nada — cogumelos selvagens em blini, arroz de sobras com couve no meio de pierogi —, mas não era de maneira nenhuma um estrategista da dissimulação» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 156). Claro que a maior parte dos dicionários são descritivistas (dá menos trabalho...), e registam, sem qualquer nota ou observação, estratega e estratego. O Dicionário Houaiss, porém, nem sequer regista a primeira.

[Post 3217]

Léxico: «guarda-vermelho»

A culpa é de Rasputine


      Já tínhamos visto guardas-civis, guardas-florestais, guardas-marinhas, guardas-mores, guardas-municipais, guardas-nocturnos, guardas-prisionais e guardas-republicanos, faltavam os guardas-vermelhos: «É verdade, os guardas-vermelhos tinham representado o homem que eles imaginavam que maculara a dinastia e feito desmoronar o império, Grigori Rasputine, a copular com a traidora à pátria, a cabra alemã, a imperatriz Alexandra Fiodorovna» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 132).
      Guarda tanto pode ser uma forma do verbo guardar, 3.ª pessoa do presente, guarda-lama, como um substantivo, guarda-fiscal. No primeiro caso, só o último elemento vai para o plural. Mas o plural de guarda-freio é guarda-freios... Pois é, mas Leite de Vasconcelos cita um anúncio de um jornal de 1907: «Associação de classe dos condutores e guardas-freios da viação lisbonense». Escreveu este filólogo: «É preciso fazer a distinção, se se puder. Em guarda-marinha há referência a pessoa, e guarda é nome; em porta-bandeira também se refere a pessoa, e contudo porta é verbo (imperativo)» («Ementas gramaticais para a história da língua portuguesa», in Revista Lusitana, vol. XXXVII, p. 7). E acrescenta: «Quanto a guarda-marinha segue-se a analogia, e poderá dizer-se guarda-marinhas, pois é como se se tivesse perdido a consciência da composição.» E pergunta: «Em guarda-freio é guarda nome ou verbo? Em guarda-portão é guarda nome ou verbo?» E responde: «Era preciso, para se mostrar que era nome, que se tivesse dito outrora guarda-do-portão. Decerto não se disse.» E mais: «Ora guarda-freio é do nosso tempo, nunca houve guarda-do-freio; foi palavra formada por analogia com outra composta de guarda. Entendo que o plural é respectivamente: guarda-freios e guarda-portões.» E no nosso caso? Guarda é nome ou verbo?

[Post 3216]

Sinal da cruz

Persigno-me


      Podemos fazer o sinal-da-cruz como fazemos pão-de-ló? Isto é, usar hífenes? Há quem diga que sim: «Percebendo que chegara o momento que tanto temera, mas pelo qual tanto rezara, a velha russa fez nervosamente o sinal-da-cruz sobre o peito» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 11). E o Dicionário Houaiss concorda. Por sinal, a versão electrónica deste dicionário não regista com hífenes. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a cruz é mais pesada: sinal da Cruz. É uma excepção.

[Post 3215]

«Tomara que...»

Com ênfase

      Um leitor avisou-me e fui ver. No Telejornal de ontem, a propósito da «contaminação política», o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), João Palma, disse enfaticamente: «Tomara nós, tomara nós, magistrados do Ministério Público, que tivéssemos as condições todas que são necessárias e que não temos, muitas vezes faltam, para podermos exercer a nossa função, sobretudo ao nível da investigação criminal, com meios suficientes, sem constrangimentos de qualquer ordem.»
      A tendência é para tomar o vocábulo tomara como interjeição, mas, no caso, a construção teria de ser outra, com a interjeição a ser seguida de uma completiva de infinitivo flexionado. Assim, na frase é errado não flexionar: tomáramos nós... Tratando-se de um magistrado, ainda é mais grave, disso não há dúvidas.

[Post 3214]

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