«Incumbente»: acepção inglesa

Fica a incumbência


      «Para as próximas eleições intercalares de Novembro, a estratégia do Tea Party é desafiar — e derrotar — todos os chamados “incumbentes”, quer eles sejam democratas ou republicanos. É precisamente neste último caso que a sua influência poderá ter consequências imprevisíveis: muitos dos concorrentes conservadores mainstream poderão ser preteridos por candidatos radicais, que inevitavelmente conduzirão o partido para um extremo» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 13).
      As aspas não são salvatério suficiente. Na língua portuguesa, o vocábulo incumbente não tem a acepção usada na frase citada. Nos Estados Unidos, incumbent, em contexto político, refere o actual titular de um cargo. Assim, the incumbent President é o actual presidente. Incumbe à jornalista explicar convenientemente o que escreve.

[Post 3081]

Porque/por que

Questões comezinhas, hã?


      «Com uma presença relativamente discreta na sociedade americana, os chamados “teabaggers” (a designação porque são conhecidos os entusiastas da causa, sem tradução em português) tornaram-se crescentemente visíveis ao longo do ano de 2009, tendo chegado a dominar o noticiário no pico do Verão, com a sua marcha sobre Washington em protesto contra o plano de reforma do sistema de saúde em debate no Congresso» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 12).
      Este é um erro muito comum — mas imperdoável num jornalista —, a confusão entre a conjunção porque e a preposição por com o pronome relativo que, equivalente a pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais.

[Post 3080]

Elemento de formação «anti-»

Anticristo


      «O sucesso da primeira grande conferência nacional do movimento conservador anti-Governo conhecido como “Tea Party” está seriamente em causa, depois de uma série de controvérsias e deserções de última hora terem desfeito o alinhamento de oradores convidados para animar o evento, que arranca na próxima quinta-feira, em Nashville no Tennessee» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 12).
      Nem por acaso, o último post de ontem era sobre o elemento de formação anti-, habitualmente desconsiderado por quem escreve — e mesmo por quem, os revisores, tem como única incumbência emendar os erros de quem escreve. Neste caso, o que se passa é que os acordos ortográficos não regulam o uso deste elemento de formação com nomes próprios. Assim, para não descaracterizar o nome próprio, usa-se, seja qual for a letra por que começa o segundo elemento, o hífen. Escrevemos, assim, anti-Cavaco. Mas escrevemos Anticristo. Para contornar a questão, até porque nos últimos dez anos se tem abusado claramente desta construção, a jornalista deveria ter optado por outra redacção. Por exemplo: «contra o Governo».

[Post 3079]

Elemento de formação «anti-»


Perplexidades


      «Animador [Daniel Bensaïd (1946-2010)] das revistas Critique Communiste e Contre-Temps [sic], lançara-se em 2009 na criação de mais uma força política, o Novo Partido Anti-Capitalista, em substituição da entretanto extinta Liga Comunista Revolucionária» («O filósofo vermelho», E. C., Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 20).
      «Anti-capitalista»? Não é assim em português — e não é, vê-se, por influência do francês. O elemento de formação anti- (e o copydesk — porque grafam copyDesk? — da revista Visão tem obrigação de sabê-lo) aglutina-se com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen. Anticapitalista, pois.

[Post 3078]

Homília/homilia

Corria o ano de 2007


      «Folheadas as mais de 400 páginas do volume no qual o bispo do Funchal reuniu as suas homílias, mensagens e entrevistas de dois anos à frente da diocese, não se encontram denúncias nem sobressaltos com a carga e o simbolismo das proferidas pelo cónego Manuel Martins» («Em nome do Pai, do filho e de... Jardim?», Miguel Carvalho, Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 44).
      E quatro vezes assim escreve Miguel Carvalho — e bem. Como teria escrito bem se tivesse escrito homilia. São variantes, e se esta última é mais usada, tanto na oralidade como na escrita, nada temos a criticar. Na maior parte dos casos, a opção por uma ou por outra deriva somente do gosto pessoal. Há mais variantes prosódicas, como se sabe. Clítoris e clitóris, por exemplo. (Que até tem outra variante, se bem que não prosódica: clitóride.) Algumas variantes não estão registadas nos dicionários, e é pena. Num texto, «Prazeres da língua — 3 (com a devida vénia ao canal, o Odisseia)», publicado por Valupi em Janeiro de 2007 no blogue Aspirina B, podia ler-se: «Falamos de um documentário científico acerca do clítoris. Ou do clitóris, como se grafa no livro A História Íntima do Orgasmo, de Jonathan Margolis, em tradução de Fernando Dias Antunes.» Não se vislumbra — ou será que se vislumbra? — uma ponta de crítica ou de ironia no reparo de Valupi. Fui eu o revisor daquela obra e optei por deixar a acentuação por que Fernando Dias Antunes se decidira — tanto mais que é, ainda hoje, a que me parece ser mais usada.

[Post 3077]

Aportuguesamento: «coltão»

Mistura de minerais


      «A guerra civil na República Democrática do Congo é, em grande medida, uma luta pelos recursos naturais do país. A ONU estima que o tráfico desta matéria-prima, usada nos telemóveis e na indústria espacial, tenha valido mais de 750 milhões de dólares, entre 2000 e 2004, aos cofres do Governo» («Coltão», Visão 880, 14.1.2010, p. 55).
      Actualmente, ainda nenhum dicionário regista este aportuguesamento — coltão —, que é, contudo, já usado em textos de vária natureza. Em alguns dicionários pode ler-se que coltan é a designação coloquial africana para uma mistura de dois minerais, columbita e tantalita, e que em português se diz columbita-tantalita. Demasiado comprido. Prefiro coltão.


[Post 3076]

Plural dos apelidos

Discriminação!


      Caro Público: porque escreves «os McCann» se escreves «os Médicis»? «Foi Cosimo I (1519-1574), o primeiro grão-duque de Florença e fundador da dinastia de Médicis que governou a cidade até ao século XVIII, quem encomendou ao arquitecto Giorgio Vasari (1511-1574) a construção dos Uffizi, onde originalmente funcionariam os escritórios das 13 magistraturas florentinas» («Guardiã dos tesouros dos Médicis», Ana Filipa Gaspar, Público, 29.1.2010, p. 43). «McCann enfrentam em tribunal polícia que os incriminou» (Paula Torres de Carvalho, 13.1.2010, p. 7).
      McCann não é plural em português nem em inglês. Médici já é plural em italiano. Tira tu as conclusões, que eu agora vou tomar o pequeno-almoço (e ainda tenho de ir à padaria da D. Narcisa comprar um cacete galego).


[Post 3075]

Acordo Ortográfico

Mentiras e desastres


      Ontem, a propósito da adopção das novas regras ortográficas por parte da agência Lusa (pretexto para voltar a clamar: «O problema é a nova ortografia ser uma mentira política e um desastre linguístico.»), o filósofo Desidério Murcho voltou a publicar um texto sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Eis um excerto: «Na verdade, ocorre as duas coisas: a ortografia afecta a fonética e a fonética a ortografia. Por exemplo, porque alguém no Brasil decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”, e porque se decidiu escrever dessa maneira, agora as pessoas no Brasil considerariam bizarro dizer “facto” — apesar de dizerem tranquilamente “factivo”, o que é estranho.»
      É, decerto, uma caricatura. Nem se sabe exactamente como é, mas não há-de ser porque «alguém decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”». E, por outro lado, pensemos, será assim tão bizarro? Também nós não articulamos o p, consoante etimológica, de Egipto e não deixamos de o articular em egípcio. Sendo assim, inteligentes são os Brasileiros, que alijaram a carga inútil do c em facto, porque não o articulam, e não prescindem dele em factivo, porque o articulam.
      Já conheço o argumento: este acordo veio consagrar o desrespeito pela unidade das famílias de palavras. Contudo, foneticamente já havia falta de unidade. Nunca haverá coexistência pacífica entre o ideal fonográfico e o princípio ideográfico (agora, com este acordo, seriamente quebrado), mas pensem só no século XIX e em toda a trapalhada que então se vivia.

[Post 3074]

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